Vamos ponto a ponto:
Pessoalmente acho que as substituições são um dos pontos mais sobrevalorizados no trabalho de um treinador. As mudanças que um treinador a sério faz durante um jogo tendem a ir bem para lá disso, e o impacto delas normalmente não é bem avaliado. Tanto que tiveste o Guardiola a varrer a melhor liga do mundo ano após ano com vários jogos que ia buscar sem fazer uma única substituição.
Quanto à leitura de jogo, para concordar contigo teria de ver no Sporting do Amorim uma tendência de quebra grande durante os jogos, e de a equipa não saber reagir a alterações tácticas do adversário. A única altura em que vi isso foi em jogos fora da 1ª volta do campeonato 22-23. De resto, não vejo qualquer base para a crítica, até porque a tendência normalmente até foi a contrária - o Sporting foi buscar muitos jogos perto do final ao longo da estadia do Amorim aqui e, particularmente neste ano e meio, foi bastante impermeável às tentativas dos adversários de travarem o nosso domínio/caudal de jogo a meio das partidas.
Essa ‘rigidez’ é característica de quase todos os treinadores de top da actualidade. Há sempre bastantes tweaks tácticos que se fazem, mas a hora dos camaleões no topo (no que diz respeito a alterações mais estruturais de jogo para jogo) já acabou. Basta ver os treinadores do Top 6 da Premier actualmente - vá, excluindo o United.
Quanto a modificações do estilo de jogo, total desacordo. A forma como o Sporting enfrentou o City foi completamente diferente da forma como enfrentou o Famalicão, por exemplo. Só que, obviamente, não são muitos os jogos em que uma equipa como a nossa vai adaptar assim tanto. Somos muito melhores que 90% dos adversários, por isso o relevante é ter uma dinâmica particularmente forte à qual eles não consigam responder minimamente.
Depende. Contra pressões altas mais ‘normais’, as dificuldades eram poucas. Basta ver os banhos que o Braga cá veio levar a Alvalade a tentar pressionar a campo todo, por exemplo. Os clássicos já foram mais apertados, mas não acho que tenham sido exemplos enormes de pressão alta. O Conceição por exemplo preparava muito bem os jogos contra nós, mas era mais uma pressão bastante organizada e agressiva em bloco médio.
Desta versão mais tacticamente desenvolvida, as dificuldades contra a pressão existiram contra equipas que pressionavam individualmente a campo todo. Foi um estilo que a Atalanta popularizou nos últimos 2 ou 3 anos (já o fazem há muito mais) depois de ter caido em desuso, e é algo com que nós, de facto, tivemos dificuldades a lidar. A Atalanta foi melhor que nós no geral dos 4 confrontos directos, tal como foi o PSV. Mas estamos a falar de equipas que, no caso da 1ª, varreram equipas com um poderio bem superior ao nosso a seguir a esses 4 jogos, e, no caso da 2ª, têm um registo incrível em casa com o Bosz, até mesmo na Europa. Criaram-nos muitas dificuldades como criam a praticamente toda a gente, porque são equipas de grande qualidade. E, apesar disso, os resultados em todos esses jogos foram muito equilibrados e decididos em detalhes - apesar de eu achar, na globalidade, que fomos inferiores à Atalanta no global dos 4 jogos e no jogo em Eindhoven.
Extremamente exagerada. Aliás, o Talent ID do Amorim é bastante superior ao de qualquer treinador Português que tenha passado pela nossa liga nos últimos largos anos. Gosta demasiado do Esgaio, sim, insistiu demasiado em não ir buscar outro avançado, e demorou a considerar verdadeiramente o Bragança, por exemplo (embora também tenha sido prejudicado pela lesão). Mas também nos arranjou 2 titulares literalmente do nada - o Geny que jogava pouco no Marítimo e o Quaresma que foi devolvido pelo Hoffenheim. E teve 1 ano e meio de paciência para a explosão do Trincão. E construiu um quadro de centrais de um nível surreal para a dimensão do nosso campeonato.
Se quiseres fazer este exercício para o Abel no Palmeiras, ou para o Conceição no Porto, garanto que vais ter bastante mais por onde pegar.
Gyokeres que foi insistência pura dele. Na altura o negócio estendeu-se e a postura de ‘Gyokeres ou nenhum’ da parte do treinador foi aqui muito criticada 
De qualquer modo, o SCP dele não teve uma temporada boa, teve uma temporada má. Não esquecer que no 2º ano fizemos os mesmos 85 pontos do ano do título, e o que aconteceu no último ano e meio foi o que foi. 40 vitórias em 45 jogos do Campeonato no último ano e meio. O sucesso do Amorim aqui precede o Gyokeres, apesar de obviamente o impacto dele ter sido muito grande desde que cá chegou.
De qualquer modo, pensei que a brincadeira de que o Gyokeres ganha jogos sozinho tivesse ficado bem desvanecida nestes últimos jogos. Não só não ganha, como o impacto dele tem sido bem diferente agora sem o Amorim. Isso não belisca em nada a qualidade dele, mas se calhar a relação foi bem mais simbiótica do que tu queres fazer passar…
De resto, a evolução do Sporting entre temporadas é muito clara, diga-se. O modelo do Sporting tem evoluido de ano para ano, apesar de ter tido uma época má pelo meio (a do 4º lugar). Muito pelos tais jogos fora na 1ª volta, em que a equipa até começava bem, mas levava sempre com a 1ª contrariedade, e mal isso acontecia morriam.
No restante, a tendência foi clara. Começámos de uma base defensiva muito forte, com princípios defensivos extremamente bem trabalhados, e com o tempo fomos adicionando coisas e profundidade ao modelo de jogo. De tal forma que esta versão do Sporting tinha resolvido boa parte das falhas iniciais do modelo, sendo uma equipa completíssima e super dominadora em todas as fases, no plano nacional.
Esta evolução do modelo é completamente anormal, já agora. A tendência da maioria das equipas é estagnarem ou até regredirem no seu nível de jogo, como te dirão os adeptos do Palmeiras por exemplo. A procura constante do Amorim de refrescar as suas ideias, beber dos melhores, absorver conceitos e implementá-los é bastante única no universo de treinadores portugueses, e o maior sinal de que esta liga já era demasiado pequena para ele, de resto. A entrevista que o Adélio deu no fim do verão passado é perfeita para se perceber isto…
Mas pronto, é o que é. O Amorim é passado. A prioridade agora é ver se conseguimos manter o rumo que ele construiu neste clube, e seria sempre nesse sentido que qualquer decisão teria de ser tomada. Infelizmente, estamos a regressar à normalidade em tempo recorde. Não estou nada optimista quanto aos nossos passos futuros, mas só o tempo dirá.