No post que abre este tópico o Mauras foca diversos aspectos. Falarei apenas dos que têm actualidade e premência imediata, deixando de lado os sócios e a vertente desportiva, que sendo os mais importantes não estão presentemente na ordem do dia.
(A quem ler tudo até ao fim, desde já agradeço a paciência).
Sobre o património:
Dizer que devemos livrar-nos de todo o património não afecto às finalidades do Sporting é redutor. As finalidades são meramente desportivas, mas em torno delas existem áreas de negócio específicas do Clube e que não devem ser alienadas.
A FanLab, por exemplo, não é um equipamento desportivo, e todavia serão poucos ou nenhuns os que defendem que seja vendida. E porquê? Justamente porque opera numa área de negócio- a exploração da marca Sporting- que é própria do Clube e tem um lugar na sua esfera de actividades.
A minha posição sobre isto é pois muito simples: devemos livrar-nos do património afecto a áreas de negócio totalmente estranhas a um Clube desportivo. E isto implica distinções:
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O edifício do Visconde é o exemplo prototípico de uma área de negócio estranha ao Clube. É um edifício de serviços, não serve nenhuma finalidade específica do Sporting nem explora a sua marca. Admito que seja vendido, com uma ressalva: faria sentido que o piso ocupado pelos serviços do Sporting permanecesse nosso. Por uma questão de princípio (para não sermos inquilinos em nossa própria casa) e também porque a venda de tudo nos obrigaria a pagar uma renda certamente elevada.
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A Alvaláxia é um caso diferente. Parece evidente que não tem qualquer viabilidade enquanto espaço comercial apenas vocacionado para os dias de jogo (aliás, parecia evidente desde a primeira hora, e o estranho é que alguém tenha pensado o contrário). Nesse sentido, a solução da Alvaláxia será transformar-se num centro comercial como os outros, livrando-se da sua conotação clubística. No entanto, e sem conhecer os números, parece-me má ideia vender à pressa e em baixa. O desenvolvimento na área do antigo estádio (qualquer que ele seja; um dia se descobrirá) será certamente um boost à potencialidade do centro comercial, e permitiria uma negociação em condições mais favoráveis.
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O bingo é um caso especial. Tem profundas tradições no Clube, ao qual sempre esteve associado. O facto de ser “o bingo do Sporting” foi sempre uma marca distintiva, o que me leva a pensar que tem o seu lugar na esfera de actividades do Clube.
O que acontece é que não pode ser tratado de acordo com a “lei do menor esforço”, que é aquilo que faz FSF. O bingo passou de um lucro de 1,5 milhões de € anuais para uma exploração deficitária. A solução do presidente é fechá-lo. A solução do bom senso seria reavaliá-lo, tentar perceber as causas de tão abrupto decréscimo de receitas e corrigi-las. Nem sequer parece muito difícil, dado que o declínio do bingo coincidiu com a sua mudança de instalações.
- A clínica CUF e o Holmes Place são casos de fronteira. Não tenho conhecimentos que me permitam concluir se a marca Sporting é ou não um elemento determinante na respectiva exploração comercial. Se não for, não me repugna que sejam vendidos.
Sobre a questão do património há que ter presente o seguinte: durante uma década a edificação destas infraestruturas foi o holiest of holies do Projecto. Sempre que se apontava o desinvestimento desportivo, logo aparecia alguém a justificar-se com o esforço empreendido na construção civil, que não só nos daria equipamentos desportivos de primeiro plano como nos proporcionaria rendimentos imobiliários fundamentais para o crescimento e sustentação futuros do Clube.
Já se percebeu- como foi avisado em tempo- que isto era mentira. Os equipamentos desportivos que temos, são os que os nossos rivais têm; e o património imobiliário é uma manada de elefantes brancos deficitários.
Significa isto, em linguagem prosaica, que o Sporting comprou um porco inteiro e vai comer apenas os ossos, deixando para outros o lombo. Ou seja, metemos mãos a edificar património, endividámo-nos para isso, deixámos de fazer outros investimentos, e agora vamos vender com pequena mais-valia (se é que haverá alguma), para que no futuro outros, mais competentes, rentabilizem esses espaços.
Os equipamentos cuja venda FSF propõe custaram 35 milhões de € a construir (números de Rui Meireles em entrevista). Em cima disto terão sido pagos juros que não posso contabilizar. Se o valor da venda for aplicado na redução do passivo correspondente àqueles equipamentos, como é anunciado, que mais-valia será esta, que nos permitirá pensar em pavilhões e pistas de atletismo? Não brinquem (ainda mais) com a inteligência dos sportinguistas, por favor.
Modalidades:
Uma vez mais FSF vai pelo facilitismo. Não se auto-financia, fecha. Assim, sem mais, sem um esforço, sem criatividade, sem a mais leve busca de soluções, parcerias, o que seja, que permita defender um património de um século.
Está mal. Isto decorre tão só de uma cultura de preguiça, derrotista, de nenhum esforço na procura de soluções e de cegueira perante as condicionantes.
Se o andebol tem 70 espectadores, isso não poderá dever-se à falta de um pavilhão em condições próximo da zona histórica do Clube? Pelos vistos, FSF não está interessado em saber. Dá-lhe menos trabalho fechar a porta. Quem sabe um dia não dirá o mesmo do futebol, atingindo assim o almejado equilíbrio económico: zero receita, zero despesa…
Tudo isto se torna ainda mais risível se conjugado com a propalada intenção de construir um novo pavilhão. Então a ideia é ficar apenas com uma modalidade de pavilhão (andebol ou futsal, visto que o atletismo parece intocável), e vai-se construir um novo? Para os jogos de uma única modalidade? Que espécie de rentabilidade terá esta infraestrutura? Uma vez mais, populismo puro. A promessa de um pavilhão nestas condições não é mais que uma cenoura pendurada no nariz do burro, para que ele aprove a venda de património. Mais um insulto à inteligência.
SAD:
Não me repugna a redução da posição do Clube desde que se conserve o controlo. Segundo sei isto está blindado nos estatutos da SAD, e só será modificado com o voto favorável do accionista Sporting. Espero que não haja a ousadia de ser dado um voto destes sem prévia anuência da AG do Clube (um pouco à maneira da rábula das AGs de 2003).
Quanto aos investidores, não tenho ilusões. Também me agradaria a ideia romanceada de um “capitalismo popular sportinguista”, com as acções exclusivamente na mão de sócios. Sei no entanto que isso é irrealizável. Procurem-se pois os melhores parceiros.
O que está em causa:
Como expliquei, discordo de algumas das ideias de FSF e aprovo outras. Mas ainda que concordasse com tudo, ainda que as palavras de FSF fossem a expressão exacta do meu pensamento, estaria contra ele e a sua candidatura, por questões puramente pessoais.
Este FSF que vos fala é dirigente do Sporting desde 96 ou 97. Acompanha o Projecto desde a sua “primeira infância”. É responsável por ele. Tinha poderes decisórios. Votou as deliberações que fizeram com que tudo se concretizasse.
Se não concordava com o que estava a acontecer, e não se demitiu, a sua falta de convicções desaconselha-o para presidente. Se concordava, tem culpas no cartório, e também não serve para um tempo que se espera novo. FSF é uma das primeiras figuras do Projecto que agora quer demolir. É como já foi dito aqui por vários foristas: não tem qualquer moral para continuar.
O que FSF pretende é transformar-se em paladino de ideias contrárias às que têm regido o Clube na última década, fazendo de conta que não é ele próprio um dos principais responsáveis pelo facto de o Sporting ter passado dez anos num caminho que, comprova-se, era errático e inconsequente.
Salvas as devidas proporções, é como se no final da II Grande Guerra o Goering, em vez de ser julgado em Nuremberga, se propusesse para liderar a Alemanha em democracia, defendendo a coexistência pacífica com os estados vizinhos e a integração dos judeus.
Não pode ser. Este transformismo de FSF, Roquette, Ferreira da Silva e outros mais que hão-de seguir-se, é um espectáculo repulsivo. Querem mascarar aquilo que é o colapso de um conjunto de ideias, supostamente concebidas e executadas por entes superiores e iluminados, e fazer de conta que é apenas uma “evolução”. Não é. Isto que FSF quer fazer é exactamente o contrário do que foi o objectivo de dez anos.
A este respeito, a postura de Roquette choca-me particularmente. Vê-lo apoiar FSF, sufragando as suas ideias de liquidação do património imobiliário, é, para voltar à metáfora política, o mesmo que ver o Marx levantado do túmulo a defender com unhas e dentes as virtudes da propriedade privada (e eu até tinha algum respeito por Roquette, e pouco ou nenhum por Marx).
E podia dizer-se que estas pessoas apesar de tudo reconheciam o erro e as suas responsabilidades nele. Mas não. Aparece FSF com tretas sobre nova economia, multimédia, aviões que entram em torres e outras balelas de que nem me quero lembrar para não me irritar ainda mais. Isto é o traço distintivo de dez anos de Projecto: incompetência, fuga às responsabilidades, insulto à inteligência.
Desafio FSF a mostrar um plano, um projecto, uma carta de intenções, um único documento, um só que seja, da época do início do Projecto, em que seja referida a “nova economia” como sustentáculo essencial do projecto empresarial do Sporting.
Tenho aqui à minha frente o jornal do Sporting que relata a AG em que foi aprovada a constituição da SAD e a construção do estádio (4 de Junho de 1997). A palavra a José Roquette:
As acções da SGPS vão estar na Bolsa. Acreditamos nas quatro sociedades que a compõem- a Desportiva, a do Estádio, a de Serviços e a Imobiliária. Acreditamos que isto é possível.
A estrutura do grupo empresarial era esta. Quatro sociedades, nem uma dedicada à multimédia ou aos conteúdos. FSF mente.
E mesmo que a “nova economia” tivesse sido prevista, que relação teria o seu colapso com a ruína dos investimentos imobiliários, que é disso que se trata? Não consigo perceber.
Acresce que FSF em particular já declarou ser contra a existência de sócios com poder de decisão e a favor da extinção de todas as modalidades à excepção do futebol. Isto dá-nos elementos preciosos para interpretar as suas actuais propostas. Quando diz que se deve abdicar de uma das modalidades profissionais, e depois que o Sporting deve centrar-se naquilo que faz bem (futebol e atletismo), está a dizer que a prazo só quer ter futebol. Quando diz que admite a redução da participação do Clube na SAD para níveis minoritários, está a dizer que pretende retirar aos sócios toda e qualquer fiscalização (já nem digo intervenção) sobre os destinos das actividades do Clube.
Concluindo: a postura de quem pretende passar uma esponja no passado é indecorosa. FSF não tem pinga de crédito para protagonizar o futuro do Sporting, precisamente porque tem graves responsabilidades no fracasso que foi o passado recente. Mudar de opinião não basta, muito menos quando não há a humildade de reconhecer os erros e se sacode a água do capote, atribuindo tudo a factores exógenos. E ainda por cima quando, antes de ser candidato, expôs em toda a sua pureza a “democraticidade” do seu pensamento…
A gente do Projecto não serve. É a mesma pandilha de sempre, travestida numa suposta “renovação” ou “evolução”, mas conservando a mesma arrogância intelectual e desprezo pelo que é uma verdadeira cultura de Clube. Reconduzi-los seria bater palmas ao que foi uma gigantesca mistificação, mantida durante anos perante milhões de pessoas; seria aprovar mais um Projecto, ignorando o que foi o primeiro.
O que é urgente:
Tal como as coisas estão, o futuro do Sporting não vai jogar-se nas urnas, mas numa iminente AG em que FSF submeterá as suas ideias ao voto dos sócios.
Pretenderá com isto furtar-se ao debate de ideias próprio das eleições e evitar ser confrontado com as suas responsabilidades no passado. Perante uma AG com meia dúzia de carolas, acomodados e sem energia para grandes intervenções ou indignações, não será difícil obter um voto esmagador, que a acontecer esvaziará de sentido as eleições e constituirá pouco menos que um golpe de estado.
No imediato, há que impedir que isto aconteça. Isto faz-se desde logo comparecendo na AG, evitando que a sua composição votante seja a do costume, e fazendo o tal número de várias inscrições para falar. Mas, arriscando um pouco por não conhecer os estatutos do Clube, poderia fazer-se também submetendo à AG, no período “antes da ordem do dia” (se é que existe), uma proposta para que não fossem votadas as medidas, por comprometerem o Clube para além do horizonte temporal de um mandato que está prestes a terminar. Ou mesmo antecipando as eleições através da convocação imediata de uma AG extraordinária, assim haja assinaturas e votos para isso (repito que não sei se é possível, estou a especular com base noutros casos de que tenho conhecimento).
Depois haverá a batalha das eleições. Afigura-se-me muito difícil. Voltando à política, o Projecto é uma espécie de partido no seio do Sporting. Representa uma determinada corrente “ideológica” e um certo posicionamento social, e tem um grau muito razoável de organização e regeneração.
Tal como os partidos de verdade, estando no poder há tanto tempo, criou uma teia de cumplicidades, hábitos e dependências, que se instalaram nas estruturas anquilosadas do Sporting. Muitas vezes o escrevi aqui: o Projecto “armadilhou” o Sporting. Criou estruturas tão complexas, fomentou relações e dependências tão estreitas com certo tipo de meios e entidades, que agora é muito difícil algum estranho conseguir penetrar no círculo fechado.
Será muito complicado derrotar o statu quo. A massa associativa do Sporting, já de si com perfil conservador, está muito habituada a que sejam estes os dirigentes do Sporting, e, apesar da evidência do descalabro, tenderá a assustar-se com a habitual cantiga de “nós ou o caos”. Acresce que os cinquentenários têm sido apaparicados pelo Projecto, uma atitude que teve pouco de ingénua.
Penso que é um imperativo de sportinguismo que as candidaturas de oposição que se perfilam se unam em torno de uma só. A batalha é desigual à partida, e estará perdida se o Sporting inconformado que ainda subsiste se apresentar dividido.
O desfecho:
Não tomarei parte em nenhuma destas decisões. Bem ou mal, há muito que renunciei a fazer parte deste Sporting como sócio. Mas se o resultado for a derrota e a continuidade do Projecto… Bem, nesse caso o meu afastamento deixará de ser formal e passará a ser de facto.
Vivo demasiado o Sporting. Sofro demais com ele, desgostado porque não vive à altura da sua grandeza. Se agora, quando está provado para lá de qualquer dúvida razoável que o Projecto foi um logro gigantesco, lhe for dada a oportunidade de continuar, não só perderei a esperança como perderei o sentimento de pertença à irmandade sportinguista.
Não se pertence àquilo que não se respeita, e a mim não me sobrará qualquer respeito por uma comunidade que premeia com votos quem a engana e enxovalha durante dez anos.