Parece-me pelo que li que há aqui alguma confusão entre o que é ou não bullying e sobre os tempos em que vivemos actualmente, talvez porque não tenham filhos ou não estejam muito por dentro da realidade dos dias de hoje. Eu também não os tenho, mas tenho dois sobrinhos e uma sobrinha, além da enteada do meu irmão mais velho.
Aquilo que a maioria de nós viveu em crianças era acima de tudo a lei do mais forte, havia os grandes, os que tinham um grupo, os fortes, depois havia os mais franguiços, os mais sozinhos, os gordos, os altos, os ricos, os pobres, havia calduços, havia guerras, havia malta a levar luvas de boxe, havia malta a levar paus, havia pedradas, os jogos de futebol acabavam sempre em estalada, em pontapés, não havia semana sem nódias negras, eram outros tempo mas acima de tudo havia essa atitude de rua porque éramos livres a mentalidade de andar-mo-nos a “sujar” na rua fazia bem. E no fim das contas só crescíamos com isso até porque ao fim de cinco minutos tudo passava e já nos dávamos todos bem.
Mas eram tempos onde não haviam telemóveis(só tive o meu quando já andava no 11º ano), não havia internet(a minha primeira só tive aos 14 e quando o telefone tocava gritava de medo para a minha mãe não atender porque se não ia abaixo, não havia redes sociais(mais tarde veio o hi5), os próprios telemóveis só serviam para telefonar e eram calhamaços, mesmo os computadores, que eram lentos e quase deitavam fumo, para pouco serviam, tínhamos de comprar diciopédias e o crl e depois guardar as cenas em disquetes.
Hoje em dia os miúdos aprendem a mexer e a jogar em telemóveis e tablets antes do 1º ano, os pais metem-nos entretidos com isso enquanto estão com a sua vida e já entram no ensino básico a saber tudo e mais alguma coisa. Hoje em dia o grave não são as palmadas e os pontapés, ok, também tem de se ter atenção a isso, mas o que realmente destrói hoje em dia é o bullying mental, é o corroer de tal maneira uma pessoa por dentro, fazê-la sentir-se mal ao ponto de sofrer e condicionar o restante da sua vida porque são nestas idades que a personalidade se molda.
Ainda há dias saiu uma notícia de uma rapariga que todos os dias recebia mensagens no telemóvel a dizer “ninguém gosta de ti”, “todos na turma de odiamos”, “porquê que não te matas”… Também recentemente tivemos o caso daquela miúda desaparecida que depois se soube que se suicidou porque não aguentou mais, sabe-se lá porque terá passado, tivemos também o caso recente daquele jovem rodeado por vários colegas a ser espancado sem ninguém fazer nada porque lá está, finalmente tinha decidido reagir ao que lhe diziam… E isto só nos últimos meses.
Porque é assim nos dias de hoje, todas as turmas têm grupos de whats up, todos os jovens têm instas e facebooks, tudo se diz, tudo se inveja, tudo se tenta deitar abaixo, ainda por cima sabemos que as crianças e sobretudo os adolescentes conseguem ser cruéis e ainda se aproveitam de questões raciais, xenófobias ou sexistas, numa era em que poucas são as escolas em Portugal que não têm chineses, romenos, moldavos, brasileiros, africanos etc.
Posso confessar que no início do ano escolar do meu sobrinho mais velho, com 13 anos, talvez um mês de escola ou assim, ele me mostrou o whatsup que tem com os colegas da turma e reparei que tinham várias fotos de um outro colega. Essas fotos eram todas tiradas à socapa por outros da turma, sem ele ver, mas percebia-se que era daqueles com muitas borbulhas, tinha quase uma monocelha e os comentários eram todos de gozo. Basicamente era o bobo da corte. Eu achei aquilo de mau gosto e como 13 anos é uma idade em que já dá para ter conversas adultas perguntei-lhe se ele achava aquilo bem. Ele lá me disse que usso eram os colegas, ele nunca tirou fotos nem dizia nada. Mas eu disse-lhe se ele gostava que fosse com ele e se não deviam parar de meter fotos dele. Ele lá me disse que não havia mal porque o rapaz quase não falava com eles, que não estava no grupo e que não sabia. Perguntei-lhe como é que ele era e o que fazia nos intervalos. Ele lá me disse que não sabia mas que estava sempre a jogar no telemóvel. Eu lá tive uma conversa para que ele de forma adulta conseguisse perceber o problema, que tentasse perceber que se calhar estava no telemóvel porque se sentia sozinho, que o deviam incorporar nas brincadeiras e que deviam deixar o rapaz em paz mas acima de tudo alertei o meu irmão e a minha cunhada porque não achei aquilo muito bonito(eles não sabiam). O que sei é que o rapaz hoje em dia é presença assídua na casa deles e isso deixa-me super feliz. Mas super feliz a sério. Parece uma história da carochinha, que me quero passar por bom samaritano, mas não foi nada disso, foi apenas sorte dele me mostrar o whatsup porque queria que eu visse lá um meme, e por ser afinal de contas um rapaz com tino, com bons pais, que conseguiu perceber o que era preciso fazer.
Mas a verdade é que em quase todas as escolas por aí há rapazes e raparigas a sofrer em silêncio. Não por levar pancadas físicas mas por levar machadadas na sua saúde mental, malta que sai da escola e se fecha no quarto sem contar aos pais e que vai para a escola como se fosse para um tormento.
Por isso sim, discordo de muito do que foi dito por aqui porque não acho que estejamos num mundo de flores de estufa, não acho que o que é preciso é a tropa nem acho que devamos ignorar a realidade dos dias de hoje, ainda por cima num mundo onde séries como a euphoria, elites e wtv quase obrigam os putos a entrar na sexualidade aos 15 anos(eu com 15 anos ainda jogava pokemon no game boy e só queria era que me saíssem cartas magic raras nas carteirinhas), quase os obrigam a ter uma aparência perfeita, obrigam as gajas a querer maquilharem-se desde os 12 e a eles a irem ao ginásio aos 13, num mundo em que não ser perfeito, não ter um grande grupo de amigos, não sair à noite ou não ser muito extrovertido pode dar logo aso a deixar alguém de parte.
A solução para mim passa apenas e de forma simples por uma coisa, educação dos pais. Os pais têm de educar os filhos a aceitar os outros, a respeitá-los como eles são, a abraçarem a diferença e não a excluí-la, têm de perceber os sentimentos dos filhos, têm de ter uma relação de proximidade para falarem abertamente de tudo, têm de ser pais mas também amigos, têm de os ensinar a não maltratar ninguém, a não serem cruéis, deviam ser vigilantes no que dizem e escrevem, ter atenção ao rendimento escolar e se há oscilações fora do normal etc etc. Porque sim, estamos em 2022 e a saúde mental não é só uma coisa bonita que está na moda.