E porque não, deixar aqui toda a mensagem que, diga-se, tem uma enorme beleza nostálgica:
"A evolução dos tempos e os actuais movimentos sociais e económicos vigentes alteraram significativamente os hábitos interpessoais e as diversas relações inter empresariais. Tanto ao nível individual como ao nível institucional.
Sou sócio nº xxx do Sporting Clube de Portugal. Infere-se pelo número que já o sou há largos anos. Ser sócio de uma instituição desportiva não se traduz pelo interesse financeiro que daí possa advir, mas sim pelo espírito de devoção ao clube, de tentar ajudar o clube a evoluir e ser melhor e mais forte! Evidentemente que a quotização associada ao sócio continha algumas vantagens comparativamente ao adepto dito normal, nomeadamente ao nível de bilhetes para os jogos, no saudoso “Dia de Clube”.
Infelizmente, tenho que lamentar que os “avanços” sócio-económicos tenham reflexos no Sporting, ainda para mais com a força com que tais reflexos asfixiam a instituição. Hoje não existe o Clube Sporting, do qual eu era sócio. Existe o Grupo Sporting, que mais não é senão um conjunto de empresas que pretendem tirar proveito do negócio desportivo.
Este é o anseio final duma caminhada iniciada pela equipa de José Roquette, com quem aliás nunca concordei. Retirou-se o protagonista principal, mas foram-se promovendo actores secundários para que a “peça” continue em cena.
Hoje o Sporting tem um estádio novo, uma academia de futebol, um polidesportivo moderno para as modalidades amadoras – sem bancadas. Tem até um centro comercial…
É um facto!
Mas hoje, o Clube está morto. Não existe mais.
Em 8 anos, sensivelmente, o Sporting passa de 80.000 sócios para 29.000. Perde-se um inestimável capital humano, forças mobilizadoras e disponíveis a catapultar o Clube para outros voos.
O Estádio vai estando semi-cheio nos jogos em casa pelo efeito Gamebox. Eu prefiro dizer que o estádio vai estando semi-vazio, uma vez que grande parte das pessoas que vai hoje ao estádio, vai porque já pagou!
Não existe animo em redor do estádio nos dias de jogos, as discussões versam sempre sobre o mesmo tema, que normalmente se traduz no relação de clube refém. Refém de colaboradores / atletas que não tem um décimo do valor necessário para vestir a camisola, de um qualquer brasileiro que amua, faz birrinhas como se de uma criança se tratasse, ao mesmo tempo que passa no banco para levantar o seu “miserável” ordenado.
Enquanto se assiste a esta novela, temos o “prazer” de verificar os já propalados actores secundários anunciar que o “clube pode morrer”, que “é viável mas há contratos a cumprir” ou ainda “que o passivo está controlado, mas a politica de rigor tem de prosseguir e por isso não se pode deixar entrar nenhum aventureiro”.
Independentemente de concordar ou não com tais afirmações, deverei congratular o departamento de marketing do Sporting por ter conseguido ludibriar os sócios do clube ao promover os “Indomáveis”. Em ano de centenário, não haveria, com toda a certeza, algo que os sócios pretendessem mais – uma equipa indomável.
Mas não é a isso que se assiste!
O que se assiste é a delapidação dos recursos humanos do plantel profissional, em nome do rigor, dos “contratos que se têm de cumprir”, das operações financeiras de elevados montantes que têm que ser asseguradas todos os anos.
E com isso chegamos à brilhante equipa de hoje…
A juntar a todo este sentimento transversal a toda a massa associativa e adepta do clube, temos a criação oficial da nova categoria de “sócio” – o adepto. Sempre existiram, mas nunca desta forma.
Hoje, o adepto não paga quotas, pode ir ao estádio quase ao mesmo preço do sócio, apenas com a diferença de não ter lugar marcado…
Pelas razões apontadas, julgo não ser necessário, nem pretendido pelos actores secundários, existirem sócios.
Bem vistas as coisas, as empresas não têm sócios…
Pelas razões apontadas, indico-vos que pretendo que cancelem a minha inscrição de sócio a partir do próximo dia xxxx
Continuarei a sentir-me sócio da instituição, e um adepto indefectível do sonho iniciado em 1906 com o lema “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória, Eis o Sporting”.
Mas não conto convosco para prolongarem este sonho!
Afinal de contas, não passam de actores secundários… "