Touradas: A favor ou contra?

LOL… tens toda a razão; no entanto entre escrever sobre as “touradas” em que se encontra mergulhado o nosso amado clube, ou vir escrever para aqui… olha deu-me para vir para a este tópico. Saliento que como é habitual neste forumscp, a qualidade da generalidade das intervenções, e o respeito pelas opiniões de cada um é algo de assinalável!

Não sendo especialista em questões da biologia e da evolução das espécies e das raças… ou muito me engano ou a raça do touro bravo estará bem mais próxima da raça bovina original do que as vacaquinhas que o Homem domesticou. Por falar nisso, fiquei a pensar na vaquinha Mimosa que os meus pais tinham quando eu era menino… o sabor daquele leite não tinha nada a ver com as mistelas dos pacotes que hoje tomamos ao pequeno almoço.

Aceito que o ser humano terá apurado a raça do touro fazendo sobressair a sua bravura… mas os animais domésticos , entre os quais o gado bovino foram… “domesticados”. Qual será a raça mais artificial, os bois domésticos ou os touros de lide? confesso que não sei… mas independentemente disso acho que nunca defenderei medidas que favoreçam a extinção (directa ou indirectamente) de qualquer espécie (ou raça) animal (ou vegetal)!

OOOOOOOOOLÉÉÉÉ! EEEHHH, EHH TOURO LINDE :victory:

[youtube=425,350]http://www.youtube.com/watch?v=295-otP0u9U[/youtube]

palavras para que …

Já cá foi posto.

Alguém sabe se os caracóis também choram?

os que passam a vida dentro de água, que são os que tenho, acho que não, pelo menos nunca vi nenhum com aspecto triste a limpar os olhos com as antenas.

A verdade é que também não lhes espeto ferros.

Lá vem a conversa dos matadouros… :inde:

Querem falar sobre como são tratados os animais nos matadouros e sobre a origem das suas raças abram um tópico para isso, aqui se bem me lembro fala-se sobre a proibição ou não da tourada. :wall:

Coloca umas caracoletas a assar e vais ouvi-las a chorar.

Ná… Nick Jagger estás a citar-me, mas eu nunca falei sobre matadouros!

Mas alguém anda a espetar banderilhas em caracóis vivos, vendo eles sofrerem até à morte e apreciando aquilo como um espectáculo nobre? Que eu saiba os caracóis são cozinhados assim como qualquer outro animal o é. Aqui não se está a discutir a morte do touro, mas sim este “espectáculo”. Se quiserem matar o touro no matadouro para consumo que o façam. Agora muitas vezes os touros saem de uma tourada, sendo só mortos no dia seguinte e nem para consumo já servem. E não estou a falar de cor. Por isso é obrigatória a presença de um veterinário.

Baba e ranho.

Peço desculpa, tinha de ser.

Para os comeres, tens que lhes espetar os ferrinhos, ou para ser mais suave mas nem por isso menos pontiagudo, um palito.
Ah, mas já estão mortos, e com toda a razão. Mas foram metidos numa panela com água a ferver e cozidos vivos. Uns, honradamente, morrem de cabeça erguida, outros preferem esconder-se de tal vergonha e vão agonizando dentro de casa.

Não posso achar ao acto da cozedura do caracol um espectáculo? Sempre ouvi a minha avó que deus tem dizer que, cozer bem o caracol, era uma “arte”.

Nem todos os touros são mortos no dia seguinte, e os que são e vão ser aproveitados para consumo as feridas são lhes tratadas, precisamente para não alastrarem. Há touros que nem chegam a ser mortos, são tratados e regressam ao campo, como sementais, para a preservação dos genes da bravura e nobreza, para termos um touro bravo cada vez mais requintado.
Mas volto a referir, que nem sou muito fã de corridas de touros (de touras, sim) e admito que a parte que mais entusiasmo me dá é ver a saída do touro para a arena, deslumbrar-me com o porte e força bruta do animal, e a parte dos forcados.
Porque de resto, a tourada a mim passa-me ao lado.

Sou muito mais apreciador de largadas de touros, garraiadas e brincadeiras semelhantes, mas muito mais.

Agora não posso é concordar com quem se diz activista e salvador da pátria taurina, quando e tão somente segue um capricho de retirar uma “diversão” ao povo. Hoje luta-se por tudo e mais alguma coisa, a tourada é apenas um pretexto para se fazerem ouvir até porque tropeçam neles mesmo de tanta contradição psicológica. Porque como já aqui foi dito e re-dito, sem touradas o touro de lide acaba, extingue-se, para sempre, sem ter qualquer outra hipótese de sobrevivência.
E digo-o, afirmo-o quantas vezes forem precisas, porque desde pequeno me habituei a ver os touros no campo e tenho a sorte de ter um avô que sempre trabalhou no ramo toda a vida.
Tratava dos touros, arranjava-os para as corridas e era…talhante. Ironia das ironias.

As petições já de si são ridiculas, a não ser que sejamos um Rui Santos disposto a tal palhaçada, então petições para se extinguir isto ou aquilo mais ridiculas se tornam.
A festa brava existe há séculos, e continuará a existir porque dela dependem as vidas de milhares e milhares e milhares de pessoas e, sobretudo, a vida do animal que tanto defendem, mas que fazem questão de desconhecer os contornos em que o touro de lide nasce, é criado, alimentado à mão, vive como rei, é lidado e morto.

Para os comeres, tens que lhes espetar os ferrinhos, ou para ser mais suave mas nem por isso menos pontiagudo, um palito. Ah, mas já estão mortos, e com toda a razão. Mas foram metidos numa panela com água a ferver e cozidos vivos. Uns, honradamente, morrem de cabeça erguida, outros preferem esconder-se de tal vergonha e vão agonizando dentro de casa.

Não posso achar ao acto da cozedura do caracol um espectáculo? Sempre ouvi a minha avó que deus tem dizer que, cozer bem o caracol, era uma “arte”.

Nem todos os touros são mortos no dia seguinte, e os que são e vão ser aproveitados para consumo as feridas são lhes tratadas, precisamente para não alastrarem. Há touros que nem chegam a ser mortos, são tratados e regressam ao campo, como sementais, para a preservação dos genes da bravura e nobreza, para termos um touro bravo cada vez mais requintado.
Mas volto a referir, que nem sou muito fã de corridas de touros (de touras, sim) e admito que a parte que mais entusiasmo me dá é ver a saída do touro para a arena, deslumbrar-me com o porte e força bruta do animal, e a parte dos forcados.
Porque de resto, a tourada a mim passa-me ao lado.

Sou muito mais apreciador de largadas de touros, garraiadas e brincadeiras semelhantes, mas muito mais.

Agora não posso é concordar com quem se diz activista e salvador da pátria taurina, quando e tão somente segue um capricho de retirar uma “diversão” ao povo. Hoje luta-se por tudo e mais alguma coisa, a tourada é apenas um pretexto para se fazerem ouvir até porque tropeçam neles mesmo de tanta contradição psicológica. Porque como já aqui foi dito e re-dito, sem touradas o touro de lide acaba, extingue-se, para sempre, sem ter qualquer outra hipótese de sobrevivência.
E digo-o, afirmo-o quantas vezes forem precisas, porque desde pequeno me habituei a ver os touros no campo e tenho a sorte de ter um avô que sempre trabalhou no ramo toda a vida.
Tratava dos touros, arranjava-os para as corridas e era…talhante. Ironia das ironias.

As petições já de si são ridiculas, a não ser que sejamos um Rui Santos disposto a tal palhaçada, então petições para se extinguir isto ou aquilo mais ridiculas se tornam.
A festa brava existe há séculos, e continuará a existir porque dela dependem as vidas de milhares e milhares e milhares de pessoas e, sobretudo, a vida do animal que tanto defendem, mas que fazem questão de desconhecer os contornos em que o touro de lide nasce, é criado, alimentado à mão, vive como rei, é lidado e morto.

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O problema é só este. Quem gosta de tourada, sabe do que fala, conhece os problemas preocupa-se com os animais. Quem é anti-tourada a maioria nem sabe o que diz, não conhece a festa, nunca foi, não sabe o que implica, o que mexe, o que há antes e depois.

Quem gosta de tourada faz muito mais pelos touros do que petições.

E deixo aqui mais um artigo, este bem mais nosso.

[b]Preferência terceirense pelas touradas[/b]

Aquela que é considerada como uma das mais ancestrais culturas dos Açores deve a sua introdução, pode ler-se no roteiro, aos primeiros colonos das ilhas, cujo gado bovino acabou por adquirir características bravias, tendo mais tarde sido alvo de cruzamento e selecção para apuramento da raça.

O facto de se ter mantido a maior aficion na ilha Terceira, explicam os promotores, tem, entre outras, origens históricas: “para alguns autores, a persistência de Corridas de Toiros e Touradas só na Ilha Terceira, explica-se pela abundância de gado bravio no interior da ilha. Para outros, revela claramente a origem espanhola de tais diversões, consequência do longo período de ocupação castelhana da Ilha Terceira.

Contudo, versão mais verosímil, refere que o espectáculo dos toiros foi antigamente diversão de nobres e fidalgos, e sendo Angra a Corte e centro de aristocracia, seria por esse facto que a Festa Brava apenas sobreviveu na Ilha Terceira, influenciando outras ilhas já a partir do século XX. Aquando da invasão filipina da Ilha Terceira, a resistência heróica dos terceirenses – liderada por Brianda Pereira – na famosa Batalha da Salga, contou com a largada de gado bravio dos matos da ilha, que à desfilhada investiu e ajudou a derrotar as tropas castelhanas”.

A primeira referência à tourada à corda surge 1622 pelas celebrações em Angra, da canonização de S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola.
Hoje, tourada à corda é tida como a maior manifestação popular dos Açores especialmente da Terceira, mas também assinalada em S. Jorge, Graciosa e Pico, de 1 de Maio a 15 de Outubro.

Já para não falar de que, neste caso os Terceirenses, iriam passam muitas dificuldades a nivel de sustentação da ilha financeiramente, se acabassem as touradas e consequentemente, o turismo na ilha.

Uma tradição que existe desde, referindo o texto, o Séc. XVII, acham mesmo que irá acabar?
Tenham lá paciência.

Com a continuação destes não argumentos recuso-me a continuar a participar neste tópico. As minhas opiniões foram claramente expressas. Quem é a favor desta prática bárbara e longe dos valores do século XXI, onde uma raça ainda mostra a sua grandeza ao humilhar outra apenas porque tem armas superiores que continue com a sua avante. Felizmente a humanidade evolui e a seu par também evoluem os costumes e as tradições. Nem tudo o que é do passado mais remoto é bom, nem tudo o que os nossos pais fizeram é motivo de orgulho e certamente que esta tradição cobarde não é motivo de orgulho para nenhuma raça. Aqui não está em discussão o futuro de um animal (como já se provou), nem está em discussão a morte do touro. Está sim em discussão tudo o que esta tradição implica e por muito que alguns (poucos) povos do mundo resistam à mudança há certos aspectos que temos que mudar de forma a podermos exigir seja o que for a outros povos ou culturas. Gostava de saber o que pensariam alguns dos seus defensores se uma raça superior à nossa se lembrasse de nos colocar numa arena com armas desiguais e nos fossem dando tiros nas pernas ou nos braços, de forma a podermos apenas sobreviver até ao dia seguinte em sofrimento. Se calhar seriam a favor. Se calhar não, porque quando toca a nós é que realmente sentimos.
Por mim, fico por aqui.

Se tudo o que é dito para “defender” a festa taurina são não-argumentos, como os referes, eu adoraria saber o que é um argumento.
Ou neste caso, os argumentos só são realmente argumentos quando nos convém, quando nos engraxa o ego e dá razão ao que dizemos.

E eu muito sinceramente gostava de saber quais são os valores do Séc. XXI, talvez sejam os da pobreza, do endividamento, da dificuldade ou do caos e desordem, desrespeito ou estupidez.
Quanto á irrisória imagem de um ser superior a nós nos fizer o mesmo que “fazemos” aos touros, esquece. Isso é irreal. Nunca aconteceu nem vai acontecer, por isso colocar sequer essa hipótese não faz qualquer sentido. É estarmos a passar um atestado de parvoíce a nós próprios.

Mas e, fazendo-te a vontade, se por acaso acontecesse, muito me honrava eu de poder mostrar a minha bravura, a fibra de que sou feito, a minha massa, os meus valores e principios, o que me está no sangue. Mesmo tendo vivido à rei e à Portuguesa, 3 ou 4 anos.

Miura (por Miguel Torga, em “Os Bichos”)
[hr]

[i]Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais… Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias… Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas. A planície!.. O descampado infinito, loiro de sol e trigo… O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo… A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco… Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido. A planície… Um som fino de corneta.

Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez? Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria. A planície… O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos… Assobios. O Bronco não fazia bem o papel… Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro. Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria? Palmas, música, gritos.

Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto. Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Nova picada no lombo.

  • Miura! Cornudo!

Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena. Pronto! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira? A figura franzina avançou. Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente. Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou:

  • Eh! boi! Eh! toiro!

A multidão dava palmas.

  • Eh! boi! Eh! toiro!

Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, ei-lo. Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Silêncio. Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo, até lhe não poder sair do domínio dos chifres. Agora! De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. Palmas, gritos. Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:

  • Eh! toiro! Eh! boi!

Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos! Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.

Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?! Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado. Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência. Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!

Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caiu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação. Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular. Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao
actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?

Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.[/i]

e ficaste-te sem explicares o que acontece aos touros depois da proibição.

o Torga… é muito bom. E este é um dos melhores contos dele.

:arrow:
este post diz tudo…realmente!porque é que ainda não se lembraram de fazer o mesmo com o lince já que tá em vias de extinção?

Ouvi dizer que os tigres também estão em extinção… que tal organizar uns espectáculos de sofrimento atroz, do género metê-los numa sala redonda por onde não consigam trepar e com uma clarabóia transparente para a assistência poder rejubilar com uma terapia de choques eléctricos e farpas constantes a partir das paredes até terem o cérebro em papa e se esvairem em sangue? Hein? Sempre permite “proteger a espécie” e dar-lhe uns 3 ou 4 anos de mordomias enquanto se preparam para o espectáculo. Depois no final tenta-se comercializar a carne de tigre para consumo de modo a diluir a crueldade do show e metê-lo ao nível da caça. ;D

Desculpa, mas isso não é a chamda lógica invertida. O argumento é ao contrário; os touros não estão em extinção porque têm um uso para o homem que implica criá-los de certa forma até uma certa idade.

Os tigres e linces estão em extinção porque não têm nenhum uso desses, pelo contrário os habitats deles têm usos que os vão consumindo. O uso dos tigres é os chineses usarem partes deles como afrodisíacos, o que NÃO implica criá-los, mas sim apanhá-los na natureza enquanto houver. Isso leva à extinção.

O outro uso são os zoos. e eventualmente o mais provável é não haver tigres fora deles.

Os touros estão livres desse destino enquanto houver tourada.

Resumindo e esquematizando, o caso dos linces e dos tigres apenas prova o seguinte:

“não há uso” => “perigo de extinção”

Neste momento, a situação dos touros é

“há uso”

mas acabando com as touradas passa para

“não há uso”

qed

Exacto, e quando o “uso” é um espectáculo onde se faz o animal sofrer então nada melhor que abolir o “uso”. Fica sem uso, sujeita-se às pressões do seu habitat como os tigres e linces e pode ser que isso resulte em extinção ou não, tudo depende do equilíbrio da natureza.