Aí está o argumento populista pelo qual os sindicatos não admitem o óbvio. Se bem que não é assim linear. Por cada trabalhador que adere à greve também pela conveniência de aumentar o tempo seguido sem trabalho, muitos mais trabalhadores (do privado) nunca fazem greve apenas por medo de retaliação da entidade patronal.
Na empresa onde fui representante e mesmo antes de o ser, nunca uma greve foi marcada a uma 2ªf ou a uma 6ªf.
Chegámos a fazer duas vezes numa semana à 3ªf e outra à 5ªf.
E claro que sim, nos plenários tínhamos sempre uns quantos trabalhadores a pedir junto ao fim de semana, uns porque tinham pouca consciência, outros divisionistas e anti-tudo que gostavam de minar o trabalho de quem os representa. Há de tudo…
Se é preciso marcar para sexta-feira ou vésperas de um feriado para uma greve ter grande impacto então é porque os trabalhadores não estão assim tão incomodados com o que se vai protestar e querem é mais um dia para ficar em casa. Mas também já sabemos a mentalidade do português. Para mim marcou-se muito mais uma posição contra o pacote laboral quando se marcou a última greve geral para uma quinta feira sem ser feriado no dia a seguir.
É apenas um estímulo extra para a adesão à greve. É bem possível se fosse agendada para hoje, o impacto fosse também grande. Mas isto só tem relevância política, uns vão afirmar que a adesão se deve em grande parte por ser véspera de feriado, outros dirão que é irrelevante, cada um joga o jogo conforme os seus interesses.
Essa das greves junto ao fim de semana, obviamente que é para gerar mais adesão. Qual é a dúvida?! Da mesma maneira que quem faz greve não recebe o dia. Antigamente sabotava-se maquinaria ou não se cobravam bilhetes (nos autocarros).
Cada um joga com as armas que tem. Em Portugal, um país com um nivel de sindicalização ridiculamente baixo (vão lá ver onde os níveis de sindicalização são muito mais elevados e vejam os salários - Escandinávia e Alemanha, por exemplo), todas as armas contam para atingir o objectivo politico da greve. Uma greve geral tem um objectivo politico. Enquanto greves sectoriais ou até apenas numa empresa têm muitas vezes objectivos mais tangiveis (salários, condiçoes de trabalho, etc), uma greve geral é obviamente uma arma politica que os trabalhadores têm na mão contra um Governo que claramente pretende legislar em seu prejuizo.
O legislador deveria ser equidistante e legislar em nome do bem comum. No caso da lei laboral, legislar em função do bem comum passa sobretudo por reequilibrar uma relação entre partes antagónicas onde, na generalidade, uma delas tem um poder negocial desmesurado (empresa) face ao outro (empregado). E nesse enquadramento, obviamente que a lei laboral tem de ser mais robusta na proteção dos trabalhadores, seja através de legislação avulsa seja na proteção de direitos sindicais. Aliás, quando uma lei laboral pretende ao mesmo tempo enfraquecer a posição do trabalhador e do sindicalismo, estamos totalmente conversados quanto à intenção do legislador: o que pretende é evidentemente beneficar as empresas, nomeadamente as grandes empresas e os grandes monopólios, que são provavelmente quem paga as campanhas de quem agora legisla.
Porque, e voltando ao exemplo dos escandinavos, quando tens um movimento sindical forte e uma elevada taxa de sindicalização, podes dar-te ao luxo de ter uma lei laboral “flexivel” porque deixas grande parte da negociação e dos direitos dos trabalhadores protegidos pelo poder dos sindicatos que têm legalmente o enquadramento e a robustez necessária para negociarem as condições, salários, etc dos seus representados. Em muitos casos tendo inclusive representantes seus nas boards de grandes empresas. Aquilo que os sindicatos negoceiam com as empresas é a lei, mas para isso é preciso que a legislação não tente enfraquecer o sindicalismo nem a capacidade e vontade das pessoas se sindicalizarem, que é tudo o que a lei do trabalho em Portugal promove, e que estes avençados da direita que atualmente governam o país pretendem acentuar.
Porque muita gente, sobretudo num país com baixissimos niveis de sindicalização e de consciencia de classe ou de participação civica quase inexistente (como lhes queiram chamar), olha para esse dia como mais dia de folga que lhes permite fazer um fim de semana prolongado. Como provavelmente concordam nem que seja levemente com os pressupostos desta greve é dois em um. Até porque nem todos os que fazem greve ficam nos piquetes ou vão para as manifs na avenida da liberdade. Muitos aproveitam para ir para a praia, para tar com os filhos etc.
No fundo é um dia extra de férias que não é pago (é o sacrificio que têm de fazer) mas cuja “falta” já está legalmente justificada. No fundo uma forma relativamente cómoda de protestar e ainda ter algum beneficio com o protesto.
Nada contra, diga-se de passagem, sobretudo numa greve geral cujo impacto que se pretende que seja politico.
Se fosse uma greve por causa de uma fábrica parada cujos patrões declararam falência e querem retirar os equipamentos para os venderem, deixando os trabalhadores com salários em atraso, aí então todo e qualquer trabalhador tem a obrigação de ir para a frente da fábrica exigir o que é seu por direito, sob qualquer meio. E aí acredita que ninguém vai escolher dia da greve, nem o número de dias.
Pois se em Portugal não fosse tudo usado para interesse próprio se calhar podíamos ter sindicatos mais fortes, mas a mentalidade portuguesa fala mais alto.
Os sindicatos são o que aqueles que os constituem querem que sejam.
O sindicalismo em Portugal tem dois problemas:
servir demasiado a agenda dos partidos que os apoiam (CGTP → PCP; UGT → PS+TSD) o que retira dinamismo, capacidade captação, independência, etc;
uma lei laboral que além de enfraquecer a posição dos sindicatos, pune quem se sindicaliza: uma lei laboral que promove a precariedade e a arbitrariedade dentro do local de trabalho, é uma lei que incute medo no trabalhador caso se sindicalize. Quando ser sindicalizado é visto como uma red flag para o empregador, está tudo lixado.
E no final é uma pescadinha de rabo na boca: menos sindicalizados, menos leverage colectivo na negociação com as empresas e com o Estado, mais leis que desprotegem o trabalhador, menos incentivo à sindicalização.
Mas hey, quem anda há décadas a demonizar os sindicatos é a direita e os neoliberais que lhes declararam guerra com muito sucesso em muitos países do Ocidente. Com os resultados práticos que conhecemos: cada vez mais produtividade, salários estagnados e indices de Gini cada vez maiores o que indicia o aumento da desigualdade social galopante e uma concentração absolutamente grotesta de riqueza numa minoria (já andam em níveis do tempo da Revolução Francesa, só para termos uma ideia).
Sem dúvida e ao aplicar esta lei laboral o ataque directo ao sindicalismo continua com intenção de não deixar entrar os sindicatos numa empresa que não tenha qualquer sindicalizado…
Eu diria que se Portugal não tivesse Governos que usam macacadas para interesses mais fortes, tudo poderia ser um pouco diferente.
Os sindicatos portugueses são o espelho da fraca cultura de sindicalização. Os partidos políticos moveram influência por no passado estes sindicatos terem preponderância, a influência vem daí e enraizou-se, apesar de hoje a adesão aos mesmos ser muito menor. Se os direitos dos trabalhadores são alvo de constantes ameaças e a perda dos mesmos ser real, talvez fosse tempo de rever o modelo atual das organizações sindicais pois perderam imensa influência junto do legislador.
Fala-se da fraca sindicalização em Portugal e o poder que dão aos sindicatos na questão da negociação seja ela qual for.
Mas e as confederações patronais, representam quem, quantas empresas?
@Chown esse modelo altera-se quando partidos que estão no poder como a actual AD se comportar de forma diferente, com sentido de responsabilidade e sem atacar direitos dos trabalhadores. Começa logo por aí…
De certeza que esse nível de sindicalização não tem nada a ver com os sindicatos e os seus representantes e o que os trabalhadores acham deles. Aliás, é ver o que o comum trabalhador português acha dos partidos mais ligados aos sindicatos.
Tiraste isto da tua cabeça como se fosse um dos 10 mandamentos, mas não tem sentido algum e é improdutivo. A ideia de que o bem comum é algo estático que tiras de um lado para meter no outro é parasítica, e ignora que tanto as condições das empresas como dos trabalhadores têm de melhorar para Portugal progredir. Achas que os patrões na Suíça ou onde quer que seja são menos felizes do que os portugueses?
Uma coisa é aumentar o salário mínimo, legislar condições básicas ou o que seja, mas fora isso o poder não se atribui por decreto, o poder de um trabalhador está na liberdade de procurar condições melhores.
Eu não acho que este pacote vá fazer milagres, mas acho que a malta aqui tem uma ideia absolutamente ridícula de como se melhora a condição de vida das pessoas.
Concordo a 100%, só não te esqueças de incluir a CIP e restantes confederações patronais na crítica. No texto acima podias substituir sindicatos por confederações e sindicalização por patronato, sem perder a razão.
Algo como:
“As confederações portugueses são o espelho da fraca cultura do patronato. Os partidos políticos foram influenciados no passado estas confederações e daí terem preponderância, a influência vem daí e enraizou-se”
Talvez porque nesses paises os sindicatos sao sindicatos e nao bracos armados de partidos. Que defendem os direitos dos trabalhadores e nao os objetivos politicos de um partido.
Nao vamos confundir a estrada da beira com a beira da estrada.
Ele confirmou precisamente aquilo que eu disse. Que e preciso estar artimanhas pois caso contrario nao ha grande atratividade para aderir a greve. Porque o trabalhar comum esta-se a cagar para estas discussoes que nao o afetam. E dos que nao estao, uma grande parte ve estas alteracoes pelos posts do facebook do ‘bar aberto dos despedimentos’.
Certamente nao e para mim certo?
E que eu tenho um historico de anos e anos a dizer que a concertacao social em Portugal e uma comedia. E como meter o Vizela e o Ac. Viseu a discutir o futuro do futebol portugues.
Pois… mas agora vai la meter isso na cabeca do tuga comum para quem o sonho portugues e ‘casar’ com o emprego. O nosso maior desafio e um de mentalidade, que nao se muda do dia para a noite. No dia em que o trabalhador comum perceber que o seu maior poder em pleno emprego e mandar o patrao apanhar no cu… nisso ha muito imigrante que podia dar 2 ou 3 licoes sobre o assunto.
O nível de sindicalização nos países escandinavos está directamente relacionado com o facto de terem uma mentalidade que, de um modo geral, diverge brutalmente do nosso e que olha para o bem comum e para interesse público de uma forma que nós nem sonhamos. Tem raizes históricas e antropologicamente é relativamente fácil encontrar razões, nomeadamente a forma de organização dos antigos povos escandinavos (vikings) à volta da vida em comunidade como forma de enfrentar as adversidades de um clima bastante desafiante.
São povos que desenvolveram um senso de comunidade unico, que sabem que só conseguem sobreviver e ter sucesso com o envolvimento de todos, onde o bem estar do próximo é um importante motor para o bem estar próprio. São povos que deixam os filhos no carrinho de bebé à porta do café com 5 graus negativos sem medo que lhes roubem os filhos.
Portanto, sim são povos que compreendem bem quem são, onde estão na escala social e que em conjunto negoceiam melhor do que sozinhos contra uma empresa ou um conglomerado multinacional.
Quanto à percepção do comum trabalhador portugues acerca dos partidos que estão mais próximos dos sindicatos eu não sei. Mas acho que é o mesmo fenómeno que explica porque o comum português não se sindicaliza, e ainda critica os trabalhadores da Autoeuropa porque “ganham muita bem e ainda fazem greve” não compreendendo que é precisamente o facto de estarem bem organizados sindicalmente que lhes permite ganharem bem; é o mesmo fenómeno que explica que o comum português vote em partidos cujos interesses são regidos por quem os financia, os Mellos, os Champalimauds, os Mirpuri, os Barbots, e quejandos, e que lhe são totalmente antagónicos.
Portanto, quanto à capacidade do trabalhador comum português de saber fazer escolhas sensatas quanto à forma como pode defender os seus próprios interesses, estamos conversados.
Sim tirei da minha cabeça porque tenho um cérebro e raciocinio lógico. Os 10 mandamentos estão inscritos em tábuas e são feitos para seguir cegamente, portanto, a antítese de ter um cérebro e pensar um bocadinho.
Obviamente que a relação de forças no mercado laboral, entre um trabalhar individual e uma grande empresa é completamente desproporcional e dá à empresa um leverage negocial muito superior. Esta relação pode variar em função da especialização do trabalhador, da sua importância na estrutura da empresa, assim como o tamanho do mercado de trabalho, nos níveis de desemprego, etc. Mas de um modo geral é sempre uma relação desigual, a não ser, lá está, que existam estruturas ou organizações que negoceiem coletivamente com a empresa (comissões de trabalhadores, sindicatos). Acho que é fácil de entender. Lei da oferta e da procura e aritmética simples.
A ideia do bem comum é a ideia de que progredimos melhor enquanto sociedade se todos (ou uma grande maioria, vá) estivermos felizes e tivermos condições de vida que nos satisfaçam e nos realizem. A ideia do bem comum assenta na lógica de que atingimos melhor esse objectivo colaborando do que competindo. A ideia do bem comum é a ideia que preconizamos para uma sociedade onde a paz social esteja maximizada.
Posto isto, não percebo bem essa ideia do parasitismo ou de tirar de um lado para meter no outro. Estamos aqui a falar de uma negociação entre duas entidades fundacionais das sociedades humanas: quem trabalha e as ferramentas que permitem fazer esse trabalho. Desde o momento em que a propriedade privada dos meios de produção foi criada, essas ferramentas foram apropriadas por uns poucos para alugar a uma grande maioria. É assim que surge empresa e empregado, capital e trabalho, capitalista e trabalhador, detentor dos meios de produção e produtor.
A História mostra-nos que a tensão inerente a estas relações antagónicas pode ser canalizada de várias formas, desde o conflito mais ou menos violento à negociação mais ou menos dura. A História mostra-nos vários exemplos, no passado, onde este antagonismo foi levado ao extremo com conflitos armados, com violencia, greves insurrecionais, prisões, etc etc. O século XX marca um período onde estas tensões atingem níveis de violencia bastante significativos onde uma das partes, os trabalhadores, conseguem concessões bastante significativas, pela primeira vez na História. O fim do trabalho infantil, a jornada de 8h, férias pagas, subsidio de doença, licença de parentalidade, higiene e segurança no trabalho, paridade de salários entre géneros, etc etc etc. Até o Estado Social é uma conquista destas lutas, onde sem essa pressão e sem essa luta (os sindicatos e os movimentos operários do inico do século XX não estavam para brincadeiras) foram tudo conquistas da luta dos trabalhadores em proveito próprio.
Não ouvi dizer que no meio disto tudo o tecido da realidade tempo do sistema capitalista tenha colapsado. Não creio que, à medida que todas estas conquistas em proveito dos trabalhadores, tenham resultado em falências generalizadas, em colapso da criação de riqueza, em morte generalizada do Capitalismo e colapso civilizacional… e claro que isso nunca aconteceria. Os trabalhadores são quem gera riqueza, os trabalhadores em ultima análise são quem gera os próprios meios de produção (as máquinas, os armazéns, as calhas, os cabos eléctricos, as linhas de ar comprimido, etc) que geram riqueza. O Capital é no fundo uma entidade abstracta que alguém inventou para quantificar a riqueza gerada e sobretudo acumulada.
Os trabalhadores no final do dia só pedem que a riqueza que eles próprios geram sejam melhor distribuida. Se olharmos para os níveis de desigualdade galopantes - é só analisar os indices de Gini e a sua evolução nao longo do séc. XX - percebemos que o caminho que fomos seguindo relativamente ao Contrato Social sofreu uma inflexão - com a hegemonia do Neoliberalismo a partir do inicio dos anos 70 - que tem sido muito negativa novamente para com os trabalhadores em geral (PME e microempresas não entram na equação, assim como todos aqueles que ganham uns trocos em critpos, rendas, investimentos financeiros mas que continuam a ter o seu sustento principal a trabalhar por conta de outrem).
O corolário disto tudo desagua na noção de paz social que está directamente relacionada com o tal bem comum e com os níveis de bem estar social de uma população. Quanto menores forem, menor o nivel de paz social. Aquilo a que vamos assistindo nos ultimos largos anos com sucessivas crises do capitalismo financeiro, em particular a do subprime em 2008, e a forma como as populações se sentem cada vez menos representadas, mais angustiadas, zangadas, etc leva-as cada vez mais para os extremos politicos, infelizmente para o lado direito do espectro seduzidas por mensagens que aliás em nada visam resolver os problemas de base a esse descontentamento. É uma dupla vitória do neoliberalismo: cria as condições de miséria crescente nos trabalhadores e depois oferece-lhes uma solução travestida de populista e radical, que mantém tudo na mesma mas cujo escape (culpar imigrantes, “politicos corruptos”, casas de banho mistas, etc) serve para entreter o comum trabalhador descontente.
Portanto o bem comum é sempre o resultado de uma tensão latente entre os interesses divergentes de diferentes actores sociais, cuja capacidade de ultrapassar com o menor prejuizo possível essas diferenças, influenciará sempre o maior ou menor nível de “bem comum” ou se quisermos de bem estar social. Infelizmente e ao contrário do que tu sugeres, não são os trabalhadores que têm parasitado esta relação. Em Teoria dos Jogos, o capital (as empresas, e sobretudo os donos das empresas) tem tentado sempre jogar um jogo de soma nula, maximalista, onde os ganhos sejam maximizados para si em prejuizo de quem trabalha. Falamos de quem tem mais leverage, de quem tem maior poder de influencia no legislador e no poder politico, não falamos do trabalhador comum que no final do dia fica contente com a expulsão do imigrante que o Andrézinho preconizou enquanto o patrão que pagou ao Andrezinho a campanha o continua a enfiar o dedo no cu.
Voltando ao exemplo da Escandinávia, os tipos por lá talvez tenham entendido que, e voltando à Teoria dos Jogos, o conceito de win-win seja o mais eficaz para atingir a paz social e o bem estar social.
Uma falácia completa. Mas o mantra repetido como uma cassete até à exaustão pela cartilha neoliberal. Esta ideia rocambolesca de que o poder de negociação de um trabalhador está na sua “liberdade para procurar melhores condições” é um disparate incrivel. Para isso era preciso que não houvesse desemprego, aliás era preciso que todo e qualquer trabalhador tivesse um nível de especialização de tal ordem que fosse absolutamente imprescindivel para uma determinada tarefa e que existissem muito mais empresas a necessitar desse trabalhador para essa tarefa, do que trabalhadores a necessitar de trabalhar. Para que isso fosse verdade quase que teríamos de inverter a lógica da coisa e haver quase mais empresas do que trabalhadores disponíveis. Ora se isso ainda pode acontecer pontualmente e de forma excepcional em alguns nichos do mercado (controladores de tráfego aéreo, soldadores subaquaticos, etc), na generalidade não é assim que funciona o mercado de trabalho.
Aquilo que assistimos é muito acção/reação. Quando se toca na Lei do Trabalho é para mudar e os sindicatos vão por norma ser contra pois mudar significa abdicar de alguma coisa, pode até haver mais ganho, mas por natureza vão sempre se opor. Se for para negociar salários, os sindicatos por norma nunca estão satisfeitos e algumas vezes com razão, outras vezes nem por isso. Entre outras coisas. Por isso, a mudança deve ser estrutural para, por um lado cativar mais trabalhadores a reconhecerem o sindicato como uma continuação da sua vida profissional e, por outro lado, o trabalho/reivindicação junto das entidades ser mais eficiente e preponderante.
Sem números oficiais, parece-me que os sindicatos perdem associados todos os anos, há uma enorme descrença sobre os mesmos, se quiserem mudar isto, convém começar por esses sindicatos a mudança.
A tua antropologia é extremamente seletiva, como o resto da tua análise.
O nível de sindicalização nos países escandinavos está directamente relacionado com o facto de terem uma mentalidade que, de um modo geral, diverge brutalmente do nosso e que olha para o bem comum e para interesse público de uma forma que nós nem sonhamos. Tem raizes históricas e antropologicamente é relativamente fácil encontrar razões, nomeadamente a forma de organização dos antigos povos escandinavos (vikings) à volta da vida em comunidade como forma de enfrentar as adversidades de um clima bastante desafiante.
Os vikings, que bom, não haverá mais nada aí? Não será a reforma protestante mais relevante ainda, com o impacto que teve na literacia e na democracia?
Boa parte dos portugueses são semi analfabetos, e incapazes de ter uma participação minimamente positiva quer em democracia quer na economia, processam o mundo por manchetes de telejornal e não são capazes de ler um livro ou análisar o que quer que seja com sentido crítico.
Tanto o patrão como o trabalhador português vivem para o latifúndio, para o trabalho acrítico ou a extração de rendas, espera-se caridade do patrão e docilidade do trabalhador, isto não é nada.
Não, não é, é o facto de o trabalhador da AutoEuropa gerar muito mais riqueza que a maior parte dos trabalhadores portugueses. Um operário português, se se mudar para a Alemanha vai ter condições muito melhores, porque o ambiente lhe permite ser muito mais produtivo. Os sindicatos ajudam (e bem) os trabalhadores a captar uma maior percentagem do valor que geram, mas se não houver investimento em infraestruturas e tecnologia energia barata podem reivindicar o que quiserem que a empresa fecha.
O problema em portugal é de baixa produtividade e baixo valor acrescentado, não é a concertação social que vai resolver isto.
Sim, o ateísmo redditor é uma posição tremendamente impopular e que exige grande sentido crítico e raciocínio da tua parte, os meus parabéns! O meu ponto é que a tua interpretação do bem comum é dogmática, e não se sustenta em nada, ao menos o “Não matarás” dá jeito.
Toda o teu comentário assenta numa interpretação da história enviesada e improdutiva.
O tuga nunca se revoltou, e não me parece para aí virado. Portugal tem zero problemas de paz social, por isso não me parece que faça sentido olhar para as coisas desse prisma. Tu só tens um martelo e insistes em aplicá-lo a tudo.
Qual é a falácia exatamente? Nenhuma das implicações que apresentas fazem sentido nem se sustentam em coisa nenhuma, para variar.
É para lá de óbvio que a melhor garantia de um bom salário são qualificações e capacidade de gerar riqueza, e que os trabalhadores não são iguais entre si.
O teu modelo da sociedade está preso a uma realidade agrária ou operária, a realidade é que tens trabalhadores com 20 e poucos anos com responsabilidades sobre produtos/ sistemas que movimentam milhões ou biliões e a ser recompensados por isso. Mas claro, para o tuga que nasceu para o latifúndio e para a esmola e que a maior ambição na vida é um concurso público é complicado pensar doutra forma.
Tal como referi no meu comentário em Portugal TUDO em Portugal é usado para interesse próprio, incluindo governos. Tanto da esquerda como da direita. Aliás, eu acho engraçado a esquerda diabolizar tanto o Montenegro quando ele, sem ser a reforma laboral, não fez grandes alterações ao status quo em Portugal. Que grandes alterações ele fez em termos de impostos? Na habitação? No Estado? Não vejo honestamente. Até a privatização da TAP vai ficar pelos 45%, ou seja, não é nada. O Montenegro, para mim, é igual ao Costa, limita-se a fazer umas quantas medidas eleitoralistas para agradar ao português médio e à extrema-direita sem mexer muito nas coisas. Mas pronto, também o António Costa governou assim, só que não tentava agradar à extrema-diteita era a extrema-esquerda. E teve os belos resultados que vimos.
Ao teu comentário quero fazer as seguintes perguntas:
Tendo em conta que, como tu próprio apontas, os sindicatos servem demasiado a agenda dos próprios partidos que os apoiam, não achas que esse facto também serve para enfraquecer o movimento sindical em Portugal? Não achas que se houvesse sindicatos independentes de influência partidária que existira mais pessoas a juntar-se aos sindicatos? Efetivamente as políticas neoliberais mataram o sindicalismo nos EUA mas não consigo ver esse mesmo fenómeno em Portugal. A Irlanda e Itália, países conhecidos por serem governados durante as últimas décadas por governos de direita, a taxa de sindicalização é mais alta que em Portugal. A baixa sindicalização em Portugal não pode ser explicada só por políticas neoliberais.
E estás a falar de que lei laboral? A atual? É que na atual a contratação coletiva pode afastar em maior parte dos casos o que está na lei se dispor em sentido mais favorável. Por isso não percebo onde é que a atual lei laboral enfraquece a posição dos sindicatos, ainda por cima quando a liberdade sindical é um direito consagrado na Constituição.
Como eu digo, estão todos mal aqui. Tem de haver uma alteração na mentaldiade portuguesa.
Posto isto, acho que nunca vi uma pessoa com opiniões tão estapafúrdias como o Henrique Raposo, o grande intelectual do que deve ser o feminismo moderno.
Ricardo Salgado condenado a 13 anos de pena suspensa.
O Ministério Público MAL, o Tribunal muito mal. Se Salgado tem de facto Alzheimer, pode cumprir pena no Hospital Prisional de São João de Deus, em Caxias. A Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental dispõe de dezoito camas para homens. Ou, em último caso, colocavam-no em prisão domiciliária. O corolário dum fracasso da total da Justiça. - PAULO DE MORAIS