Permitam-me que deixe os meus “insights”, embora sejam algo falíveis.
Bem, esta é uma discussão muito ingrata. Ingrata porque acho que para se fazer transições são necessários espaços, linhas de passe e movimentações. Infelizmente, ao dia de hoje, a situação no Sporting relativamente a esses itens continua igual.
Em primeiro lugar, não concordo com a ideia subjacente que os nossos médios não são box-to-box. Essa ideia de “box-to-box” deriva dos médios ingleses dos anos 80, do típico 442, onde dois tinham de defender e atacar. Eram jogadores verticais, capazes de defender, recuperar e levar a bola para o ataque (ou acompanhar a transição quando a bola circulava pelas laterais), entregar ou posicionar-se de forma a circular a bola ou rematar. É óbvio que não temos Xavi, Iniesta, Gerrard, Lampard, Fabregas, etc, etc. Nem sequer Lucho, para um exemplo que passou pela nossa liga recentemente. Mas sou da opinião que mais que especialistas a defender ou a atacar (porque não são verdadeiramente um ou outro), os nossos jogadores são o tal misto. E isso é, para mim, um “box-to-box”. Não são é de tal magnitude. Uns já o foram, outros ainda não o são.
E os nossos problemas defensivos (não, não me esqueci do problema em discussão - a transição) derivam, também, disso. Se os nossos médios sobem para apoiar, transportar e tentar a finalização, não tendo nenhum “trinco” nas costas, quem protege o espaço que se abre atrás deles? Mas se eles ficam atrás, quem apoia o ataque? Mete-se um trinco atrás deles e eles já podem subir, passamos a jogar em 433? Isso resolve o problema do espaço atrás, mas depois constata-se outro: a falta de criatividade, de espontaneidade, de risco. Um médio desses é um tipo que tem de ter certeza nas suas acções. Se ele falha, perde a bola. E isso é sempre um risco. Mesmo tendo alguém (agora) a proteger as costas. Até porque montando uma equipa assim, e apenas assim, ela torna-se previsível e o seu jogo anulável. Se o objectivo é empatar, a coisa funciona. Senão, tem de se esperar que o adversário abra espaços, seja no meio, seja nas alas. Para que alguém saia com os 3 pontos, alguém tem de perder o jogo. Não digo ganhar, porque nesse jogo tem de haver uma equipa que erre, não que uma faça a outra errar. Excepto, claro, se o resto da equipa for tão boa e jogar tão rotinada que consegue abrir espaços por si. Como se resolve? Sacrificou-se um"box" e passou-se a jogar com os criativos novamente. Deixou-se o trinco, usa-se um “box” para levar a bola e um médio ofensivo (já não é um dez, porque também tem de defender, embora menos) que arrisque o 1x1, que continua a ser a única boa forma de desequilibrar o adversário pelo centro. A explicação é simples e dada, bem, pelo Winston Smith. Mas não tem de ser assim. Já não tem de ser assim.
Começam-se a ver equipas com duplo-pivot que, pura e simplesmente, eliminam o trinco. Fora com os trincos, foram uma péssima rotina dos anos 90. E não, não falamos de um duplo-pivot onde um “box” defende mais e outro menos. Isso não é novidade, isso é o modelo anterior (usado pelo porto à anos) porque um acaba por ser um trinco. Digo um sistema com dois “box” e um criativo à frente. Como resolvem o espaço nas costas? Bem, fácil: a defesa sobe, a equipa joga mais junta e um protege as costas do outro. Mas nunca um assume mais o papel de transporte que outro. Senão o adversário aposta nisso e já sabe o que anular. O médio ofensivo, mais criativo e mais solto, desloca-se conforme o que sobe.
Bem, devo dizer que este seria o melhor sistema para o Sporting actual. Não é o melhor sistema, mas seria o que poderia funcionar, face aos médios que temos. E já foi tentado. Mas não funcionou. Porque nada funcionou. Porque simplesmente nenhum sistema funciona se a equipa não se mexer. E a do Sporting não se mexe. Ou tem todo o espaço do mundo para atacar e fá-lo com 3 (no máximo 4) jogadores, sempre em contra-ataque ou não vai lá. O Sporting, em ataque organizado, não joga. Foi transformado numa equipa do “não descer de divisão”, fechada lá atrás. Mas como é obrigado a atacar, porque ainda é um clube “grande”, acaba por não poder ficar lá atrás e é uma desorganização total. As linhas ficam distantes, houve uma excessiva preocupação em fazer circular a bola pelas alas, rapidamente e sem apoios e isso só funciona se o adversário se “abrir” todo. Se ficarem sempre 4 lá atrás mais um trinco, não dá. Depois pára-se e espera-se pelo resto da maralha. Quando ela chega, não há rotina de circulação objectiva da bola. Circula-se à espera que o adversário abra. Quando não abre, despeja-se a bola para a área. Como não há pinheiros, azar… A equipa não se mexe, não abre linhas de passe e assim nada se pode fazer. Nem o melhor “box-to-box” do mundo resolve isso. Quando os nossos médios recebem a bola da defesa, viram-se para um lado, viram-se para o outro, tentam seguir em frente e nunca descobrem a quem passar. Hoje em dia até já nem a querem receber e facilmente se dão à marcação. O Polga que a despeje lá para à frente. Porque o que temos de reter é o seguinte: um “box-to-box” transporta a bola, mas há-de chegar o ponto em que tem de a passar a alguém. Se não houver ninguém a quem passar…
Vi aqui um esquema à "Barcelona de Rijkaard (esperem, vou buscá-lo).
Aqui foi defendida a ideia de que poderíamos usar um trinco e dois médio mais atacantes. Um pouco à semelhança dessa ideia holandesa. Mas e o trinco, está onde? Não temos nenhum trinco, nenhum especialista a partir pedra. O mais parecido (Pedro Mendes) teve lesão prolongada e está, novamente, parado. Depender um sistema num único jogador é muito perigoso. Mesmo num grande jogador, é muito perigoso. Se tivéssemos outra solução, avancem com esse 2-3-2-3! Se bem que nos falta o principal: alguém que o possa treinar. E olhem que esse sistema dá trabalho! Nós nunca conseguimos ter uma equipa, quanto mais uma dinâmica tão forte e tão solidária? Não acho que possa ser solução. Gostava, mas não acho. Nem sequer acho que tenhamos jogadores para o fazer.
André Santos é o tal misto, a que eu chamo “box-to-box”, o tal 8. Tem o problema de ter, aos 22 anos, o meio-campo aos ombros sem equipa para o ajudar. Pedro Mendes, um “8” clássico, ainda tem pulmão para o fazer (obviamente que não se o tiver de fazer em 60 jogos numa época), mas hoje em dia vive com a responsabilidade de ajudar a defesa e tapar buracos entre linhas defensivas. Assim não dá. Zapater vive devagar e devagarinho, ao ritmo da Liga Italiana de hoje. Não é um portento, e também me parece que é um misto, nunca um especialista a defender ou atacar, mas pode ser útil. Se ganhar um ritmo mais acelerado. Manicas, o ex “8”, está bom para descansar. Pulmão é mentira. Para proteger as costas a dois médios ofensivos seria necessário um verdadeiro trinco.
Mas lá está, penso que o verdadeiro problema, como muitos já aqui o afirmaram, é toda a dinâmica da equipa e não os jogadores (especificamente os médios centro) em si.