É habitual comentar-se a performance desportiva alcançada sob os desígnios do Projecto Roquette, dizendo que as coisas não correram inteiramente como esperado, que foram cometidos erros, mas que mesmo assim correu melhor do que nos anos anteriores, os do tenebroso jejum, em que o Sporting tinha equipas ridículas e terminava a dois dígitos de distância do campeão, por vezes falhando até o pódio do campeonato.
A justificação deste raciocínio assenta em grande medida, e bem, no maior número de títulos conquistados desde 1995. Foram 2 Campeonatos, 2 Taças e 3 Supertaças, contra apenas 1 Taça e 2 Supertaças conquistadas entre 1982 e 1995.
Quanto a isto não restam dúvidas de que estamos melhor, embora estejamos longe do que desejável. Mas sendo os títulos o mais importante e o objectivo primordial das equipas de futebol, a performance destas e a sua influência na vida dos seus adeptos não se esgota no sucesso alcançado no final da época.
O quotidiano das equipas e de quem as segue é feito de jogos, de vitórias ou derrotas jornada após jornada, de pontos que se somam ou perdem, de golos que se marcam ou sofrem, do ficar à frente ou atrás, perto ou longe do rival. São estes elementos que fazem a alegria ou tristeza dos clubes e dos seus adeptos ao longo do ano.
Eis pois que me surgiu a dúvida: quão diferentes são as equipas do Projecto das das direcções que o antecederam? Quão mais satisfeitos andaram os sportinguistas à 2ª-feira de manhã, em comparação com a longa treva do jejum? No fundo, qual foi o grau de evolução na produção futebolística, de um período para o outro?
A perspectiva da análise, limitada aos jogos do campeonato, abrange dois períodos: épocas 82/83 a 94/95 inclusive (13 épocas), atribuídas ao “Jejum”, e 95/96 a 06/07 inclusive (12 épocas), atribuídas ao “Projecto”. As fontes da recolha são as bases de dados Sportingdb.com e Desportoluso.no.sapo.pt. Nas épocas 94/95 e anteriores foi feita a conversão para a base de 3 pontos por vitória.
As diferenças no quadro competitivo tornam complicada a comparação directa, uma vez que nestes anos houve campeonatos com 30, 34 e 38 jornadas. Recorreu-se por isso às médias de rendimento por jogo, tendo sido, para cada período, analisadas as seguintes vertentes:
- Média de pontos por jogo;
- Média de golos marcados por jogo;
- Média de golos sofridos por jogo.
Com base nestes dados, foi estabelecida a “equipa-média” de cada um dos períodos (em termos de pontos somados, golos marcados e sofridos, e também em termos de diferenças pontuais para o campeão, FC Porto e SL Benfica).
E por fim organizou-se o “campeonato-médio” de ambos os períodos, limitado aos três grandes e com base em 34 jornadas.
Os pressupostos iniciais são os seguintes:
No período do Jejum o Sporting disputou 434 jogos para o campeonato. Somou 852 pontos, marcou 751 golos e sofreu 350 golos.
No período do Projecto o Sporting disputou 404 jogos para o campeonato. Somou 805 pontos, marcou 702 golos e sofreu 341 golos.
Calculadas as médias nas vertentes acima indicadas, obtém-se o seguinte resultado:

Em síntese:
- No Projecto a média de pontos por jogo foi superior em 0,03;
- No Projecto a média de golos marcados por jogo foi superior em 0,01;
- No Jejum a média de golos sofridos por jogo foi inferior em 0,03.
Como se pode constatar, nos aspectos analisados as diferenças de rendimento entre os dois períodos são ínfimas e negligenciáveis.
Continuando, no quadro seguinte estão as performances das “equipas-médias” de ambos os períodos. Os valores por jogo correspondem à soma das médias parciais das várias épocas, dividida pelo número das mesmas.
Foram também calculados, para ambos os períodos em causa, os valores de pontos por jogo das equipas-médias de todos os campeões, do FC Porto e do SL Benfica; com base nesses valores, calculou-se a diferença pontual média por jogo que separou as equipas do Sporting das daqueles adversários:

Em síntese:
- A equipa-média do Projecto somou mais 0,02 pontos por jogo;
- A equipa-média do Jejum marcou mais 0,01 golos por jogo;
- A equipa-média do Jejum sofreu menos 0,03 golos por jogo;
- A equipa-média do Projecto perdeu menos 0,17 pontos por jogo para o campeão;
- A equipa-média do Projecto perdeu menos 0,10 pontos por jogo para o FC Porto;
- A equipa-média do Projecto perdeu menos 0,26 pontos por jogo para o SL Benfica.
Novamente o equilíbrio a marcar a comparação entre ambos os períodos. A equipa do Jejum vence no capítulo dos golos, a do Projecto vence em matéria de pontos. No caso dos golos as diferenças voltam a ser muito reduzidas, mas, quanto aos pontos, cada décima de diferença positiva pode representar uma aproximação de mais de 3 pontos no final do campeonato.
Nota - Para melhor interpretação dos resultados relativos às diferenças pontuais, deixo os valores médios de pontos por jogo obtidos pelos adversários em cada período:

Em síntese:
- Durante o período do Jejum, o campeão somou em média mais 0,15 pontos por jogo que nos anos do Projecto;
- Durante o período do Jejum, o FC Porto somou em média mais 0,10 pontos por jogo que nos anos do Projecto;
- Durante os anos do Jejum, o SL Benfica somou em média mais 0,26 pontos por jogo que nos anos do Projecto.
Nota-se uma degradação no rendimento dos adversários quando se observam os dois períodos. Nos anos do Projecto, tanto o campeão como o FC Porto e o SL Benfica somam em média menos pontos por jogo.
Por fim, os “campeonatos-médios” do Jejum e do Projecto. No universo dos três grandes, multiplicam-se os respectivos valores médios de pontos por jogo em cada período por uma base de 34 jornadas:
Campeonato do Jejum:
1º - FC Porto, com 80,92 pontos;
2º - SL Benfica, com 76,16 pontos;
3º - Sporting CP, com 66,98 pontos.
Campeonato do Projecto:
1º - FC Porto, com 77,52 pontos;
2º - Sporting CP, com 67,66 pontos;
3º - SL Benfica, com 67,32 pontos.
Em síntese:
- O FC Porto perde 3,40 pontos entre os dois períodos;
- O SL Benfica perde 8,84 pontos entre os dois períodos;
- O Sporting CP ganha 0,68 pontos entre os dois períodos.
A degradação do rendimento dos adversários durante o período do Projecto ganha contornos mais palpáveis. Num campeonato de 34 jornadas, o FC Porto perde em média uns já significativos 3,4 pontos, enquanto o SL Benfica sofre uma queda vertiginosa de 8,84 pontos. O Sporting aproveita e sobe um lugar, mas o seu ganho pontual médio relativamente ao período anterior é de apenas 0,68 pontos.
São os dados que deixo para comentário, caso nisso vejam interesse.