[b]Quanto à nossa presença aqui ser um caso fortuito , é e não é ...[/b]
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Um exemplo , na Tasmânia uma ilha que esteve isolada milhões de anos , em termos naturais proporcionou a mesma resposta em termos funcionais e de evolução , criou um predador o tigre da tasmânia que apesar de ser um marsupial , era equivalente aos lobos que são mamíferos , mas que na prática faziam e comportavam-se parecidamente , apesar de viverem em mundos separados.
Estás a falar da evolução convergente, ou seja, a evolução que conduz à formação de características semelhantes em espécies “genealogicamente” muito diferentes, devido à existência de pressões selectivas idênticas. Não conheço a fundo o caso particular do Lobo da Tasmânia, mas posso dar-te outros exemplos: a forma hidrodinâmica do corpo dos golfinhos e tubarões, a forma adaptada ao voo quer de morcegos quer de aves, etc. Quer num caso quer no outro, temos espécies “genealogicamente” muito distintas, ou seja com um ancestral comum muito antigo, logo as características que apresentam não são fruto duma herança comum, mas sim fruto da modelação pela selecção natural, em ambientes idênticos.
Mas isso não retira relevância ao papel do “acaso” na modelação dessas características. O que estás a insinuar é que qualquer espécie que comece a viver em ambientes aquáticos, por exemplo, vai obrigatoriamente desenvolver estruturas que lhe permitam uma maior aptidão nesse meio. Isso não tem que ser forçosamente assim. Se voltássemos atrás e se repetisse a experiência da evolução, quem te garante que os antepassados dos golfinhos, em vez de desenvolverem barbatanas mais eficazes não poderiam desenvolver uma outra característica que lhe desse mais sucesso em terra e regressassem à terra?
Agora fazendo a analogia para o caso humano: quem te garante que se a evolução fosse repetida, não surgiriam hominídeos altamente eficazes a digerir raízes e frutos secos, em vez de hominídeos altamente inteligentes e especializados na caça? Sendo a aptidão de uns igual à dos outros, porque haveria de ser privilegiado o desenvolvimento de um cérebro grande e de uma inteligência superior?
Isto parece um pouco confuso, mas de facto eu penso na evolução humana e no seu resultado como uma sucessão de eventos fortuitos, que se iniciaram há milhões de anos. Mas para se aceitar esta ideia, tem que primeiro aceitar que a variação que existe na Natureza é fruto do acaso, porque o que causa essa variação é algo tão simples como a existência de erros na replicação do DNA de geração em geração, ou se quiseres, mutações. E o padrão desses eventos mutacionais, é, quando muito, aleatório.
Mas voltando à sucessão desses eventos fortuitos, tudo terá começado com o aparecimento das plantas Angiospérmicas (plantas com fruto e flor) há cerca de 100 MA, que em conjunto com a evolução dos insectos, criou um nicho que foi aproveitado por pequenos roedores arborícolas(?), ou por outras palavras, esses roedores começaram a usar os frutos e insectos como fonte de alimento. Esses roedores especializaram-se cada vez mais na exploração desse nicho e essa especialização levou à evolução para aquilo a que hoje designamos por primatas. Os primatas, por sua vez, especializaram-se em diferentes grupos, um dos quais, por razões que ainda estão por esclarecer (clima?) passou a mover-se de forma bípede, o que libertou as mãos para outro tipo de tarefas, como caçar e obter as calorias suficientes para alimentar o cérebro (o tal órgão que como disseste atrás gasta 1/5 da energia corporal), pelo que eventuais mutações causadoras de cérebros grandes pudessem ser mantidas na população sem que isso afectasse a sobrevivência dos indivíduos. E assim, muito resumidamente, chegámos aqui.
E tudo terá começado com meia dúzia de mutações que levaram ao aparecimento de plantas com flor e fruto, vê tu bem! :lol:
E pensa também nisto: se era assim tão inevitável o surgimento de inteligência, porque é que demorou tanto? Porque não surgiram, por exemplo dinossauros inteligente, durante as dezenas de milhões de anos em que os répteis dominaram o Planeta? Não surgiu, simplesmente porque não surgiu, não havia condições para tal…mas as condições para tal acontecer, como acabou por acontecer, foram meramente fruto do acaso…da aleatoriedade das mutações, da aleatoriedade dos eventos geológicos e climáticos, enfim, do acaso…
Mas compreendo-te quando dizes que “mais milhão de anos menos milhão de anos” outra espécie acabaria por desenvolver a inteligência. Estás a fazer a apologia da “Caminhada do Bêbado”, certo? Isto é, se pegares num gajo bêbado, daqueles que estão tão bebados que ora dão um passo para trás ora dão um passo para a frente e o puseres a tentar atravessar uma estrada, ele certamente não o conseguirá fazer no numero mínimo de passos que uma pessoa normal faria, porque ora anda pa trás ora anda para a frente. Mas se lhe deres tempo suficiente, eventualmente ele acabará por atravessar a estrada.
Em evolução também se pode pensar assim, um evento raríssimo (neste caso o aparecimento de um ser com auto-consciência e linguagem) é sempre possível de acontecer, desde que se dê tempo suficiente para isso. Mas isso não significa que o dito acontecimento seja um dado adquirido. Foi preciso condições muito específicas para que isso aconteça e se essas condições não surgissem não estávamos aqui agora. E por isso, um tal acontecimento estaria sempre sujeito à aleatoriedade da Natureza e por isso é que eu digo que o Acaso é Rei. 
E tu o que achas?