Comprei de propósito o Record para ler a entrevista que Carlos Freitas fez a este jornal, já que ontem não tive a possibilidade de ver outra entrevista dada à SIC. Tive o trabalho de a passar toda a computador para a colocar no fórum já que acho que ela é importante e sobretudo bastante esclarecedora.
Pensava que só demoraria uma hora a passá-la para o computador mas demorei 4 horas. :o :o Espero que não existam muitas gralhas, mas a partir de certa altura já deitava era jornal pelos olhos.
Depois logo farei os meus considerandos sobre a entrevista propriamente dita.
Como não existe nenhum tópico chamado apenas “Carlos Freitas” onde pudéssemos colocar tudo o que dizia respeito ao administrador da SAD, e como não me parece que a entrevista se enquadrasse em nenhum dos tópicos que já existem sobre ele, resolvi criar um novo tópico. A moderação se não concordar terá obviamente todo o direito e unir a outro tópico já existente.
ENTREVISTA DE CARLOS FREITAS AO RECORD
O Administrador explica porque se afastou e… regressou pronto para honrar o compromisso
«Tinha de ter a certeza de que continuava a ser útil ao Sporting»
[b]RECORD - O que o fez ficar à beira da demissão[/b] CARLOS FREITAS - Muito simples: tentar obter uma resposta concreta a uma pergunta que fiz a mim próprio. E que era a seguinte: se a minha presença estaria a ser benéfica junto de um grupo que idealizei, junto de uma administração que depositou confiança em mim e num clube que me tem tratado bem ao longo dos anos. [b]R - E essa pergunta nasceu porquê?[/b] CF - Nasceu na sequência de um período em que acho que houve um enfoque muito pessoal em mim sempre que alguma coisa não estava a resultar, ainda que pudesse ser momentâneo, circunstancial e até rebatido através de inúmeros factos. Achei por isso que o melhor serviço que poderia fazer naquele momento era afastar-me fisicamente e obter uma resposta. [b]R - Que factos concretos levaram a essa reflexão?[/b] CF - O enfoque muito personalizado em tudo aquilo que não estava a correr como se desejaria. Da mesma forma que em quase dez anos nunca reclamei nenhum louro por esta ou aquela conquista - não acho que isso deva ser feito nem me arrependo de não o ter reclamado nem nunca o farei -, também acho que fazer juízos de valor precipitados por uma ou outra aparição é desvirtuar a realidade. Obviamente, entendi que era útil parar, pensar e obter uma resposta. Neste quadro foi importante as conversas que tive nestes dias com pessoas do universo Sporting que me ajudaram a chegar a uma resposta. [b]R - E a resposta foi: fico![/b] CF - Decidi continuar a honrar um compromisso assumido com a administração, com o conjunto de accionistas da administração, sendo seguro que o Sporting é o maior accionista da SAD. Tinha de ter a certeza de que continuava a ser útil ao clube. [b]R - Essas críticas são o pão nosso de cada dia. Porque ficou mais sensível desta vez?[/b] CF - Quem exerce funções deste cariz, num clube com a dimensão como o Sporting, representativo de um terço da população portuguesa, tem de estar preparado para a crítica. Eu estou. Mais: estou também ciente que já errei nalgumas coisas. Tudo o que se fez foi de boa fé, num momento foram entendidas serem as melhores opções para determinado tipo de necessidade, mas que o tempo veio a provar que não foram as mais correctas. A crítica será sempre bem-vinda, em muitos casos motivadora de mais trabalho e melhoria do indivíduo. O que não é positivo ouvir é um conjunto de insinuações, algumas delas a roçar a ofensa à dignidade do indivíduo, e suspeitas atiradas para o ar sem base de fundamentação. [b]R - Refere-se a comentadores, articulistas ou a adeptos anónimos?[/b] CF - Não individualizo. Da mesma forma que fui sensível a esta situação, seguramente quem acompanha o fenómeno também se apercebeu do facto. Não vou sublinhar este ou aquele nome, agora que isso existiu é verdade e teve reflexos, criando uma onda à minha volta onde eu era apontado como responsável por tudo o que menos bom estava a acontecer. Não me eximo das minhas responsabilidades, mas agora também é altura de não me esconder daquilo que corre bem. o que corre mal é da minha responsabilidade, mas o que corre bem também é! [b]R - Não acha que virou costas à equipa num momento difícil?[/b] CF - Há uma coisa que tranquiliza quem trabalha e lida diariamente com este grupo: saber que hoje temos uma liderança forte. Por outro lado, nunca deixei de estar em contacto diário e qualquer decisão que implicava a minha participação foi tomada comigo. Finalmente, todo o grupo aceitou e compreendeu esta minha paragem. No Sporting, quando um dos elementos de uma família passa por um momento menos bom, a solidariedade não é palavra vã. [b]R - Mas a imagem que passou para o exterior funcionou ao contrário...[/b] CF - O que me levou a tomar aquela atitude não teve a ver com uma situação específica. Teve sim a ver com um avolumar de situações que atingiram um patamar que eu tive de perguntar até que ponto seria positiva a minha presença no clube. A pergunta era legítima e a resposta tinha de ser rápida, independentemente do momento coincidir com uma fase menos boa. [b]R - Exigiu novas condições?[/b] CF - A partir do momento em que nos vemos confrontados com uma pergunta e encontramos resposta para ela, já fomos pelo menos capazes de dar um passo em frente. Que fique claro que em nenhuma altura foram equacionados e nem sequer pensados quaisquer tipo de condições e poderes reforçados. [b]R - E em termos de enquadramento, teremos agora um administrador mais resguardado?[/b] CF - Não passa por aí. Mas não posso esconder o seguinte: um dos erros que tenho cometido, à parte de algumas escolhas que fiz para o plantel, foi o excessivo comedimento e contenção verbal perante algumas situações. E é isso que me disponibilizo a explicar, pois assim como houve coisas que não corresponderam às nossas expectativas outras há que correram muito bem. [b]R - Falemos de coisas boas, então[/b] CF - No decurso desta década, o Sporting tem protagonizado uma evolução no seu trajecto. Desde o regresso a patamares competitivos que são apanágio deste clube que teve expressão em sete títulos nacionais, ao regresso a uma final europeia passadas cinco décadas, a consolidação de uma imagem formadora até a uma aura de seriedade em termos negociais reconhecida por qualquer interlocutor. Quando o Sporting está na sua quarta presença na Liga dos Campeões, segunda consecutiva, e sabe que vai defrontar uma Roma com cinco vezes mais recursos financeiros entra em campo ciente desta realidade mas.... está lá! A nossa competitividade em nada nos envergonha. [b]R - É esse mérito que gostava que lhe fosse reconhecido e não é?[/b] CF - Nunca me coloquei em bicos de pés nas conquistas. A política desportiva do Sporting tem sido protagonizada por um conjunto de pessoas do qual eu faço parte. [b]R - Assumido o erro, vamos ter um administrador mais participativo no espaço público?[/b] CF - O futebol é um espectáculo e o palco tem de ser para os artistas, que são os jogadores. Não me vejo naquele registo semanal do "satisfeito por ter ganho". O papel de dirigente é acompanhar, intervir, ser um apoio e dar a cara nos momentos difíceis. Há quem entenda de forma redutora que estar presente é falar muito. [b]R - Ter um treinador como Paulo Bento é confortável?[/b] CF - O Paulo tem forte personalidade. Não se esconde dos assuntos, domina-os e não foge deles, assimilou a realidade e a mística do Sporting. Hoje ele é fundamental na transmissão e assunção desses princípios. É de facto confortável ter um treinador como o Paulo Bento neste e noutras vertentes. [b]R - Mas também existe o reverso da medalha.[/b] CF - Muita da segurança com que o Paulo se expressa parte da genética dele mas reflecte também a confiança que organização lhe transmite. Ele sabe que tem a confiança de todos e que está num clube, onde a instabilidade deste ou daquele resultado não faz com que as areias se movam tanto como se moviam noutras épocas e noutros contextos.
A “eterna” conotação ao FC Porto e como nasceu a paixão pelos leões
«Sou sócio e absorvi a causa sportinguista»
[b]R - Incomoda-o que o vejam como um portista?[/b] CF - Que eu simpatizei com o FC Porto, é inegável. Admirei equipas, admirei a organização. A partir de 1992 por inerência de uma profissão chamada jornalismo o princípio da isenção passou a estar presente na minha conduta profissional. Em Novembro de 99, quando entrei para o Sporting e do qual me fiz sócio - nunca fui de nenhum outro -, absorvi a causa do Sporting, um conjunto de pessoas ensinaram-me o que é a génese e a mística do clube e hoje seguramente ninguém mais vibra com as vitórias e sofre com as derrotas como eu. A questão da conotação é uma das armas de arremesso quando não há outros argumentos. A tese vale o que vale e os exemplos também. Por essa Europa há dezenas de famosos dirigentes que não eram do clube desde pequeninos. Vejam o Beguiristain no Barcelona, o Mijatovic no Real Madrid, o Kenyon no Chelsea, etc. Quem exerce funções deste tipo obviamente tem de estar sujeito à crítica e ao resultado mas a avaliação do desempenho, positiva ou negativa, que seja feita em termos de profissionalismo, empenho e competência. Nada mais. [b]R - Admitia trabalhar com as mesmas funções noutro clube em Portugal?[/b] CF - Estou muito contente com a forma como tenho sido tratado no Sporting. [b]R - Mas na lógica que falou não se poderia estranhar que amanhã estivesse no Benfica.[/b] CF - Nunca foi uma situação colocada nem um projecto no futuro. Repito: estou muito feliz no Sporting, o compromisso com o clube existe e honrá-lo é uma missão. Aliás, numa sondagem publicada no Record, 66 por cento do leitores, seguramente sportinguistas, ficaram agradados com a minha continuidade no Sporting. Ou seja, sinto-me bem fazendo parte da família leonina. [b]R - A sua família no Sporting é Paulo Bento, Pedro Barbosa e Ribeiro Teles?[/b] CF - A família é o Sporting. Em muitos fóruns de análise já constatei grandes críticas à falta de solidariedade entre pessoas do mesmo clube. Hoje em dia, a solidariedade também é criticada! Vamos desmistificar a situação. Tenho, para além de uma relação profissional, uma relação pessoal de amizade com as pessoas que referiu. Não me parece que isso possa ser um pecadilho. Se é verdade que com a maior das facilidades essa relação profissional possa ser desfeita, seguramente que a relação pessoal continuará. [b]R - Uma baixa como eventualmente poderia ser a sua não fragiliza a estrutura? É o que toda essa cumplicidade sugere.[/b] CF - Se eu porventura tivesse saído, a casa não desmoronaria. De modo algum. Nem o Paulo Bento ou o Pedro Barbosa teriam qualquer tipo de obrigação de sair comigo. Quem tem a missão de decidir corre o risco de errar. Antes de eu cá estar, outros compraram e venderam jogadores. Quando eu sair, outros o farão. E, eventualmente, quem vier a seguir até pode fazer o papel melhor que eu.
Encontrar um complemento para Liedson continua a ser prioridade
«Ataque ao mercado depende do Derlei»
[b]R - Concorda que o Sporting não tem um banco à altura do onze?[/b] CF - Concordo com a ideia que há jogadores, alguns chegados esta época, que ainda não expressaram a qualidade que nós lhes reconhecemos e que levou à sua contratação. [b]R - Daí a ideia de um plantel curto.[/b] CF - É uma crítica que eu aceito. Não deixo no entanto de registar que neste momento ainda não comprometemos nenhum dos objectivos que tínhamos no início da época. Mais ainda: aquilo que já acabou, foi ganho - a Supertaça. [b]R - A pouco mais de um mês da reabertura do mercado, já há um diagnóstico feito daquilo que o Sporting precisa para atacar a segunda parte da época?[/b] CF - O Sporting teve dois grande contratempos: as lesões graves do Pedro Silva e do Derlei. Também há uma factualidade evidente: temos tido problemas no complemento de Liedson. Quanto à forma como iremos intervir no mercado em Janeiro, nada está decidido. A recuperação de Derlei é um dado importante nessa equação. [b]R - A presença na Europa (Liga ou UEFA) poderá determinar a acção do Sporting no próximo mercado[/b] CF - A nossa capacidade de investimento foi estipulada no início de época e só se houver um contratempo será alterada. [b]R - Quer dizer que neste momento está reduzida a zero[/b] CF - Exacto. Mas cada caso é um caso e há situações que se deparam aos clubes que se tornam irrecusáveis. Lembro o mandato de Bölöni em que a época não foi planificada com Jardel. Mas a oportunidade surgiu e trabalhámos arduamente nesse sentido para garantir a sua aquisição. Há conjunturas únicas que merecem uma actuação diferente. Este ano, estávamos confortáveis com os quatro avançados que tínhamos. A lesão de um deles coloca um problema e na sua equação é muito importante saber se os timings da recuperação do Derlei podem ser encurtados ou não. [b]R - Quais os mercados que o Sporting pode explorar?[/b] CF - Portugal, Europa do Leste, África e América do Sul. Do investimento que fizemos este ano, parte dele foi aplicado em dois jogadores sub-19: Luiz Paez e Rabiu Ibrahim. As soluções podem vir de qualquer lado, desde que não ponham em causa o controlo orçamental. [b]R - Abel e Tonel são dois bons exemplos de apostas nacionais. Porque é que o Sporting não olha mais para dentro[/b] CF - Os mercados periféricos como a Roménia já fazem melhores propostas a clubes portugueses de média dimensão do que aquelas que o Sporting, no caso, pode fazer. [b]R - A formação é, pois, a melhor saída.[/b] CF - Há uma matriz histórica neste clube que nos diz da capacidade de gerar grandes jogadores (e o Sporting ao longo dos tempos soube detectá-los e trazê-los para os trabalhar em Alvalade). Mas o seu grande mérito tem sido transformar os jogadores que não têm esse dom natural em jogadores de bom nível. Tudo isso é fruto de um modelo organizacional que tem uma componente pedagógica, educacional e desportiva fantástica. Por outro lado, a aproximação entre o universo da formação e o profissional é hoje maior e o aproveitamento desses talentos saídos do "berço" é feito de forma mais efectiva. Há uma confluência de interesses e ideais que leva a que a comunicação entre esses universos seja mais profícua. No meio de tudo isto há quem queira transformar a formação numa arma de arremesso contra o futebol profissional. Conto isto: quando o Izmailov passa de craque na Supertaça para flop no jogo com o Fátima, há logo o comentário de que o Diogo Rosado é que devia estar no plantel principal. Todos os jogadores têm o seu tempo de maturação e há um caminho a percorrer que muitas vezes é incompatível com a passagem imediata dos juniores para os seniores. [b]R - Que expectativas para Paez e Rabiu?[/b] CF - Altas. E além deles temos outros: o ganês Ogusu, os dois irmãos, o guarda-redes Vítor Hugo e o central Vinícius, bem como um sub-17 de nome Renato.
O papel de Pedro Barbosa
«Ele é que vai definir o seu caminho»
[b]R - Qual a função de Pedro Barbosa, vê-o com outras responsabilidades no futuro?[/b] CF - Tem um ano e meio de dirigente e não ocupa o cargo que tem por ter sido ex-capitão do Sporting. Enquanto jogador transmitiu um conjunto de capacidades e atributos profissionais e humanos que sugeriam levar uma grande aposta no fim da sua carreira. Mas será ele a definir o caminho que ele próprio quer seguir. Hoje, ele é quem tem relação directa com o treinador principal, tem a incumbência de acompanhar a equipa nos estágios e estar presente no banco e é o primeiro interlocutor dos capitães e de todos os jogadores. O Pedro tem uma pós-graduação em marketing desportivo e tem outras ideias para se valorizar profissionalmente. Com este enquadramento, tem muito espaço para crescer no Sporting. Só ele no entanto poderá dizer até onde quer ir.
O prémio polémico
«Os custos da transparência»
[b]R - O prémio de 82 mil euros. Aceita o alarido que se fez a propósito dessa recompensa? Quais as razões que o justificam?[/b] CF - Ponto prévio: a transparência tem custos. Quem dá a notícia é a administração da SAD através da publicação do Relatório e Contas. Houve uns ignorantes atrevidos que chegaram a ventilar que esta notícia - divulgada quase todos os dias sob a capa de novidade - resultava de uma fuga de informação para fazer cair o Carlos Freitas! Pena é que da mesma forma que se empolou esta questão não se tenha feito a comparação com as administrações homólogas das remunerações fixas e variáveis. O facto dessa remuneração variável depender de resultados financeiros alcançados ainda me parece mais justificável. O Sporting no ano passado registou 14 milhões de euros de mais-valias que na prática foram 16, pois 2 milhões foram adjudicados a provisões. [b]R - Antes de passar a administrador, era um dos funcionários mal pagos no Sporting?[/b] CF - Não sei. Auferi o que acordei com os responsáveis.