A razão pela qual, apesar de terem vendido o país a retalho e empobrecido a população, PSD/CDS/PS continuarão a ser os partidos mais votados é simples, e Marx e Engels já a explicaram há mais de 150 anos: "As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual." (A Ideologia Alemã, disponível em Marx e Engels: A Ideologia Alemã )
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Outra coisa: já várias pessoas disseram aqui não compreender como é que um partido como o PNR pode ter votos. Vou tentar responder: Os partidos fascistas/neo-nazis terão sempre uma base de seguidores (e, se pegarmos como exemplo a actual Europa de Leste ou as próprias França e Grécia, essa base é já bastante numerosa) devido à própria natureza do capitalismo, que gera desigualdade. A base eleitoral dos partidos nazi/fascistas são os sectores de nível económico médio/baixo, a chamada pequena burguesia - que, num contexto de prosperidade, consegue adquirir alguns direitos e melhorar a sua vida, mas que, na realidade actual, se sente asfixiada e em perigo de perder os seus parcos privilégios.
Sendo este um dos sectores mais vulneráveis, é também dos primeiros a sentir os efeitos da crise e, portanto, um dos que mais cedo quer encontrar formas de reverter a sua condição. A situação de angústia provocada pela quebra de salários e pequenas regalias, pela perspectiva de perda de emprego, pela degradação geral das condições de vida, aliada a um nível de instrução que em média é inferior ao de outros sectores, fazem com que muita gente veja na extrema-direita a solução para os seus problemas. A retórica desses partidos é de fácil apreensão e seduz franjas sociais politicamente pouco esclarecidas, uma vez que procuram bodes expiatórios e culpam de forma simplista e errada alguns sectores vulneráveis da população (imigrantes, homossexuais, beneficiários do RSI, seja o que for) como se fossem eles os responsáveis pela degradação progressiva do nível de vida.
Numa conjuntura de total antagonismo político-social, como hoje ainda não temos, mas que existe em parte na Grécia e historicamente existiu, por exemplo, na Alemanha dos anos 30 (quando, antes de os comunistas serem esmagados pelos nazis, uns e outros tinham tantos ou mais partidários do que a social-democracia e disputavam os mesmos sectores operários), o nazi/fascismo é o último reduto da burguesia em tempos de convulsão social, e é usado como última grande arma para defender a propriedade privada. O nazi/fascismo chegou ao poder em Itália e na Alemanha porque, na agreste realidade do pós-guerra e com a ameaça soviética a pairar do outro lado da Europa, essas ideias deixaram de existir apenas em sectores residuais, e tornaram-se dominantes nas franjas que costumavam ser mais “moderadas”, mas que se foram tornando cada vez mais desesperadas face às dificuldades que viviam.
Com o desespero generalizado deu-se, portanto, essa radicalização reaccionária. Ao aperceber-se de que a democracia parlamentar e as liberdades estavam postas em causa e já não correspondiam às suas necessidades, a grande burguesia, detentora dos meios de produção, com medo de uma viragem à esquerda dos trabalhadores (que pusesse realmente em causa o regime de propriedade), passou a apoiar o movimento nazi/fascista, abrindo-lhe caminho à chegada ao poder. Assim foi em Itália, em 1922, e na Alemanha, onze anos mais tarde.
Concluindo, numa situação normal de paz social, a sociedade tende para posições chamadas mais “moderadas”, onde a extrema-direita é pouco mais do que residual. Mas em tempos de crise, e quando os moldes da sociedade são postos em causa, a conjuntura altera-se. À radicalização à esquerda dos sectores trabalhadores, responde a classe dominante com uma radicalização em sentido inverso. É um extremar de posições próprio de tempos complicados. Hoje, pode dizer-se, estamos na antecâmara desses tempos.
A existência de partidos de extrema-direita é, portanto, uma resposta (desinformada, desesperada e odiosa mas, ainda assim, uma resposta) à existência de desigualdades sociais. Ora, como as desigualdades são, por sua vez, uma consequência inevitável do sistema capitalista, podemos concluir que a extrema-direita sempre irá existir numa sociedade como a nossa. Pode estar mais ou menos adormecida, mas nunca desaparecerá. A adesão a estas ideias explica-se por um misto entre a) desespero gerado pelas condições de vida cada vez precárias, b) analfabetismo político e c) uma necessidade urgente de encontrar respostas que possam alterar a dura realidade. É precisamente essa alteração que a extrema-direita promete, aproveitando-se do baixo nível de instrução de certas camadas e recorrendo a uma retórica de ódio e de bodes expiatórios que é facilmente cativante.
A extrema-direita será tão mais forte quanto mais débil for a resposta dos partidos de esquerda para responder às necessidades das camadas desfavorecidas e apostar em políticas progressistas, que retirem estes sectores de uma situação de desespero e indefinição, em que tanto podem cair para um lado - a extrema-direita - como o outro - a esquerda. Isso faz-se através de medidas que acabem tanto com a pobreza material (habitação, educação, saúde, emprego, etc.) como espiritual (subida geral do nível de instrução que, a curto/médio prazo, derrubará os preconceitos para com as tais camadas vulneráveis que a extrema-direita usa como bode expiatório.
P.S.: respondendo à pergunta do tópico, e mesmo não simpatizando com a Joana Amaral Dias, provavelmente irei votar no AGIR (coligação entre AGIR, PTP e MAS). Aproveito para dizer que essa hipótese não está incluída na sondagem deste tópico. :great: