Educação em Portugal

Ao reduzires a classificacão para os 3 ou 4 níveis a implementar, então reduzes toda a informacão. É como os vencedores dos campeonatos: não vai ficar para a história os factores mais ou menos extraordinários que fizeram uns e outros ficarem para trás.

Não sabes se a entrada de 1 repetente é mais ou menos desestabilizadora que a entrada de 3 ou 4, não sabes se a mesma turma evolui de forma diversa no ano seguinte com o mesmo professor por causa do professor ou de outro factor qualquer, não sabes nada disso, não é possível avaliar matematicamente isto e o Ministério nunca na vida vai fazer esta avaliacão para cada disciplina de cada turma de cada escola.

Atrasar a progressão na carreira de um professor e deixar outros passar à frente sem controlar os factores externos que têm influência no rendimento dos alunos e que são reduzidos a uma escala de 4 graus não te diz nada sobre o professor que tens à frente e não é justo de todo.

Tu achas que culpabilizar o ‘sistema’ é errado. Pois eu anão acho. Na Suécia, há muitos anos acriou-se o chamado Lex Maria, um processo que é instaurado ao ‘sistema’ quando alguma coisa corre mal. Säo apuradas as responsabilidades de quem cometeu a(s) falha(s) no processo, mas o veredicto não é o rótulo de insuficiente aos indivíduos, mas por exemplo, a necessidade em alterar determinadas rotinas / melhorar comunicacão a determinados níveis / criar procedimentos e checkpoints em determinadas alturas. E depois trata-se de um processo evolutivo… se se verificar que esse tipo de situacões tendem a ocorrer menos vezes que anteriormente considera-se uma evolucão positiva e o ‘sistema’ funciona melhor, beneficiando assim toda a gente. Isto não é assim tão difícil, e evita-se a estigmatizacão das pessoas como Insuficientes sem se saber absolutamente nada sobre os critérios que levaram a essa decisão.

espera lá… ha qualquer coisa a falhar na nossa conversa…

eu nao sou a favor desta avaliaçao… eu nao acho que se devam instaurar 3 ou 4 niveis de classificaçao… eu nao sei se um repetente tem mais influencia que quatro mas sei que neste momento ninguem sabe nem há como medir isso…

o que eu defendo é uma classificacao anual de 0-20 ou 0-100, e para progressao conta a média dos ultimos x anos…

essa nota nao é simplesmente a nota media dos seus alunos no exame anual… o que interessa é a sua evoluçao perante a nota dos outros anos e a outras disciplinas no mesmo ano…

eu defendo maior autonomia para as escolas…

eu sou altamente critico do sistema de ensino…

eu critico a desresponsabilizacao dos pais e dos alunos…

eu defendo a aplicacao de um modelo de qualidade e melhoria continua… mas tenho a consciencia que para isso temos que medir os resultados e tomar medidas…

eu nao culpo os professores pelo que se passa no ensino apesar de serem uma força de bloqueio a mudanças…

eu acho que culpar o “sistema” é errado, porque essa é a maior desresponsabilizaçao que se pode fazer… por outro lado quem faz funcionar o sistema sao pessoas e se essas nao fizerem o seu trabalho, por melhor que o sistema seja, vai falhar…

As pessoas falam do ‘sistema’ como se fosse alguma entidade metafísica que não é possível alcancar e isso não é verdade. Não se trata de desresponsabilizar, porque quem vive as situacões sente sempre o peso da sua consciência e, caso não sinta, terá em qualquer dos casos o resto da escola a pressioná-la para se auto-corrigir. Mas para isso é preciso dar autonomia e simultaneamente responsabilizar as escolas, não é obrigá-las a cumprir a 200% as suas indicacões e depois na volta meter uns rótulos porque os resultados não foram satisfatórios, quer tenham ou não cumprido o que o Ministério pediu.

estamos de acordo… por isso é que quando disse a culpa é do “sistema” pus sistema entre aspas… estava a referir essa entidade metafisica…

OPINIÃO

Professores no “Preço Certo”: a ascensão da insignificância

O facto de ninguém ter gritado alto e bom som que tal participação envergonha a classe é mais um óbvio sintoma da “apagada e vil tristeza” a que o sistema educativo chegou.

25 de Junho de 2020, 0:10

“Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e a roubar o pobre povo!”
Luís de Camões, Os Lus. VII, 85.

Foi num fim de tarde. Dia de Santo António, de sardinhada e festança… Dia em que nasceu Fernando Pessoa… Não sei se essa coincidência temporal encerra qualquer indício de ominoso, mas foi trágico (e em alguns momentos dum cómico torpe) o que aconteceu no programa “O Preço Certo”, espécie de coroa de louros para docentes das mais diversas disciplinas e que, neste tempo de pandemia, “salvaram” a educação dando aulas em regime de tele-ensino.

O facto de ninguém ter gritado alto e bom som que tal participação envergonha a classe é mais um óbvio sintoma da “apagada e vil tristeza” a que o sistema educativo chegou. Sinal de degenerescência haver professores a celebrar a tele-escola num programa que é inimigo de qualquer ideia de cultura, foi com perplexidade que assistimos à desfaçatez do inspirado Fernando Mendes a vituperar Camões e a epopeia maior do Renascimento sem que nenhum professor reagisse. Com nove negativas no 9.º ano, disse o profissional da televisão que ler esse livro significava, dada a sua extensão, não completar a escolaridade em tempo útil. A plateia de profissionais da educação sorriu ou riu, prosseguindo-se a campanha alegre d’"O Preço Certo”.

Nada vi escrito sobre este caso sórdido. Devo calar a minha revolta? Em tempo adverso a tomadas de posição contra a ditadura do banal, devemos assobiar para o lado? Mas não é grave e reflexo do aviltamento geral o que vimos no passado dia 13? Como podemos exigir dignidade nos salários, nas condições de trabalho, se acontecem destas confrangedoras realidades? Onde estão os professores que deviam ser factores multiplicadores de cultura?

De facto, urge perguntar como é que se pode chegar a semelhante estado de alienação. Não será, eventualmente, toda a classe, mas é extraordinário que haja quem, com a responsabilidade simbólica e efectiva de transmitir saber científico e livresco, se sujeite a participar num dos programas que, a meu ver, mais tem contribuído para o abaixamento mental dos portugueses. De quem terá sido a ideia de homenagear os “profissionais da educação” com este programa onde se procura adivinhar o preço certo de electrodomésticos? Não houve uma voz que se insurgisse contra tal espectáculo? Tal como se fez para os “profissionais de saúde”, agraciados pelo primeiro-ministro, António Costa, com as fases finais da Liga dos Campeões, também os “profissionais da educação” tiveram direito ao reconhecimento nacional.

Nada disto seria grave e triste se não fosse o caso de ser a classe docente uma das mais desprezadas pelos sucessivos governos desde há uns bons 20 anos a esta parte. Mas mais gritante é o desnorte que faz com que professores da Tele-escola, de algum modo representando todos os seus colegas, não tenham compreendido o mau serviço que prestavam ao participar na sardinhada do Mendes porreiraço. Mas a realidade professoral será esta? Há uns dias, numa aula online da RTP, antecedendo a lição do Presidente Marcelo, uma professora de português, impante de responsabilidade e orgulho, confessava ao Presidente-professor que, para preparar as suas aulas, tinha “pesquisado muito no Google”. É esta a concepção de estudo e de investigação que muitos têm?

Como refere Cornelius Castoriadis, “Desde há anos que a profunda regressão mental das classes dirigentes e dos quadros políticos conduziu à liberalização a todo o custo de tudo quanto é economia e sistema de trocas, esvaziando de poder simbólico as mais diversas actividades de trabalho – e o próprio trabalho” ( A Ascensão da Insignificância , Bizancio, 2012). A educação é das áreas que melhor espelham essa nefasta liberalização: aulas transformadas em entretenimento, o professor visto como um técnico, um “profissional da educação”, cumpridor ordeiro da ideologia oca. Foi isto que vi n’"O Preço Certo”. Revejam o programa: uma colega que até levava (pasme-se!) um livro feito pelos seus alunos foi acantonada pelos demais que, sorrindo, cheios de confiança, alegres e cúmplices, ofereciam bolos e os mais diversos galhardetes, ávidos por, no Santo António, cantarem com o Quim Barreiros.

Se Castoriadis não erra – nem Camões –, é caso para dizer que a participação dos professores naquele programa indigente é sinal inequívoco da máquina totalitária que, como um rolo compressor, esmaga quaisquer valores que deveríamos ter por perenes, padronizando as massas, transformadas em consumidores acríticos de conteúdos de grau zero. Movida pela dinâmica neoliberal de trocas, uma educação que escolha o caminho fácil do imediatismo online mais não será que a reprodução da sociedade civil hoje desvitalizada, sem memória e sem história.

Que se veja a participação dos docentes do tele-ensino e perguntemo-nos: se é para aí que a educação dos nossos filhos, das nossas crianças e jovens se encaminha, que quadros políticos, empresariais, educativos, universitários, teremos em 2030? Quando um professor, ao cabo de 30 anos de ensino, considera que ter dado aulas a Pedro Granger é prova cabal do seu magistério, a que preço está a educação? Os alunos, agora que se diz que são “a melhor geração de sempre”, poderão responder. Ou então, oiçamos o sapiente Tiago, ministro do tele-ensino e que devia ter estado, sorridente e pimpão, n’"O Preço Certo”.

O Público

Urge fechar todos os campos de concentração, vulgo “escolas publicas”

O radical vai aparecer a dizer que os colégios privados são uma grande merda e só fazem é mamar subsídios do estado em 3,2…

E se as negociações com os sindicatos dos professores fossem como no setor privado?

  • By Rui Cardoso

A proposta de que as negociações com os sindicatos da função pública deveriam funcionar como no setor privado costuma parecer luminosa à primeira vista, daquelas ideias que brilham antes de percebermos que afinal o brilho vinha apenas do reflexo no vidro. Para testar o encanto, imagine-se a sua aplicação direta aos professores do setor público, transformando a escola num espelho das empresas típicas. Nesse cenário hipotético, os contratos seriam negociados individualmente, a mobilidade obedeceria às necessidades do “negócio”, a avaliação teria impacto imediato no salário e o despedimento seria uma possibilidade real quando as metas não fossem cumpridas. Antes de entusiasmos apressados, convém respirar fundo.

As vantagens teóricas são sedutoras. A flexibilidade salarial permitiria que quem produz mais ganhasse mais, convertendo resultados, projetos e inovação em euros ao fim do mês e premiando o mérito de forma mais visível do que acontece atualmente. A progressão deixaria de depender de quotas ou vagas, substituindo listas intermináveis por um simples mecanismo de “fez, justificou, sobe”. A gestão das necessidades seria mais ágil, permitindo ajustar salários e incentivos para atrair professores onde eles faltam, num ritmo que agradaria muito ao Excel.

Mas o Excel também chora, sobretudo quando chegamos às desvantagens. A instabilidade laboral tornar-se-ia uma realidade omnipresente. No privado, quando é preciso cortar custos, corta-se, reorganiza-se ou redesenha-se estruturas sem grande hesitação. Nas escolas, isso poderia criar professores deslocados, sem horário ou simplesmente dispensados, destruindo a estabilidade que mantém o ensino funcional. A avaliação baseada em métricas “objetivas” seria outro problema, já que a educação não tem um equivalente ao lucro. Notas podem inflacionar, a motivação é difícil de medir e turmas desafiantes não desaparecem porque o modelo o exige. A competição substituiria rapidamente a colaboração, convertendo colegas da mesma disciplina em concorrentes diretos numa corrida por bónus salariais, corroendo a cultura pedagógica construída sobre partilha e entreajuda. Além disso, a lógica de mercado não serve uma missão pública que exige garantir educação para todos, independentemente do contexto ou das dificuldades.

No fim, a ideia de copiar o modelo negocial do setor privado para a escola pública pode parecer moderna e eficaz, mas é pouco mais do que um exercício de “ctrl+c, ctrl+v” mal pensado. Uma escola não é uma start-up, os alunos não são clientes e os professores não são peças substituíveis num armazém de logística. Melhorar negociações, modernizar processos e valorizar desempenho é desejável, mas importar cegamente a lógica empresarial seria trocar problemas antigos por problemas maiores. E não tardaríamos a perguntar quem foi mesmo que achou que isto era uma boa ideia.

É preciso ter cuidado porque este modelo já se aplica lá fora…