[b]Um mundo inseguro [/b]
O Mundo mudou naquela manhã do dia 11 Setembro de 2001. A insegurança faz agora parte do dia-a-dia dos ocidentais, seja no emprego, no metro ou em férias
O estado de emergência foi prorrogado por George W. Bush. A decisão do presidente dos Estados Unidos da América é apenas um sinal de que, passados cinco anos sobre os atentados contra as torres gémeas de Nova Iorque, os americanos continuam a viver sob a ameaça terrorista. Duas guerras declaradas, muitos detidos sem julgamento na base militar de Guantanamo, mudanças aos direitos civis. Por tudo isto passou e passa o povo americano, empenhado em fazer justiça aos 2.749 mortos dos ataques ao World Trade Center.
Apesar do novo pedido de sacrifícios e do anúncio de que, em breve, serão julgados os responsáveis pelos ataques do 11 de Setembro de 2001, a administração Bush tem cada vez mais dificuldades em explicar aos americanos os benefícios dos esforços pedidos. A distância das imagens de horror começa a provocar brechas e ouvem-se com mais forças as vozes que discordam das políticas de combate ao terrorismo adoptadas pelo governo da União.
Nas universidades, teóricos de todas as áreas de conhecimento, juntam-se para lançar outro olhar sobre os atentados. A teoria da conspiração, tão ao gosto dos Estados Unidos, ganha força e adeptos. Já se diz que, afinal, não foi o embate dos aviões que fez cair as torres mais altas de Nova Iorque. E também se diz que o Pentágono não foi atingido por um avião. Assuntos que são discutidos com vivacidade por professores, engenheiros e outros intelectuais americanos.
Outras investigações, como a que foi conduzida por dois jornalistas do “New York Times”, mostraram já o inferno de calor e chamas porque passaram as pessoas que se encontravam no interior da torres no momento em que os aviões desviados por terroristas bateram nos edifícios.
No livro 102 Minutos, Jim Dwyer e Kevin Flynn falam da descoordenação da polícia, dos bombeiros, as ordens contraditórias e, antes de tudo isso, das poupanças de espaço na construção dos prédios nos finais dos anos sessenta, princípio de setenta. As portas encravadas, a falta de escadas de incêndio, os materiais altamente combustíveis, tudo o que, naquele dia de Setembro de 2001, transformou as torres numa armadilha para os que nelas trabalhavam.
Em cinco anos, os dramas - agora levados ao cinema num filme de Oliver Stone - foram contados, foram dados testemunhos. Falou-se da coragem dos nova-iorquinos, do desespero das famílias, dos últimos telefonemas, das mensagens de amor que os que morreram deixaram às mulheres, aos maridos, aos filhos, a pais e amigos. As tragédias narradas na primeira pessoa, onde quase nunca se fala de árabes, de Islão, de terrorismo, de geo-estratégia ou política.
Naquele dia, nos 102 minutos que demoraram as torres a cair, as milhares de pessoas que se encontravam no World Trade Center lutaram pela sobrevivência. Pela televisão, vimos os aviões a bater, o fumo, gente em desespero a atirar-se dos últimos andares dos edifícios mais altos de Nova Iorque. E, por fim, o desabar de dois gigantes, sepultando milhares de seres humanos de todas as raças e religiões.
Os americanos ficaram de luto e, com eles, o Ocidente. Rapidamente, depois do ataque às torres e ao Pentágono, de um avião derrubado pelos próprios passageiros, se descobriu a pista da Al-Qaida, de Osama Bin Laden, dos campos de treino no Afeganistão. Em Outubro desse ano, uma coligação liderada pelos Estados Unidos declarou guerra ao governo talibã do Afeganistão, mas seria ingénuo pensar que a ferida aberta pelo 11 de Setembro se fechava com a invasão de um país distante.
Os atentados, pelo impacto e pelos métodos, mudaram o Mundo, as relações entre o Islão e o Ocidente. Os ataques terroristas não voltaram aos Estados Unidos, mas nestes cinco anos espalharam-se pelos quatros cantos do planeta, no encalço de ocidentais. Os fundamentalistas islâmicos fizeram vítimas no Bali, na Turquia, em Espanha, em Londres, no Egipto. Em casa ou nas instâncias de férias, o sentimento de insegurança instalou-se para ficar. O mais recente episódio desta nova realidade foi a descoberta de um plano para derrubar aviões em pleno voo. A polícia britânica cancelou viagens, impediu a entrada de líquidos, telemóveis e computadores na cabine dos aviões. Reforçou-se as regras de segurança, mas poucos têm dúvidas de que hoje o Mundo é um lugar muito mais perigoso do que era antes do 11 de Setembro.
Os presos de Guantáno, a guerra do Afeganistão e, mais tarde, a invasão do Iraque não ajudaram a sossegar os espírito dos ocidentais. A queda do ditador Saddam Hussein transformou o Iraque num caos propício à actividade dos terroristas, onde os raptos e os atentados são o dia-a-dia do país. Por outro lado, no Islão, acentua-se o abismo cultural que o separa do Ocidente. Poucos se atrevem a falar de um choque de civilizações, mas parece evidente que estão frente-a-frente duas visões do mundo, do homens e dos seus direitos.
No princípio do ano, um terramoto varreu os estados de maioria muçulmana por causa de umas caricaturas de Maomé publicadas num jornal dinamarquês. Multidões enraivecidas invadiram e queimaram embaixadas, mostrando de que modo e até que ponto estão dispostas a lutar pela sua fé.
Relações que continuam instáveis. O Irão. república islâmica, insiste em continuar o seu programa nuclear e, no Reino Unido, os britânicos descobriram que os autores dos planos para derrubar aviões em voo eram jovens nascidos e educados em Londres. De origens muçulmanas ou recém-convertidos, que encontraram na causa terrorista o escape para as frustrações com o Ocidente que lhes dá emprego, mas que não sentem como seu.
Cinco anos depois, o horror de Nova Iorque continua a ser um medo actual. A ameaça existe. É externa ou interna. Nos Estados Unidos serve a administração Bush para manter o estado de emergência, para limitar os direitos dos cidadãos e tentar fazer passar leis sobre escutas telefónicas.
Porque o equilíbrio entre o combate ao terrorismo e as garantias civis é o grande desafio das democracias ocidentais. Saberão os governos manter a segurança e preservar os direitos individuais intactos? O tempo dirá se o 11 de Setembro abriu ou não caminho para estados policiais.
Marta Caires, DN Madeira