Não estou muito por dentro das redes sociais… e por isso apenas transcrevo esta análise de alguém que parece ter estudado alguma coisa sobre Aristides de Sousa Mendes e sobre os judeus e o Estado Novo… Onde estão os eventuais erros e as eventuais verdades ? (para quem esteja por dentro do tema, o que não é o meu caso)
Sousa Mendes no Panteão. Eis o que sei e o que julgo saber.
1: A personalidade de Sousa Mendes
Sousa Mendes era uma personalidade instável. Católico convicto era, ao mesmo tempo, incapaz de se controlar; teve inúmeros casos extra-conjugais (um deles custou-lhe caro porque engravidou uma funcionária de Embaixada e foi suspenso por dois anos); não conseguia cumprir regras e procedimentos porque não trabalhava com regularidade e foi repreendido várias vezes por isso. Era apoiante do Estado Novo e monárquico (um conservador, pois) e não um opositor do regime. Nada disto é crítico ou uma apreciação pessoal: limito-me a apresentar factos bem estabelecidos nos documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Apresento-os por serem importantes para a compreensão do que se passou. Esclareço não ter qualquer posição de simpatia ou antipatia prévia relativamente à pessoa.
2: A posição do regime quanto aos judeus
Salazar exprimiu-se claramente, pelo menos por duas vezes: uma numa nota para a Embaixada Portuguesa em Berlim, em que dizia que era necessário vincar ao Reich que os judeus portugueses eram cidadãos portugueses e não podiam ser perseguidos porque a lei portuguesa impedia que se fizessem distinções em termos de raça. E, antes disso, criticou indirectamente as leis de Nuremberga precisamente por darem tratamento diferente aos nacionais segundo a raça.
Que o regime não era anti-judeu provam-no várias declarações quer de historiadores judeus que estudaram o período quer as próprias declarações de Adolfo Benarus, presidente da comunidade judaica de Lisboa nessa altura.
Além disso, Salazar permitiu (em 1940) que a a principal associação de ajuda aos judeus transferisse a sua sede de Paris para Lisboa; autorizou a instalação na Madeira de duas centenas de judeus gibraltinos.
Os judeus que Sousa Mendes trouxe para Portugal não foram expatriados para os países de origem, como o exigiria a lei internacional. Ficaram cá.
Talvez mais impressionante que tudo o que já disse, o Ministro Leite Pinto, que dirigia a linha férrea da Beira Alta, organizou uma linha de migração de Berlim para Lisboa: os combóios iam com volfrâmio e voltavam com judeus.
E ainda: Carlos Liz-Teixeira Branquinho, embaixador em Budapeste, então sob um brutal regime pró-nazi e monstruosamente anti-judaico, salvou, com a concordância e apoio de Lisboa e do próprio Salazar, mais de mil judeus dos campos de morte. Fez o mesmo, ou até mais do que Sousa Mendes, mas de maneira legal, ordeira e, de resto, extremamente corajosa, já que arriscou realmente a vida.
3: A posição do regime quanto aos refugiados
A norma era clara: a qualquer refugiado que quisesse vir a Portugal para sair para outro país ou que, tendo os meios para isso, se quisesse fixar em Portugal deveria ser dado visto. Os outros casos deveriam ser considerados individualmente pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Portugal nunca fechou as fronteiras aos judeus.
4: O comportamento de Sousa Mendes
Não há dúvida de que salvou muitos judeus; não foram milhares, como agora se diz, mas foram muitos. Assinou imensos vistos sem pedir qualquer autorização. Contudo, não foram apenas vistos de judeus que assinou: também emitiu vistos a não judeus ricos e inclusivamente forjou um passaporte. Não tenho prova disso, mas dizia-se que o fez por pressão da amante da altura a troco de dinheiro (que seria dado a uma instituição de caridade mas que chagaria a Sousa Mendes). Não sei se é verdade. Contudo, os seus esforços de dar vistos são estranhos, porque, contrariando as ordens do governo, não facilitou a saída de britânicos. Esta sua demora pode até ter estado na origem da punição que lhe foi inflingida: Portugal não podia permitir falhas relativamente à Grã-Bretanha dada a importância que tinha, no regime, a aliança inglesa.
5: A punição de Sousa Mendes
Sousa Mendes não foi expulso do Ministério: foi suspenso (já tinha acontecido antes, por razões de saias) durante um ano e meio e com metade do ordenado. No geral, houve grande tolerância para com o seu comportamento muito irregular.
6: O que tudo isto significa
Em primeiro lugar há aqui um fenómeno de imitação: «também temos um Schindler». Ridículo? Sim, mas nada implausível.
Mas num nível mais profundo trata-se de um mito de legitimação do actual regime. Ao afirmar que houve um herói que se levantou contra a perseguição dos judeus e que foi punido por isso, está-se, por implicação, a afirmar que o salazarismo era anti-semita e pró-nazi. Espero ter mostrado que é falsa tal ideia.