A História

Também há cronistas mais rigorosos que outros. O Fernão Lopes nem era dos mais “líricos” mas essencialmente os cronistas-mor não são de fiar a 100%. Tal como os pintores da altura, eram pagos para darem boa imagem daqueles de onde provinha a nota. Não para serem realistas. Alguns provavelmente nem se esforçaram muito para contarem a História verdadeira, mas sim a História conveniente. E isso dificulta muito a vida aos que hoje tentam desatar os nós da História, uma vez que se deparam frequentemente com lendas que se sabem não poderem ser verdade, mas que são tidas como factos históricos porque nas escolas ‘sempre se ensinou assim’. E depois há o extremo. Que são aqueles que, nos dias de hoje, se esforçam ao máximo para encontrar teorias rebuscadas só para causarem estardalhaço e verem se alguem morde. O José Hermano Saraiva era um bocado assim. O pai nem tanto. No entanto reconheço que, por um lado foi assim que se manteve tantos anos a fazer televisão e, por outro, teve sempre o cuidado de dizer que o que lançava eram meras hipóteses, e que o objectivo era fazerem as pessoas pensar. E conseguiu largamente… Por exemplo, há um Camões antes de Saraiva e um Camões depois de Saraiva. E o que ficou depois dele é muito mais próximo do verdadeiro Camões do que o Camões nobre e fidalgo que era assumido pela larga maioria dos Portugueses há cinquenta anos atrás.

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Eu gostava de ver os programas dele sobre a História de Portugal, quando era miúdo.

Eu também vi todos. E acho que consegui responder ao repto dele de ouvir, com espírito crítico. Ele colocava as coisas de forma a que nós tivéssemos vontade de investigar. Embora hoje veja que ele talvez fosse mais ‘estoriador’ que ‘historiador’, não há dúvidas que foi um dos maiores vultos da nossa Cultura no século XX e um dos que mais fomentou o gosto pela nossa História.

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O avô :point_down: da minha ex.mulher (grande amiga)…

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/recursos/bibliotecas_e_arquivos/biografias/biografiajoaodecastronunes2.pdf

… soltou uma vez que mais facilmente eu teria acesso à História a ler romancistas do que a ler historiadores.

Fuck! Entretanto lá me lixaram a novela… tenho que me reduzir ao “Sol de Verão” ou à “Chuva na Areia”… ou a qualquer coisa que o valha.

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Os historiadores têm dúvidas, os romancistas não…

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Sem dúvida! Nada contra historiadores, cuidado…

Ele apenas me quis chamar a atenção para o que podemos beber das caracterizações sociais que encontramos em romances, muito mais libertos das “pressões” inerentes a uma publicação histórica oficial.

(na linha do que aqui foi escrito, de que a História é escrita pelos “vencedores”)

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conde de Bolonha selo II.jpg.pdf (54.5 KB)

Subsiste nos arquivos nacionais franceses (proveniente de documento da abadia de Froidmont) um selo equestre de D. Afonso, já conde de Bolonha, de 1241, em que os castelos preenchem todo o escudo do cavaleiro e a parte frontal da gualdrapa do cavalo enquanto a parte da garupa se reveste das armas de sua mulher (Dammartin semeado de França antiga) que o novo conde juntou às suas.

Seria o futuro D. Afonso III, e este selo é a mais antiga fonte para o conhecimento da razão pela qual passam a existir castelos no Brasão de Portugal… Tudo começou no semeado de castelos que eram as armas pessoais de D. Afonso e que ele juntou às da mulher quando, por casamento, se tornou conde de Bolonha… Em texto anterior, tento explicar o que ocorreu depois…vejam pag 179 deste tópico.

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Essa tendência é cada vez menos prevalecente…

Cada presente reescreve o passado de acordo com as ideias dominantes dos “vencedores” nesse presente (as forças que dominam o poder cultural nesse presente)… Ou seja, “a História é escrita pelos vencedores”, inicialmente por quem efetivamente venceu na época a que se referem os acontecimentos, mas depois vai sendo reescrita pelos sucessivos vencedores que vão dominando o poder na mesma sociedade produtora de historiografia…, se encararmos a expressão “vencedores” deste modo, o aforismo continua verdadeiro, parece-me (embora em sociedades liberais haja espaço para alguma produção historiográfica dissente que chega a pequenas franjas da sociedade)… Os vencedores atuais “neste país” estão a procurar reescrever a história contada pelos grandes cronistas da expansão…, por exemplo,…, ou pelos anteriores historiadores tendencialmente nacionalistas…, por exemplo… Por isso, a historiografia, o domínio da narrativa histórica, é um combate permanente no controlo da identidade e do futuro de cada sociedade…

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A(s) reconstituição(ões) da batalha de Aljubarrota tentam acomodar num todo verossímil tanto as informações de Fernão Lopes (português) quanto as de Jean Froissart (francês), Pedro López de Ayala (castelhano), e do anónimo da “Crónica do Condestrabre de Portugal”…, de modo nenhum Froissart é ignorado.

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Mas os diferentes pontos de vista têm diferenças significativas e aquela que é ensinada nas escolas (ou era), tende mais para Fernão Lopes. O que também não é necessariamente mau. Estamos a falar de crianças e é bom cultivar o gosto delas pela nossa História. Até a Matemática, que é uma ciência exacta, é ensinada de forma menos correcta, ou até mesmo errada, em fases mais precoces do Ensino, de forma a cultivar primeiro o gosto e o raciocínio dos putos, e só mais tarde se começa a ‘destapar o véu’ do cálculo, da álgebra, da geometria, trigonometria, etc… Por isso, quando falamos de História, ainda há mais essa legitimidade, na minha opinião.

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A matança dos franceses prisioneiros talvez não seja a melhor forma de atrair as crianças para a história… Aconteceu noutras batalhas da Guerra dos Cem Anos, como em Azincourt…

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É esse o ponto que queria chegar.

Quando me deram a “conhecer” a Batalha de Aljubarrota, na escola, não disseram que tinha havido uma matança brutal de soldados franceses.
Acaba por ser normal.

Só que lá está, Froissart e Ayala são contemporâneos da batalha, Fernão Lopes só nasce quase 100 anos depois.

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Contemporâneos e estiveram lá, tenho ideia…

Ayala esteve na batalha e foi prisioneiro dos portugueses…, já Froissart ouviu a história do ocorrido por testemunhas (parece que dois cavaleiros) em 1388.

A eliminação dos cavaleiros franceses (formaram a 1ª vaga junto com portugueses pró-castelhanos) foi decidida no momento, quando a cavalaria ligeira castelhana do Mestre de Alcântara logrou contornar a posição portuguesa e atacou a zona dos trens defendida por infantaria dos concelhos e besteiros (onde os cavaleiros prisioneiros estavam sob guarda deficiente).

Note-se que Fernão Lopes, pelo menos desde 1418 (talvez antes, pois esse é apenas o ano do 1º documento conhecido que refere esse facto), já era guarda-mor da Torre do Tombo…, pelo que terá decerto contactado pessoalmente diversos intervenientes na batalha de Aljubarrota (Nuno Álvares Pereira só morreu em 1431).

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Fernão Lopes nasceu entre uns 5 anos antes de Aljubarrota e 5 anos depois (1380-90).

Mesmo que os franceses não tivessem atacado a zona dos trens, os prisioneiros teriam de ser abatidos. Portugal já tinha poucos homens para combater, quanto mais para guardar prisioneiros… E aposto que foi com grande desgosto que o fizeram. Porque, numa guerra, desde sempre é uma desonra matar prisioneiros, e porque poderiam ter valido muito dinheiro em resgates. Até pode muito bem ter surgido daqui a famosa Lenda da Brites.

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Exato, fiquei com a ideia de ter lido que tinha nascido mais tarde.

Quanto ao Froissart, lembro-me de ter lido que o mesmo se encontrou em 1389 com Diogo Fernandes Pacheco, o guarda-mor de D. João I na batalha.

Referente a territorios que temos em ‘disputa’ com Espanha, ouvimos sempre falar do caso de Olivenca. Porem, penso que nunca vi ser referido o territorio de Ceuta que actualmente pertence a Espanha apesar de ter uma certa autonomia.
Ceuta era territorio portugues ate’ 'a Uniao Iberica com os Felipes.
Mas apos Portugal ter ganho novamente a sua identidade, Ceuta ficou no dominio dos espanhois.
Um detalhe interessante 'e a propria bandeira de Ceuta.

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Fez parte do tratado de Paz com Espanha que eles ficariam com Ceuta. Ceuta foi sempre, e ainda é, uma fonte de problemas. Tivesse sido logo entregue aos magrebinos para resgate de D. Fernando e não teríamos perdido nada. Pelo contrário…

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