A Economia na Saúde

Aqui vai um exercício que pode abrir uma discussão interessante sobre este assunto.

Imaginem que gerem um hospital e têm 2,8 M€ para gastar na introdução de um medicamento ou medidas de saúde. Portanto, o vosso orçamento é de 2 800 000 €, sendo que têm de escolher 1 entre 3 opções:

1. Manter medicamento “antigo”
Custo por tratamento: 40 000 €
Benefício (número de anos de vida em média): 2

2. Introduzir medicamento “novo”
Custo por tratamento: 70 000 €
Benefício (número de anos de vida em média): 2,5

3. Apostar em alterações do estilo de vida
Custo por tratamento: 20 000 €
Benefício (número de anos de vida em média): 0,3

Qual é que escolheriam e porquê. (a justificação é fundamental porque não é assim tão simples quanto parece 8))

Opção 3 claramente.

Publicitava-se que se estava a promover um estilo de vida saudável (sempre bom para o marketing).

O sobrante do orçamento gastava-se em carros de alta cilindrada para a administração e aprovação de cartões de crédito para as mesmas.

Viva Portugal! :slight_smile:

Agora a sério, não sei!

Mas presumo que tivesse também a ver com o numero expectável de “clientes”.

Em 1 o orçamento daria para tratar 70 doentes com um beneficio de vida acumulado de 140 anos, em 2 o orçamento daria para tratar 40 doentes com um beneficio de vida acumulado de 100 anos e em 3 o orçamento daria para tratar 140 doentes com um beneficio de vida acumulado de 42 anos.

Logo dependendo dos doentes a tratar, considerando que num universo de 140 seria preferível tratar todos que segregar alguns tal como de os doentes fossem 40 se deveria dar o tratamento que mais beneficio de vida lhes desse individualmente.

Ainda assim a hipótese 1 parece-me a mais equilibrada.

A opção 1 seria a melhor. :mrgreen:

Vejam as contas que fiz:

Orçamento: 2 800 000 €

Opção 1
Tratamento: 40 000€
Benefício: 2 anos

Tratamentos: 2800000/40000 = 70
Benefício: 70 * 2 = 140 anos

Opção 2
Tratamento: 70 000€
Benefício: 2,5 anos

Tratamentos: 2800000/70000 = 40
Benefícios: 40 * 2,5 = 100 anos

Opção 3
Tratamento: 20 000€
Benefício: 0,3 anos

Tratamentos: 2800000/20000 = 140
Benefícios: 140 * 0,3 = 42 anos

Pelas contas, a opção 3 é mais populista. :mrgreen: Mas a 1 é a que dá mais benefícios.

Pela interpretação que eu faço a opção 2 exclui a opção 1, enquanto a opção 3 implica manter a opção 1, e não substitui-la. É isso? É que faz toda a diferença nas contas.

Dados que me parecem faltar para poder dar uma resposta:

  • se as tecnologias são perfeitamente divisíveis, e se se pode usar parte do orçamento numa e outra parte noutra ou noutras

  • se a qualidade de vida das pessoas é a mesma com todas as opções (difícil de acontecer com a introdução de um medicamento novo). Se não é, quem a avaliou (a sociedade ou um conjunto de doentes padecendo da condição a ser tratada)

  • que perspectiva adoptar na valorização dos recursos para gastar no tratamento da condição e dos efeitos das medidas - a da sociedade ou a do hospital, dependendo da origem dos fundos

  • como se compara o custo dos tratamentos / programas (existentes ou alternativos) com os dos outros que o hospital tem de levar a cabo, pois há doenças que custam bastante mais a tratar que outras mas não é por isso que devam deixar de ser tratadas

Que esteja a ver à partida é isto, pode ser que à noite me lembre de mais alguma coisa. :mrgreen:

Também acho o mesmo que o psilva…

A situação mais fácil é quando o medicamento novo chega para toda a gente. Aí nem há escolha (face aos pressupostos que penso que estamos a assumir) porque o novo medicamento garante 3 aspectos bastantes importantes a maximização do beneficio individual, colectivo e para além disso a igualdade (equidade).

O problema é quando não chega para todos. O bom senso em principio manda que se permita que o total da população que precisa do medicamento tenha acesso a ele. Logo passar-se-ia à opção 1 e se continua-se a chegar para todos ia passar-se para a opção 3. Mas isto pode não ser tão simples assim.

Será uma escolha sempre algo subjectiva se bem que o indicador de números de anos total ganhos pelo medicamento é um indicador interessante e deve ser tido em conta mas longe de definitivo.
Enquanto mais pessoas ficarem de fora mais se deve escolher a opção que garante a igualdade. Imaginemos que com o medicamento que dá mais esperança de vida é expectável que dado o orçamento dê para tratar 99% da população que necessita. Deve ir escolher-se por isso o medicamento que dá menos esperança de vida? E se a percenntagem em vez de ser 99% passa a ser 90% ou 75% ou 50%? Talvez até em vez de falar em percentagens se devesse fallar em absoluto porque se tratam de vidas e 1% pode ser muita gente mas as conclusões são as mesmas.

MAs e se os tratamentos têm uma grande dferença de ganhos individuais de esperança de vida? Se o medicamento A permite mais 2,5 anos de vida e chega para 75% da população e se o B permite mais 1 mês e chega para todos? Não sei se a melhor solução será a B… E se o B em vezz de ter 1 mês passar a ter 2, 4, 6 ou 12 meses?

O principio mais importante deve ser o de a saúde ser disponivel de forma igual para todos, mas devemos deixar alguma abertura a este principio para não tomarmos decisões muito pouco racionais. Por exemplo quanto maior/menor a diferença entre a esperança de vida dada pelos medicamentos menor/maior peso deve ser dado à igualdade, e quanto maior/menor o número de pessoas que são excluidos maior/menor peso deve ser dado à igualdade. E em situações tão rigidas como esta apresentada é dificil ser-se justo, muito possivelmente vamos perder algo e ganhar algo e devemos pesar as situações…

QUanto ao que nos foi proposto a melhor solução não pode ser encontrada sem sabermos quantas pessoas são. Se o novo medicamento chegar para todos é essa a solução, se não chegar vai depender… Parece-me que a 3) é dificil que seja aceitável face ao seu custo (que leva a que tenha não tantos utentes como seria desejado) e ao seu beneficio, mas pode acontecer uma situação em que seja óptima…

Os dados estão lá todos e as limitacões também. Tens 2,8 M€ para gastar num investimento e só podes escolher um entre 3 disponíveis. As tuas interrogacões são válidas, mas fazem parte da discussão natural do problema. E no fim tens de tomar uma decisão… qual é que escolhes? ;D

Para já estou a gostar imenso das vossas opiniões, já que reflectem um pouco os dilemas que se colocam a nível decisório a um director-clínico ou administrativo hospitalar.

O problema assim formulado não faz sentido do ponto de vista económico. Se falas que há 3 opções incluindo um medicamento “antigo”, então não se pode optar entre alocar o orçamento ao medicamento “antigo” ou a uma das outras duas opções. As opções são: 1. manter o medicamento antigo. 2. deixar de ter o medicamento antigo e passar a oferecer o novo. 3. deixar de ter o medicamento antigo e apostar na prevenção.

A opção 3, apesar de ser economicamente justificável - tem menores benefícios mas acarreta menores custos - nunca seria aceite pela Sociedade nem por uma associação de doentes com impacto na opinião pública. Não estou a ver um administrador hospitalar a tomá-la. Aliás, seria mais provável os fundos para essas iniciativas de prevenção virem do Governo Central e não do orçamento do hospital (voltamos à questão da valorização dos recursos).

O que acho sobretudo é que discutir este assunto sem ter qualquer noção de qual a doença à qual são aplicados as intervenções é um exercício demasiado abstracto mesmo para um exercício académico.

Ai já é director o menino? :mrgreen:

Opção 2, sem dúvida. ;D

Supondo que a introdução do novo medicamento não implica a retirada e destruição do stock do medicamento antigo, podemos introduzir o novo tratamento aos casos mais urgentes enquanto se vai esgotando o stock antigo com os outros casos.

Para além disso, à medida que o consumo do novo medicamento aumenta, este ficará necessáriamente mais barato e rápidamente passará a ser o único tratamento disponível. Os próprios médicos quererão prestar o melhor tratamento possivel aos doentes e só usarão o medicamento antigo se não houver acesso ao novo.

Quando à adopção de alterações ao estilo de vida, esta não se substitui ao tratamento médico. Pode evitar a necessidade de tratamento (idealmente) ou servirá como complemento a este.

Mesmo que a primeira frase fosse necessariamente verdadeira - o que está longe de o ser mesmo para a maior parte das doenças -, haveria um prazo para isso acontecer. Enquanto isso não acontecesse, se o orçamento não desse para tratar todos os doentes que procurem tratamento com o medicamento mais caro - se isso acontecesse nem sequer seria um problema económico, pois os recursos não estariam racionados -, ias tratar menos pacientes que com o tratamento mais barato? Mesmo que isso fosse admissível, com que critério irias alocar certos doentes a receber o tratamento mais caro, o mais barato ou nenhum?

opção 3…

promove a selecção natural…

existe gente a mais no mundo por isso ou se portam bem e adoptam hábitos saudáveis ou então boa viagem e não roubem as chaves ao s.pedro que eu depois também quero entrar…

é que associado ao medicamente está o aumento da esperança de vida e a esse aumento de esperança de vida está ssociado um consumo de riqueza…

a maneira fria de ver as coisas na minha opinião é esta…

Isto justificaria a escolha da última opção mesmo que esta fosse a mais cara, pelo que economicamente não me parece fazer sentido.

se justifica mesmo que fosse a mais cara porque é que não justifica sendo a mais barata?..

Achas mesmo que consegues justificar a opção que proporciona maiores custos e menores benefícios em termos de esperança de vida argumentando com factores económicos e de riqueza? Eu acho que não, mas podes tentar.

A falha lógica ainda mais importante que detectei, é que mais vale não fazer rigorosamente nada, porque aí é que as pessoas morrem logo ou o mínimo de tempo possível depois.

claro que não… mas por motivos políticos e não económicos… em termos de economia é sem dúvida a melhor opção… em termos politicos só um génio para conseguir justificar isto…

em termos económicos o melhor era promover a morte dos inválidos (inválidos absolutos… não são os casos em que são inválidos para uma coisa mas não para outras)… em termos políticos e sociais ninguém com o minimo de juizo pode defender isto…

mas a questão que se coloca é a questão económica…

por outro lado convém saber que tipo de patologia é, que tipo de danos provoca e em que grupo de pessoas é mais comum…

por exemplo… em termos económicos, se for uma doença que afecte mais as crianças deve-se investir mais do que se afectar mais as pessoas idosos, pois o potencial de criação de riqueza é muito maior no caso das crianças… se é correcto, humano, justo fazê-lo?.. talvez não… económicamente parece-me que sim…

Acho que já percebi o teu raciocínio, e os últimos parágrafos levantam pontos válidos e que são discutidos quando é preciso fazer destas escolhas. Mas como não me parece que estejas muito treinado em raciocínio económico, a questão é que estás a entrar com custos que deverão ter sido considerados quando foram apresentados os dados de base - ou seja, os valores de custos que o Paracelsus refere deverão incluir os custos e benefícios para a sociedade em termos de produtividade dos doentes e das pessoas que tratam deles.

Caso não o tivessem sido era preciso entrar em linha de conta com o impacto diferencial nesses custos e benefícios das diversas medidas. E aí, se a doença fosse de facto muito debilitante e de velhos (desculpem a crueza), escolher uma opção mais cara e com menores benefícios nunca seria racional do ponto de vista económico - o racional seria não fazer nada.

Angel,

Tens 2,8 M€. No orçamento que passou tiveste também 2,8 M€ e nessa altura tinhas apenas o “medicamento antigo” para alocar os teus recursos. Neste orçamento tens 2 opções novas e a que tinhas no orçamento anterior. Se calhar assim o raciocínio torna-se mais simples.

O teu último parágrafo é precisamente o tpo de discussão que se pretende com o problema. Qual é a tua escolha e em que critérios te baseias para tal. :wink:

Há 3 opções, mas não são as que referes. Em Avaliação Económica de intervenções de saúde avalia-se sempre novas opções (não necessariamente novas descobertas) em relação ao já existente (por exemplo prática clínica), para se poder comparar os efeitos diferenciais da nova ou das novas propostas em relação à já existente. Isto porque as decisões de alocação de recursos em Economia, para poderem ser eficientes, têm de ser feitas com base em custos e benefícios marginais.

O problema que referes só estaria colocado correctamente se não houvesse tratamento nenhum, e aí já não podia falar-se de tratamento antigo. Fazer a análise como referes implica comparar custos e benefícios médios e não custos e benefícios incrementais, e pode engendrar conclusões erróneas do ponto de vista económico. Isto está bem estabelecido na literatura, se quiseres uma ou outra referência basta mandares PM.

Como se quantifica uma vida humana ?

Se é uma pergunta meramente filosófica, obviamente não é para responder.

Se tens mesmo curiosidade em saber como os economistas procuraram quantificar a vida humana, já não pego no assunto há uns tempos.

O argumento lógico pode ser o seguinte: se a vida humana tivesse valor infinito, não haveria carros a circular nas estradas, porque há pessoas a morrer em acidentes de viação.

Para estabelecer o valor da vida humana, creio que se recorre a “contingent valuation” - perguntar às pessoas, de maneira por vezes indirecta, até quanto estão dispostas a pagar por intervenções que salvem vidas, e daí retirar o valor médio por métodos de inferência estatística. Julgo que poderá haver métodos que recorram apenas a dados secundários e não a inquéritos, mas isso teria de investigar para eu próprio poder explicar.

O facto de os valores estimados para uma vida humana variarem entre estudos num intervalo muito grande não invalida a pertinência da questão, para além dos dados e da metodologia poderem não ser perfeitamente adequados (às vezes podem ser os únicos disponíveis), há sempre “ruído” em modelos econométricos que é responsável por parte da variação.