09-12-2004
Editorial
A árvore e a floresta
O Sporting recorda que há muito formulou propostas que visam resolver dois dos maiores problemas que caracterizam o Sistema: os dinheiros sujos no futebol e a questão da arbitragem
Depois de já ter estado a oito pontos do primeiro lugar, à 13.ª jornada da SuperLiga a equipa do Sporting conseguiu reduzir a distância para apenas um ponto. Tudo está em aberto agora como estava então porque, apesar das teses dos que consideram que o campeonato se decide nas seis primeiras jornadas, a competição tem, de facto, 34.
A recuperação pontual do Sporting exemplifica a importância do trabalho, da serenidade e da estabilidade. São os maiores aliados da concentração competitiva essencial para os grandes cometimentos. Pouco mais de cinco meses depois de iniciada a temporada, o Sporting continua dentro da luta pelo triunfo em todas as competições em que está envolvido, tem a equipa mais goleadora e a que melhor futebol pratica em Portugal. Há certamente aspectos a melhorar, mas é inegável que foi percorrida boa parte do caminho para a consistência. Objectivo que merece continuar a ter o apoio de todos os sportinguistas, já depois de amanhã, frente ao Sporting de Braga, desejando-se uma multidão capaz de encher o Estádio.
A nível geral do Clube, o fim-de-semana voltou a ser desportivamente muito positivo, com vitórias em todos os escalões de formação de futebol e um excelente triunfo do andebol na Luz – 30-15 ao Benfica, com uma primeira parte de luxo. Significativo, por outro lado, que Benfica e Sporting tenham subscrito um documento conjunto que é um alerta aos poderes públicos para que ponham termo à grave crise no andebol nacional. Os dois maiores clubes portugueses assumem assim uma posição clara em defesa da modalidade e da transparência do seu funcionamento, perturbado pelo comportamento de uma Liga que não respeita os princípios que estiveram na sua origem.
Por maioria de razão, porque se trata de uma actividade que envolve grandes recursos e cativa milhões de portugueses, têm os poderes públicos que assumir as suas responsabilidades na reforma do futebol profissional.
Olhando para o futebol profissional a nível de organização, é cada vez mais evidente a incapacidade dos mecanismos vigentes para o fazerem funcionar em termos de credibilidade, transparência e lealdade concorrencial.
As graves questões em torno da operação “Apito Dourado” são apenas uma árvore na floresta. São meros afloramentos daquilo a que convencionou chamar-se o Sistema, cuja actividade não se esgota em práticas e em alguns casos como os que estão a ser apreciados pela justiça.
O Sporting, mantendo o respeito escrupuloso pela actividade da justiça, não se pronuncia sobre as situações em averiguação. Recorda, porém, que há muito formulou propostas que considera prioritárias e que visam resolver dois dos maiores problemas que caracterizam o Sistema: os dinheiros sujos no futebol e a questão da arbitragem.
Não querem estas propostas significar que as duas vertentes estejam interligadas – podem, no limite, até nem estar porque há maneiras diversificadas de escoar os dinheiros sujos; paralelamente, o problema da arbitragem é a sua própria orgânica, o poder ditatorial da Comissão de Arbitragem acumulando as funções de nomear e classificar, condicionando assim os árbitros. Poderes reforçados ainda esta temporada com a capacidade discricionária de “corrigir” as notas dos observadores.
As propostas do Sporting são simples.
Por um lado, criar normas de contabilidade iguais para todas as entidades que se dedicam ao futebol profissional, sujeitas a fiscalização e auditoria independente. Assim se estabeleceria a transparência sobre os movimentos de dinheiro no futebol. O Estado, todos nós, deixaríamos de ser enganados por exercícios de contabilidade criativa que viciam a concorrência.
Por outro lado, reformar o funcionamento da arbitragem através da separação entre as funções de nomear e classificar os árbitros. Estruturas essas encimadas por um conselho superior integrando magistrados. Um quadro que daria muito maior independência e tranquilidade aos árbitros, estabelecendo deste modo o primado da competência.
As propostas do Sporting são simples e não são novas. Infelizmente, são mal conhecidas e é possível detectar, por vezes, barreiras à sua divulgação, por insuficiência de informação e até por distorção. Os que disso tiram proveito são os interessados em manter tudo como está. E não está bem, como qualquer cidadão constata facilmente.
O Sporting não se cansará de lembrar essas propostas, como contributo aberto para um processo de reforma que cabe inquestionavelmente ao poder político entendido na sua globalidade. A falsa questão do “associativismo” não passa, em termos de futebol profissional, de um cada vez mais inconvincente álibi.
José Goulão (Pai
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