SI VERA EST FAMA
A Grande Alemanha: Um Sonho Esotérico - III
Continuação da entrevista com Giorgio Galli a respeito das raízes ocultistas do nazismo, que estão entre as fontes da idéia de que o “espaço vital” do Terceiro Reich deveria chegar até os Urais. Um aspecto pouco estudado pelos historiadores, do qual se voltou a falar depois da queda do muro de Berlim
PM: De que forma Hitler entrou em contato com as experiências esotéricas? Quem foram seus mentores?
GG: O ponto de referência inicial pode ser a revista Ostara, da qual Hitler foi leitor assíduo, nos anos que passou em Viena. A publicação - que leva o nome de uma antiga deusa germânica da primavera, denotando, portanto, a ligação com a tradição nórdica e com as velhas divindades pagãs anteriores à difusão do cristianismo na Alemanha – foi fundada em 1905 por um ex-frade, Jörg Lanz von Liebenfels, que, entre outras coisas, instituiu uma sede em Werfenstein, o “Castelo da Ordem”, onde provavelmente, com o apoio financeiro de industriais, começou a patrocinar uma organização baseado na teoria da superioridade da raça ariana.
Revista Ostara.
Jörg Lanz von Liebenfels.
Outro ponto de referência para a formação esotérica do futuro Führer é Rudolf von Sebottendorf, estudioso da cabala, de textos alquímicos e rosa-crucianos e das práticas ocultistas dos dervixes, e promotor, em Munique, no ano de 1918, da Thule Gesellschaft, associação derivada da Germanorden, uma sociedade que nasceu nos primeiros anos da década de 1910, fortemente caracterizada por elementos de anti-semitismo e racismo. Ao redor da Thule gravitaram Hitler, Rudolf Hess, Karl Haushofer e Hans Frank, o futuro governador-geral da Polônia.
Rudolf von Sebottendorf.
Thule Gesellschaft.
Era uma associação na qual dominavam a cultura ocultista e as doutrinas secretas amadurecidas nas décadas anteriores. A Thule - a mítica Atlântida, pátria dos hiperbóreos - foi, portanto, a matriz do grupo de intelectuais que está na origem do nazismo. Von Sebottendorff, além disso, publicou um livro em 1933, Antes de Hitler Chegar, no qual, desejando reacender o debate em torno das origens esotéricas do nazismo, conta ter sido o mestre ocultista do Führer. Mas aquele grupo de intelectuais, então já no poder, decidira havia tempo que era conveniente manter ocultos os elementos esotéricos e ocultistas a que fazia referência, para pôr em primeiro plano a organização política. Hitler, no ano da publicação do livro de Von Sebottendorff, já era chanceler do Reich. O ensaio, por isso, foi retirado das livrarias.
PM: Quais são as características fundamentais do grupo esotérico a que Hitler faz referência?
GG: É preciso dizer como premissa que uma das dificuldades quando se trabalha neste campo é o fato de que a historiografia oficial, a historiografia acadêmica, ocupa-se pouco dessas coisas. O trabalho sobre o setor da cultura esotérica é deixado às vezes a estudiosos minoritários ou até a personagens muito extravagantes, que de qualquer forma elaboram freqüentemente pesquisas marginais. O fato de a historiografia oficial não se empenhar nessa direção torna mais difícil o encontro de documentos seguros. Estou convencido de que, se houvesse mais interesse, alguma coisa se encontraria. Mas respondo a sua pergunta. Mencionei civilizações e patrimônios sapienciais antiquíssimos - a Atlântida é a referência mais importante -, um componente cultural baseado na história fantástica, na geografia fantástica, na cosmogonia fantástica e nas leis ocultas que as guiaram. Hitler considera que as razões fundamentais de sua ação política se encontram nesse passado distante, numa sabedoria mágica que deve ser recuperada e na qual está o instrumento para forjar o futuro luminoso. O grupo de intelectuais da Thule, que na década de 1920 decide transformar a seita ocultista em partido político de massas, crê convictamente nessas coisas. Existem, portanto, duas dinâmicas: a profunda convicção dos iniciados que trabalham nesses grupos e, ao mesmo tempo, uma certa influência que eles, por motivações amplamente aprofundadas pelos estudiosos, exercem em alguns momentos históricos sobre os movimentos políticos. Hitler, Himmler, Hess, Rosenberg, Frank: eles se consideram os herdeiros de uma sabedoria antiga que lhes permitirá serem construtores de uma nova civilização.
Heinrich Himmler.
Deve-se dizer que até um historiador muito admirado e “tradicional” identificou e valorizou alguns desses filões esotéricos: foi George Mosse, que, nas Origens Culturais do Terceiro Reich, aponta explicitamente para o esoterista Guido von List e sua simbologia rúnica como um dos pontos de referência de Hitler.
Guido von List.
Das runas estudadas por Von List provém a sigla das SS, as milícias que Himmler utilizará para pôr em prática seus projetos elaborados no âmbito da cultura ocultista.
Hitler Chegou Mais Perto, de Boris Artzybasheff, 1943.
ANNO CXXXV
