Penso que já contei aqui esta minha experiência, mas se não contei, aqui vai.
Comecei a trabalhar em 1980, numa grande fábrica, na altura a maior produtora de cabos elétricos de alta, média e baixa tensão e de telecomunicações, tinha 17 anos.
No início de 1982, houve uma greve dos maquinistas da CP na linha de Cascais.
Não haviam comboios durante uns 3 dias por semana, durante uns 15 dias.
Como morava em Carcavelos e a fábrica ficava nas Portas de Benfica, e eu não tinha carta, tinha de ir de comboio até Algés e depois autocarro.
A CP meteu alternativos (autocarros) e as filas para os apanhar eram tão extensas que tinha que me levantar às 04:00 AM para conseguir lugar.
Na volta, tinha de ir apanhar autocarro no Cais do Sodré pois os autocarros nem paravam em Algés para receber passageiros.
Resultado: Chegava a casa lá para as 21:00.
No entanto, até nutria alguma simpatia pelas causas da greve (o meu pai era metalúrgico e lembrava-me dele fazer greve por melhores condições de trabalho).
Isto levou-me a sindicalizar no SITESE e também fiz as minhas greves, sempre por melhores condições de trabalho, nunca por motivos políticos, nunca fiz uma greve geral, por exemplo.
Ora, eu trabalhava na secção de pessoal (hoje chamada de Direção de Recursos Humanos ou mais pomposamente Direção de Gestão de Pessoas) e era responsável pelo controlo de ponto.
Num belo dia, após uma greve de uns 2 ou 3 dias, peguei no registo de ponto para validar as ausências dos trabalhadores e, qual é o meu espanto, vi que um dos delegados sindicais mais ativista e contestatário (era da UDP), nos dias da greve (não pagos) tinha apresentado justificação como atividade sindical (pagos).
Coerências.
Nesse mesmo dia, deixei de ser sindicalizado e nunca mais fui.
Fui radical demais, até porque ele nem era do meu sindicato? Talvez. Mas não suporto hipocrisias nem gente que faz fogo com os canhões dos outros.