É mais uma evidência de uma aparente nova “configuração” do universo mediático, especificamente do jornalismo desportivo diário:
O Record parece estar, de forma subtil, a tornar-se “mais verde”.
A Bola está a vincar-se num claro fundamentalismo vermelho. Sectário, ordinário e badalhoco.
Esta noção ainda é algo precária - é preciso mais algum tempo para confirmar - mas, a acontecer, está a ser feita de forma subtil de forma a não afastar os clientes existentes de outras cores.
O objectivo, numa perspectiva de gestão, tem a ver com a recuperação de uma franja muito significativa de potenciais compradores, que estavam a ser completamente preteridos, ignorados e até mal tratados, por uma guerra, de anos, entre os dois jornais pela representatividade “oficial” vermelha.
Essa franja não é “azul” porque o Porto não só “tem” o seu jornal (o Jogo), sediado na sua cidade e aceite fielmente pelos adeptos, como, por muito sucesso desportivo que tenha, não tem massa crítica suficiente para “vender” mais do que um diário.
Pelo ambiente comercial existente e sua natureza, a isenção plural também é uma opção inviável e não real.
Essa franja é, por conseguinte, constituída pelos sportinguistas que estavam a ser preteridos e, pior, estavam já para lá de perceber inequivocamente a forma como estavam a ser tratados e, em grande número, e em manifesta rejeição, perdendo-se enquanto clientes.
Não só já não era possível esconder mais, como o Record estava a perder crónica e consecutivamente essa guerra pelos favores vermelhos. Em termos de gestão, não existe nada mais errado do que competir por uma franja de mercado deixando escapar outra, de dimensão superior ao “share” conseguido nessa competição. Acho que o Record percebeu isto e tem vindo a emendar a mão desde que entrou a nova direcção.
Não se pense, com isto, que eventuais mudanças se tornarão evidentes e manifestas a curto prazo, se alguma vez.
A manter esta linha estratégica, ela continuará a ser subtil, condicionada (a cofina tem um interesse demasiado vermelho, para permitir grandes “liberdades”) e de forma a perder o mínimo de clientes existentes, pelo que será também disfarçada. Nem que essa mudança faria aparecer mais um (Jornal Sporting) - na melhor hipótese, continuarão a “dar uma no cravo e outra na ferradura”, em linha com o habitual simulacro de isenção.
O tratamento (aqui em discussão) dado às palavras de Nani - em linha com o conteúdo e o espírito das palavras, por parte do Record e com a adição dum ponto interrogação falso, ínvio, manhoso e de interesse adversário, por parte da Bola - não é o sustendo da minha percepção, mas apenas mais uma pequena evidência, em cima de uma série de outras, dos últimos tempos, no mesmo sentido, no nosso sentido (e, convenhamos, há algo novo nisto).
Mas volto a insistir e sublinhar (para não ser já inundado de ataques epidérmicos):
para já isto é apenas uma percepção, que vai sendo formada em cima de algumas evidentes mas pequenas mudanças e não um dado concreto e definitivo. É uma convicção que pode estar completamente errada!
Merece, no entanto, alguma atenção.
Até porque, a confirmar-se, a sua manutenção passará a depender da adesão do universo sportinguista. E, como sabemos, seria crucial para “termos” um espaço mediático, de grande impacto, filo-sportinguista, passível de corrigir as habituais distorções e entorses informativas a que estamos sujeitos e tanto nos prejudicam, e/ou passível de veicular informação do nosso interesse, um espaço para a “nossa verdade” no ambiente de evidente não isenção geral.
Veremos!
(por motivos óbvios, vou colocar este post, com as devidas adaptações, no tópico “Sporting e a Imprensa”, para ser lá discutido, se for o caso, em tudo o que não tiver a ver com as questões específicas acerca do Nani)