[member=22933]GonçaloC em relação ao álbum em questão estamos de acordo - em quase todos os argumentos - não há que negar, até pela qualidade dos anteriores pré-reabilitação (?), que estamos na presença de um produto algo emaranhado numa enorme dispersão de temas, de ritmos, de estilos, de abordagens silábicas em 19 músicas cujo verdadeiro conteúdo, em inúmeras delas, é mesmo o significado das suas letras e a genuinidade do que retratam. É um álbum que liricamente não é oco, foi simplesmente bastante mal concebido. Há aqui músicas que mereciam outro cuidado, em “Like Home” ele produz, na escrita isto* - um texto estupidamente poderoso - e entrega, oralmente, com um beat terrível, uma métrica incompreensível e o impacto da letra|mensagem foi-se. Tu tens também o “Bad Husband” que em termos de texto nem sei se não é a melhor numa confissão pessoal que não se vê nenhum rapper ter a coragem de abordar.
*
Our spirit’s crushed, and this spot’s a tight one
But here the jaws of life come
To pull us from the wreckage, that’s what we get pride from
When we can’t wear stars and stripes 'cause
This type of pickle that we’re in is hard to deal
But there’s always tomorrow still
If we start from scratch like a scab, get the scars to heal
And band together for Charlottesville
And for Heather, fallen heroes, fill this wall with murals
Nevada get up, hit the damn resetter
Let’s start from zero, this is our renewal
Spray tan, get rid of, get a brand new, better
America, and here’s to where it all
E até mesmo a imaturidade que não se compreende aos 40 anos (?) é compreensível que se utilize como crítica, mas se a sua imaturidade não o permitiu consenso ao longo da sua carreira, questiono que “maturidade” canções de armas|mulheres|droga apresentam quando a generalidade dos grandes nomes do hip-hop as têm aos montes? É a essência do próprio Slim Shady, aliás, a personagem Slim Shady é quiçá o imaturo mais sábio que se recorda, até porque o Em utilizava esse disfarce algo “palerma”|“infantil” para bagunçar temas sociais criticáveis. Ele sempre foi uma voz critica em tom sério, como “White America”|“Like Toy Soldiers” como em tom brincalhão “The Real Slim Shady”|“Without Me”. Eu sinceramente acho que o problema do álbum é o emaranhado que referes e não propriamente a escrita imatura. Não consigo é concordar com isto “Já o Nani Moretti (?) dizia, “as palavras são importantes”, brincar com elas e às rimas é giro mas não é para os verdadeiros artistas, esses brincam com elas mas sabem exactamente o que querem transmitir de único e não têm de se envergonhar com aquilo que dizem só para pôr vocábulos a rimar (e na história do Eminem há disso aos pontapés…).” quando estamos a falar de um dos maiores activistas, de hip-hop, em questões sociais|raciais|mundiais e até económicas desde que surgiu.
Retirar do contexto as suas declarações relativas à utilização de nomes famosos e|ou de artistas e generalizar para todos os temas é um exercício desconexo da realidade. E se é para usar a entrevista à Vulture, importa frisar isto: “Okay, it does depend on the song. People who know my music can tell when I’m joking around and when I’m being honest about a subject.”. Eu percebo o porquê de ele ter tentado agradar a todos os seus fãs, dá-me ideia que será mesmo o seu último álbum e provavelmente quis algo eclético que agradasse a todos aqueles que sempre o adoraram. A questão foi a concepção do mesmo. Ele acabou, quiçá, por não agradar nenhum, em não mais do que uma música. É, ainda assim, enorme.