Entrevista de RA ao DN.
[b]Quem é o seu candidato às eleições do Sporting?[/b]
O candidato que apoio entusiasticamente é José Eduardo Bettencourt. Acho que ele é a grande aquisição do Sporting, se for eleito.
E ele já formalizou o convite para continuar como presidente da Assembleia Geral?
Isso é pouco importante. Creio que poderá acontecer, mas não é uma condição. Fui uma das pessoas que mais incentivaram José Eduardo Bettencourt a abraçar este projecto.
E pode dizer-se que o Sporting vai ter finalmente um presidente que gerirá directamente o futebol e que sabe de futebol?
Indiscutivelmente. José Eduardo Bettencourt é também um grande gestor. Temos aqui uma fusão de qualidades extraordinária, a que se soma a sua grande capacidade para trabalhar em equipa, dirigir equipas, impor objectivos. Creio que é a grande aquisição do Sporting para as próximas quatro épocas.
Falou-se que podia avançar. Chegou a pensar seriamente?
Pensei. Mas optei por não alimentar muita especulação acerca do processo de escolha.
Porque não avançou?
Não avancei por uma questão básica: neste momento, para a minha vida profissional, era um desafio muito, muito difícil de assumir. Porque há uma incompatibilidade de facto, não é uma incompatibilidade jurídica, que nasça da lei, é uma incompatibilidade real. Não posso conciliar uma actividade muito intensa que tenho como advogado com a que teria se fosse presidente do Sporting, porque entendo que para ser presidente tem de ser a full-time… porque o Sporting absorve muita energia.
Pedro Souto chegou a ser uma hipótese também para si?
Uma lista não cai do céu. As pessoas mais preocupadas com o Sporting falam umas com as outras. E desses diálogos resultam cenários. Ponderamos os prós e os contras. E repare, no meu caso, também não tenho pejo nenhum em afirmar que teria de ter mais experiência em determinadas áreas da vida do clube para me abalançar. E uma coisa é ter carisma de liderança e um consenso grande à nossa volta, e eu, imodestamente o digo, creio que tenho esse carisma de liderança e teria muito apoio para ser presidente do Sporting. Porque sinto esse apoio com as pessoas com quem me cruzo na rua. Mas, ponderados os prós e contras, estimulei José Eduardo Bettencourt a aceitar este colossal desafio, mas também este desafio tão aliciante.
O que acha necessário mudar no clube: a gestão, a gestão desportiva, o futebol, as pessoas?
Há algumas coisas que têm de mudar. Esta direcção fez apostas estratégicas que merecem o meu acordo. Em primeiro lugar, a diminuição do passivo para evitar que o clube ficasse estrangulado pela dívida. Um clube que tem 280 milhões de euros de passivo, que tem de pagar o passivo e os juros relativos ao passivo, tem de gerar um cash flow que o Sporting não gera. E o Sporting não pode continuar submetido a um colete-de–forças. O próprio projecto de reestruturação financeira…
Que está para ser aprovado.
E que terá algumas alterações que José Eduardo Bettencourt anunciará em breve para o caso de vir a ser eleito. Não quer dizer que não sofra retoques, como creio que deverá sofrer. Depois, a aposta na formação. A aposta na formação é correcta e o Sporting tem motivos de orgulho na sua formação. Terá de criar condições financeiras para ter mais dinheiro para o futebol. Este projecto liberta mais dinheiro para o futebol. Para que ao lado dos jovens da formação possam ser comprados jogadores mais experientes e mais veteranos.
Tem-nos falado do que está bem. E o que é preciso mudar?
Temos de revitalizar a ligação dos sócios com o clube. O Sporting tem de ter um choque vitamínico a esse nível. Tem de fazer corresponder o número de sócios ao número de adeptos que tem no País.
Quantos sócios tem o Sporting hoje?
Tem cerca de 90 mil sócios.
Aqueles que pagam chegam a 30 mil?
Aqueles que estão em dia serão à volta dos 30 mil. Depois, há uns com ligeiros atrasos, que andarão até aos 50 mil. O Sporting aqui tem de ter um choque vitamínico.
Isso faz-se ganhando jogos.
As boas exibições atraem mais público, mais público valoriza a marca, melhor marca atrai mais patrocínios, mais patrocínios permitem comprar melhores jogadores, melhores jogadores geram melhores jogos de futebol… Acredito muito nesta dinâmica integrada.
E mais dinheiro também permite contratar um melhor treinador, ou Paulo Bento serve para esse projecto do Sporting?
Competirá à SAD e ao clube tomar essa decisão. Tenho muito apreço pelo Paulo Bento e acho que se continuar será um prémio. Creio que o Paulo Bento é um treinador com um enorme futuro à frente, não forçosamente um enorme futuro em termos de grande longevidade no Sporting, pois isso depende de muitos factores. Mas a verdade é que considero o Paulo Bento um treinador muito competente, muito capaz, muito honesto, carismático e que, apoiado devidamente e com condições de trabalho melhores do que aquelas que lhe têm sido dadas, pode ser um treinador para trazer muitos títulos ao Sporting. Aliás, já criou a nossa própria dinâmica de vitória, que ainda não se equipara à do FC Porto.
Mas isso não se viu nos jogos europeus, ou seja, o Sporting foi esmagado sempre que jogou para além de Badajoz.
Às vezes até para aquém.
Mas sobretudo fora. Como é que se ultrapassam essas limitações visíveis no futebol do Sporting? Quando olhamos para o FC Porto, percebemos que é a melhor equipa portuguesa e que também tem dimensão internacional. Olha-se para o Sporting, percebe-se que consegue estar perto do FC Porto na luta interna mas que não tem capacidade para lutar internacionalmente. Isso são só jogadores, não faz falta outro retoque?
Se me pergunta se acho necessário que o Paulo Bento saia, dir-lhe-ei que não. Acredito que fará muito melhor se ficar, como é desejo de muitos sportinguistas. Nos jogos que referiu, a equipa esteve mal - Bayern, Barcelona, Real Madrid. Mas foi um conjunto de circunstâncias que convergiram numa repetição de maus resultados que não volta- rá a acontecer nos anos mais próximos independentemente de quem seja o treinador. Veja o que aconteceu com o próprio Benfica na sua prestação na Taça UEFA. E com a Argentina, que perdeu com a Bolívia (1-6). Não tenho uma explicação. Com uma nova dinâmica essas situações não se repetirão.
A estrutura que se conhece do FC Porto enquanto empresa, no Sporting já existe, ou é preciso mudar a estrutura que rodeia o futebol? O problema é de facto a equipa de futebol?
É preciso dar tempo a que o trabalho que o Sporting tem vindo a fazer ganhe mais consistência e solidez. O FC Porto, hoje, é o produto de anos de trabalho, um trabalho que, no Sporting, se reiniciou após um ciclo doloroso. Não nos esquecemos de que a partir de 1982 estivemos 17 anos sem ganhar um título de campeão. O Sporting fez uma travessia no deserto, e isso faz cercear a dinâmica de vitória.
O FC Porto também esteve 19 anos, e a partir daí já está há vinte e tal sem parar…
E agora iremos, porventura, substituir o FC Porto! Se falamos em ciclos, espero que o próximo seja o do Sporting! E creio que o Sporting tem começado a criar a sua dinâmica de vitória. E, do meu ponto de vista, o que acontece é que o Sporting está a criar uma robustez assente em estabilidade que não pode dar frutos no imediato.
Que se ia perdendo porque o ainda presidente anunciou de surpresa que ia sair.
Naturalmente que isso poderá também ter causado alguma turbulência, quer ao nível directivo quer ao nível desportivo…
Um presidente remunerado no Sporting choca-o?
Não, pelo contrário! O que me choca é um presidente não remunerado. Nós temos de matar esses resquícios do passado e deixar de ter medo de sermos modernos. Aliás, há exemplos em Portugal que o demonstram claramente. Um presidente de um clube, se acumular, nomeadamente, com a presidência do Conselho de Administração da SAD, mas mesmo que o não faça - quero deixar isso claro -, mesmo que o não faça, um presidente de um clube deve ser remunerado. Porque hoje dirigir um clube como o Sporting é uma tarefa muito absorvente, que exige grande disponibilidade pessoal mas também grande competência, grande competência técnica!
E isso paga-se, portanto?
Claro! Sem a mais pequena margem para dúvidas. E espero que, de uma vez por todas, desapareçam do Sporting esses vestígios algo pré-históricos de trabalhar sem ser remunerado.
Pedro Santana Lopes também foi remunerado quando passou pela presidência do Sporting. Não de uma forma directa, mas particular. Essa comparação é boa ou é má, no seu entender, para José Eduardo Bettencourt?
Creio que o dr. Pedro Santana Lopes é passado, nem conheço sequer as circunstâncias concretas pelas quais foi definida uma eventual remuneração. Para mim, as coisas têm de ser claras, directas, e não gosto muito de utilizar a expressão “transparente”, mas aqui até colhe. O presidente do Conselho Directivo do Sporting, o presidente da Administração da SAD do Sporting têm de ganhar dinheiro, têm de ganhar uma remuneração que é assumida…
E tem de ser transparente, está na Bolsa de Valores, tem de se saber o que se ganha e não se ganha.
Exactamente, tem de ser afirmada perante todos, conhecida de todos. Até porque, como diz e muito bem, se submete às regras das sociedades anónimas cotadas. Mas mesmo que o presidente do Conselho Directivo do Sporting não fosse também o presidente do Conselho de Administração da SAD, ainda assim, entenderia que deveria ser remunerado. E devidamente remunerado.
A reestruturação financeira de FSF voltará à baila com Bettencourt. Resta saber com que “retoques”. Ah, e RA fala num passivo de 280 milhões de euros, portanto esqueçam o disparate dos 220 milhões que vinha na CS e que ainda por cima dava o passivo da SAD como sendo superior ao do clube. :