Vejamos…
Colar a ideia que exista uma “cabala” montada para nos arrastar para a armadilha do orgulho e da ambição desmedida, de modo a que ao assumirmo-nos como candidatos fiquemos mais perto da queda, não faz muito sentido.
Não me parece a mim que isso mova quaisquer orientações de quem quer que seja que faça comentário desportivo, pelo menos se nos cingirmos aqueles que mal ou bem cumpram apenas o seu papel e nada mais.
Agora o que não parece desproporcionado é pensar que existe alguma estupefacção geral face aquilo que tem sido a prestação da equipa perante os argumentos à partida apresentados.
A equipa desfez-se de alguns (quase todos) chamados valores seguros do plantel, pagos a peso de ouro, para os substituir por jogadores maioritariamente oriundos da nossa “escola” polvilhados com um ou outro elemento cirúrgicamente escolhido para completar o plantel.
Se tudo isto foi um acaso de sorte, não me parece.
Claro que a sorte, que de resto nós tem acompanhado em geral até aqui, também faz sempre parte do sucesso mas esta procura-se mais com mérito do que por mera conjugação estelar e isso tem sido padrão de funcionamento desde que está nova administração assumiu os desígnios do clube.
B.Carvalho, de quem já ninguém nega capacidade e competência para dirigir este Sporting tem tido na vertente desportiva passos certos e seguros.
Desde logo “redescobrir” Inácio a quem junto Virgílio para estruturar todo o futebol profissional parece-me ter sido uma opção em cheio.
Estes, sem serem necessariamente mestres na arte de orientar equipas, face aquilo que o seu currículo o demonstra,conseguem trazer para o clube algo que se tornou imprescindível.
Conseguirem descobrir ouro no meio do nada.
Na verdade, nem sempre se acerta mas já conseguir ter pelo menos 3 jogadores que têm sido, cada um à sua maneira, fundamentais nos equilibrios e sucesso da equipa condiz com aquilo que se conhece de Inácio quando sempre conseguiu, com sucesso directo para o Sporting, a “sopa” certa com recurso a jogadores surpreendentemente adquiridos.
Já assim o tinha sido em 2000 quando a integração de 3 jogadores a meio da época, quando quase sempre resulta mal, se tornou determinante para vencermos o campeonato, orientados precisamente por Inácio.
Depois, aliciou-se aquele que, não sendo um valor consagrado, alimenta a ideia, desde o inicio da sua carreira, de estarmos perante um dos mais promissores treinadores da nova geração.
Leonardo Jardim, mais do que um “mind-games player”, dada a sua natureza discreta e franca, é sobretudo um rigoroso tacticista.
E esse aspecto acrescenta-lhe uma qualidade que se torna óbvia nas equipas que dirige.
É que estas sobressaíem sempre mais pelo seu jogo colectivo do que pelas jogadas e desempenhos individuais.
Na verdade, a intransigência que ele impõe à quase inexistente alteração dos onzes iniciais, bem notório este fim de semana quando, eu inclusive, se imaginava alterações tácticas com recurso ao deslocamento de jogadores dentro do sector defensivo, torna as equipas de Jardim como verdadeiro relógios constantemente regulados pela táctica imposta por este.
Isso traduz practica de movimentos e assunção individual daquilo que se pretende fazer com cada um dentro da equipa.
Por isso, já não admira que se possa neste momento imaginar qual será o onze à partida que jogará no Porto, isto a 3 semanas do jogo.
Jardim é um mestre do rigor táctico e isso tem sido benéfico e decisivo para acrescentar qualidade ao jogo da equipa.
Há também outro factor que talvez possa ter sido desprezado durante algum tempo mas que constitui, quanto a mim, factor fundamental na matriz de jogo do Sporting.
O Sporting assumiu-se desde sempre como um doutrinador do jogador-tipo do futebol português.
É fácil perceber que ao longo de muitos anos, o Sporting é o principal municiador de jogadores da selecção nacional.
Isso torna o jogador do Sporting num potencial jogador de qualidade, não necessariamente uma estrela ou jogador de classe mundial, mas sempre alguém que envolvido num processo de formação bem orientado torna-se um jogador com potencial para fazer parte de qualquer equipa do nosso campeonato.
Não é à toa que vemos ex-sportinguistas em grandes clubes mundiais, constantemente, mas também em vários dos nossos rivais directos e mesmo em clubes de menor dimensão nacional, quase sempre fundamentais na performance desses mesmos clubes.
Somos um clube com uma profunda enraização na formação de jogadores, o que nos torna um clube com matriz de jogador, tal como um Barcelona ou um Ajax.
E isso, se pode ser um handicap à partida no que se refere à maior inexperiência dos nossos jogadores face à media também os torna mais aptos a assumir um protagonismo precoce no desenvolvimento das equipas principais do Sporting.
E esta filosofia já anteriormente havia sido explorada, como foi referido no texto de Lion73, para depois ser temporariamente abandonada com os nefastos resultados que todos nós assistimos.
Portanto, é importante que alguém volte a reassumir a importância da formação do clube no sucesso da mesma, mesmo que isso necessite de um processo de desenvolvimento prolongado.
Todos aqueles que assumiram administrativamente e tecnicamente funções no clube adoptaram integralmente a ideia e isso quase como um “back to basics” tornou todo o trabalho mais fácil e melhor sucedido no clube.
Resta agora perceber se isso nos transporta para um estatuto de clube ganhador e putativo candidato a vencer alguma coisa.
Julgo perceber que, mais ainda que o mero comentário desportivo, existe uma ânsia natural para que o simples adepto se sinta capaz de se assumir como um forte candidato a bater e vencer todos os nossos adversários sem excepção.
É óbvio e natural que agora nos sintamos capazes de chegar ao Dragão depositando esperanças de trazer de lá um resultado positivo.
E essas esperanças, para além de nos permitir refundar novas expectativas de sucesso final, são legítimas face aquilo que tem sido a prestação desta equipa.
No entanto, julgo que a melhor razão para o nosso presente sucesso assenta essencialmente na conjugação de um rigoroso e disciplinado trabalho de equipa aliado à quase inexistência de factores de perturbação criados por expectativas acima daquelas que à partida possam ter sido criadas e exigidas aos mesmos jogadores.
Este grupo de jogadores, maioritariamente formado por jogadores da nossa “escola” junta a experiência e empenho profissional de alguns com a qualidade ainda que inexperiente de jovens valores.
Mas jovens valores que têm já no seu ADN o estatuto de vencedores, habituados a que foram a ganhar desde muito cedo dentro desta casa, agora moldados, refreados e guiados por um conjunto de profissionais, todos eles imbuídos de um espirito agregador e de enorme espirito de grupo.
Muitos serão os factores que condicionarão o futuro desempenho desportivo do Sporting e nunca é demais lembrar as desiguais armas com que à partida jogamos na comparação com os nossos adversários.
Mas quanto mais percebermos que não corremos atrás de coisa alguma que não seja apenas o orgulho de podermos voltar a ser respeitados e temidos por todos pelo reconhecimento da qualidade do nosso trabalho enquanto clube habituado a fazé-lo, não entenderemos que a nossa vitória estará já, porventura, sido atingida e que tudo o que façamos daqui para a frente só nos engrandecerá ainda mais.
Teremos por isso muito tempo pela frente para sermos assumidamente favoritos a vencer aquilo que disputarmos.
Até lá, desfrutamos apenas do sabor e do prazer de sabermos que somos já campeões, pelo menos para nós próprios sem um pingo de vergonha por esse reconhecimento.