Não tive oportunidade de ler os comentários que se fizeram no fórum sobre o caso Izmailov, mas devo dizer que não acho que haja alguém tão estúpido que acredite em toda esta patranha que se criou em torno da provável saída do jogador russo. Os responsáveis do clube, no entanto, acham que sim. Acham que os sportinguistas são estúpidos ao ponto de engolir a história de que um dos jogadores mais proeminentes do plantel vai ser demitido porque se mostrou indisponível para disputar um jogo.
O que se estará concretamente a passar então?, perguntarão aqueles que ainda não perceberam como se operam as coisas segundo a cartilha desta geração de estupendos gestores que se alaparam ao clube? Proponho desde já uma hipótese mais realista e condizente com a (in)competência a que o dirigismo dos últimos anos nos tem habituado:
Imaginemos que sou um desses (ir)responsáveis do clube que acham que, por terem ido uns domingos ver a bola para o meio da claque quando eram miúdos, por terem um “cheirinho a balneário” e por terem feito currículo no sector profissional da Banca, constituirão uma mais-valia para a gestão do Sporting Clube de Portugal. Depois de meses e meses de asneiradas em catadupa e depois de associar o meu nome a uma das piores épocas da história do clube, quero calar a contestação dos adeptos, devolver-lhes a esperança e mostrar que quero acabar com “esta fase má, que é só uma fase”. Mas como já nem isso consigo ou sei fazer através de uma estratégia de comunicação inteligente e eficaz, meto-me a gastar fortunas em Pongos (aquelas fortunas das quais se dizia que eram a única coisa que separava o Sporting dos seus principais rivais; aquelas cuja falta nos impedia de competir ao mesmo nível dos outros), meto-me a gastar fortunas em Pongos, dizia eu, para mostrar aos adeptos que se está a investir na esquipa e que agora é que isto lá vai. Assim que me apercebo que gastar dinheiro desta forma não é muito diferente de o queimar ou deitar ao lixo, quero mais reavê-lo rapidamente. Se isso implicar a venda de um dos jogadores mais importantes do plantel, que se dane, porque as dívidas aos bancos são para se pagar e esses aí não são nada estúpidos e com eles não se pode andar a brincar, não senhor. Que zunzuns são estes que nos traz o vento desde as estepes russas? O Lokomotiv Moscovo está interessado no Izmailov e até oferece uma boa quantia por ele? Louvado seja S. Mateus da Galileia, santo padroeiro dos banqueiros, que nos acodes neste momento tão difícil! Está o problema resolvido! Ou melhor, está quase resolvido - prometi à turba que se ia investir na construção de um plantel forte, pelo que, se agora despachamos uma das pedras-chave da equipa, aqueles chatos de cachecóis e bandeiras vão começar a dizer que lhes estou a dar com uma mão e a tirar com a outra. Tenho então de arranjar um bom pretexto para despachar o gajo, sem que eu fique mal visto aos olhos dos tansos de cujos votos vou precisar novamente daqui a três anos.
Que zunzuns são estes que nos traz o suão desde Alcochete? O Izmailov mostrou-se indisponível para alinhar num dos jogos mais importantes da época? Hossana nas alturas! Que maravilhosa dádiva da Divina Providência! Já tenho o pretexto de que necessitava para mandar o russo embora e receber o tão desejado carcanhol dos Russos. Agora só preciso de mandar às malvas aquelas tretas sobre a blindagem do balneário e apregoar aos sete ventos qu Izmailov é um homem sem carácter e um mau profissional que se recusa a jogar pelo clube que lhe paga. Os tansos, perdão eleitores, não só compreenderão a saída de Izmailov como até me baterão palmas por ter assumido uma posição de força e ter mostrado a todos que nenhum jogadorzeco brinca com o Sporting Clube de Portugal, olá se brinca! Venham de lá então essas negociações com o Lokomotiv. Estou sentado à mesa com um representante do clube interessado e pergunto-lhe se ele vai pagar os tais 7 milhões de que se falava, em dinheirovski ou em chequovich. “OH OH OH…7 milhione? AH AH AH! OH OH OH! Sr. Presidénte, isso era o que nós oferecíamos antes de saber que o Izmailov é muito mau profissional e antes de saber que ele nunca mais calçava no Sporting. Quer-me parecer que agora o Sporting está mais interessado em vender o jogador do que o Lokomotiv em comprá-lo. Vai ter que baixar um pouquinho o preço do jogador e se não quiser fazer negócio connosco, arranje outro clube disposto a abrir os cordões à bolsa para vocês se verem livre dele!”.
Ai que o filha-da-putovski do Russo deve ter aprendido com o KGB estas tácticas matreiras de negociação e manipulação…Então e quanto é que o Lokomotiv oferece pelo Izmailov, nesse caso? “Oferecemos um ponta-de-lança brasileiro de seu nome Saci Pererê com UM pé esquerdo fabuloso. Oferecemos ainda a nossa colaboração para o Sporting abrir uma Academia-satélite nas Ilhas Aleutas e…deixa cá ver que mais…Ah! Este voucher para um exame gratuito à próstata na Clínica do Capitão Gancho. É pegar ou largar!”. Pego. Depois de tantas asneiras seguidas, estou tão confuso que a única coisa que sei é que ter o Saci Pererê, ter uma Academia nas Ilhas Aleutas e fazer um exame à próstata na Clínica do Capitão Gancho é melhor do que não ter o Saci Pererê, não ter uma Academia nas Ilhas Alentas e não ser sondado pelo Capitão Gancho.
É tão difícil a vida de gestor. Depois admiram-se de ficarmos com os cabelos brancos muito cedo. O que vale é que ganho quase tanto como o Abel.
