A propósito da influência de grandes blocos e instituições internacionais, deixo aqui uma reflexão sobre como o braço-de-ferro entre a UEFA e os clubes espelha muito do que discutimos na política mundial:
A Liga Europeia: Uma ameaça direta ao poder e às receitas da UEFA
A criação de uma liga europeia organizada por divisões representa a maior ameaça existencial à UEFA. Atualmente, a instituição funciona como um bloco centralizador: controla o calendário, as competições, as receitas televisivas e a distribuição financeira, concentrando um poder que condiciona todo o futebol europeu.
Uma liga estruturada e governada diretamente pelos clubes retiraria à UEFA o seu principal ativo — a Liga dos Campeões — e, com ele, uma parte significativa do poder acumulado ao longo das décadas. A Champions deixaria de ser o “produto premium” para passar a ser apenas mais uma competição entre outras.
O impacto político seria igualmente profundo. A força da UEFA assenta no apoio das federações pequenas e médias, que lhe garantem uma maioria permanente nos processos de decisão e mantêm o atual equilíbrio de poder institucional. Uma liga europeia com divisões criaria novas fontes de receita, reduziria a dependência dos clubes em relação às federações e enfraqueceria essa estrutura de poder.
Ao mesmo tempo, exporia a irrelevância económica de muitas ligas nacionais, que sobrevivem sobretudo porque os principais clubes não dispõem de uma alternativa competitiva superior. A oposição feroz da UEFA revela esse receio: a instituição bloqueia qualquer alternativa sem nunca apresentar um modelo que permita aos clubes de países mais pequenos competir em igualdade com as ligas mais ricas. No fundo, esta é uma luta pela própria razão da sua existência.
Transformarem o futebol num desporto como o basket é ridículo.
O dinheiro até pode ser maior concentrado naquele produto, mas a destruição do desporto em todos os países com o afastamento dos melhores clubes das competições nacionais vai fazer com que o futebol perca importância.
O afunilamento de quem pode ser campeão europeu não é de agora com a ideia de uma superliga europeia. Actualmente e se formos práticos a Champions League está reservada apenas a alguns clubes: Real Madrid, Barcelona, PSG, Bayern e os 5 mais ricos de Inglaterra (Man Utd, Liverpool, Chelsea, Arsenal e Man City) tudo o resto são figurantes, uns com maior relevo e outros com menos. O facto do Inter ter chegado a duas finais da Champions nos últimos anos já é um bom milagre porque são vendedores para todos estes clubes que mencionei.
Quando é que se voltará a ver um Steaua Bucareste, Estrela Vermelha, Porto, Benfica, Marselha, PSV, Ajax, Feyenoord, Celtic, etc a vencer ou a poder disputar de igual para igual o troféu de campeão europeu? Nunca.
Compreendo perfeitamente o seu ponto sobre a ‘americanização’ do futebol e o risco para as ligas nacionais, mas a questão que coloco é: as ligas nacionais já não estão a ser destruídas pelo atual modelo da UEFA?
O meu argumento é que a UEFA mantém um monopólio que beneficia apenas os mesmos de sempre. No modelo atual, o Sporting terá cada vez mais dificuldade em competir com o poderio financeiro da Premier League ou dos clubes-estado. O debate aqui não é sobre transformar isto em basquetebol, mas sim sobre quem deve controlar o futuro: os clubes que investem e correm riscos, ou uma instituição que apenas gere o dinheiro alheio e bloqueia qualquer evolução que ameace o seu poder.
Fico satisfeito por concordar nesse ponto. No fundo, a UEFA já criou uma ‘Superliga’ de facto, onde o mérito desportivo é asfixiado pelo poder do dinheiro. O meu ponto é que, enquanto os clubes não tomarem as rédeas e continuarmos dependentes desta estrutura da UEFA, clubes como o Sporting estarão sempre condenados a ser o ‘prato principal’ do banquete dos gigantes, em vez de estarem sentados à mesa com eles.
Esse assobio ao hino é a prova de que a nossa massa associativa não se deixa deslumbrar pelo ‘show’ quando sabe que as regras do jogo estão viciadas contra nós. Gostamos de lá estar porque o Sporting é grande, mas não temos de agradecer a quem nos tenta transformar em figurantes. Kudos para quem mantém essa consciência crítica!
No campeonato nacional, o Sporting só tem 4 jogos a sério por época — Benfica e Porto, em casa e fora. Viver 360 minutos de futebol competitivo de alto nível é manifestamente pouco para as nossas ambições. Como podemos exigir sucesso na Champions se 90% do nosso calendário não nos prepara para essa intensidade?
os premios da uefa na parte da liga dos campeões tem que aumentar porque 2 milhoes e qualquer coisa por vitoria não é nada para aquilo que a UEFA fatura
O problema não é se a UEFA paga 2 ou 3 milhões por vitória. O problema de fundo é que o Sporting está refém de um campeonato que comercialmente não vale nada.
Tirando os jogos com o Benfica e o Porto, o retorno que o Sporting tira do campeonato nacional é residual. Estamos a gastar recursos, a desgastar jogadores e a arriscar lesões para jogar num contexto que não nos dá visibilidade nem receitas que permitam dar o salto definitivo.
A solução para o Sporting não passa por esperar que a UEFA seja mais generosa nas ‘migalhas’ por jogo. Passa por jogar exclusivamente numa Liga dos Campeões — ou numa Superliga de elite — com os melhores clubes do planeta, todas as semanas. Só num ecossistema de elite mundial é que o Sporting consegue faturar o que o nosso plantel e a nossa estrutura hoje exigem. Manter este nível para depois ir jogar a campos onde nem o relvado está em condições é queimar dinheiro e ambição.