Um postal do mundo moderno

Isto recorda-me um episódio onde fui interveniente. Na saída do comboio, vi à minha frente uma mulher que dava passos com dificuldade, muito pálida - quase branca - que parecia procurar algo onde apoiar: Encostou-se a uma escadas que estavam ali, e sentou-se no chão. Estava gravidíssima. Desviei-me,e apercebi-me que tinha desmaiado. A estação estava apinhada de gente, e ninguém parou, ou sequer se preocupou. Fui ter com ela, e ela despertava e desmaiava de seguida. Dei-lhe água, chamei o 112. E aproximou-se um segurança. Só depois, se juntaram duas velhotas. Estive 20 minutos até chegar o INEM, e nesse espaço, apenas 3 pessoas se preocuparam. É assim que o mundo vai.

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[size=14pt]Agressão no metro de Roma choca italianos[/size]

Uma mulher ficou em coma depois de ser violentamente empurrada numa estação de metro perante a indiferença de quem estava na plataforma. A notícia está a chocar a Itália

Tudo começou na fila para comprar bilhete: uma troca de palavras amargas e de olhares ameaçadores entre um jovem de 20 anos e uma romena de 32, na estação de Anagnina em Roma, terminou da pior maneira. Quando já se dirigiam para o metro, a enfermeira romena aproximou-se do rapaz para pedir “justificações”, mas o jovem não gostou e a reacção foi a mais violenta possível. As imagens gravadas pelas câmaras de videovigilância mostram a vítima a aproximar-se do jovem, que já ia uns passos mais à frente. O jovem, num primeiro momento, empurra a senhora e logo em seguida agride-a com um murro na cara. A enfermeira cai desamparada, aparentemente, já sem consciência e bate com a cabeça directamente no chão. Apesar da queda aparatosa, o agressor ignora e continua a andar. A reacção de indiferença foi partilhada por todas as pessoas no local. Ninguém se prontificou a socorrer a vítima, que foi, algum tempo depois, transportada de urgência para o Hospital Policlínico de Casilino. O jornal italiano “La Stampa” informa que a vítima de nacionalidade romena foi sujeita a uma intervenção cirúrgica de urgência, mas encontra-se ainda em coma, devido a um “grave traumatismo craniano”.

O acidente ocorreu esta manhã, mas só algum tempo depois a polícia chegou ao local e depois de ouvir algumas testemunhas prendeu o agressor. A atitude de indiferença por parte das pessoas que presenciaram o acidente está a causar polémica na cidade. Gianni Alemanno, presidente da Câmara de Roma já se manifestou e garantiu que depois de ver as imagens vai tomar uma atitude: “Quero ver o vídeo e se o que me contaram for verdade, vou apresentar uma queixa à Justiça por negligencia contra agressão a desconhecido”. O autarca está insatisfeito com a atitude dos romanos e sublinha: “É inaceitável que numa cidade como Roma aconteçam este tipo de coisas, as pessoas não podem ficar indiferentes a episódios violentos deste género.”

http://www.ionline.pt/conteudo/82916-agressao-no-metro-roma-choca-italianos—video-

O que eu vejo é o rapaz(?) a andar descansado e ela(?) ir lá ter com ele e parece-me a mim que chega mesmo a agredi-lo primeiramente…

Tristeza. Hoje assiste-se de facto a uma falta de solidariedade e de interesse pelos outros que choca. Fizeste bem em sublinhar que a mulher agredida é romena porque muito provavelmente se fosse italiana esta cena não se teria passado. É a propaganda berlusconiana e xenófoba a funcionar e a chegar às massas, que a absorvem cega e acriticamente.

A sociedade está infestada de cobardes. Esse episódio, lamentável e indicador da cobardia que anda por esse mundo fora, faz-me lembrar um outro que se passou no metro, onde um atrasado mental decidiu agredir uma rapariga indefesa. Enquanto tal acontecia, um “rapaz” assistia.

Já presenciei dois acontecimentos similares: 1) um rapazito a ser abordado por um bando de delinquentes; 2) um idoso a ser estranhamente perturbado por um, parecia-me, sem-abrigo de intenções dúbias.

Intervim em ambos. Quem não ajuda, ou tenta ajudar, devia ter vergonha na cara.

Não me parece que a moça tenha ficado só. Em dois minutos havia várias pessoas de volta dela e certamente alguém chamou ua ambulância, digo eu. Não vale a pena estar uma multidão a ver uma moça desmaiada, desde que não esteja sozinha e se tenha chamado ajuda…

A culpa é da sociedade, não interessa se está sob controlo de um governo de Direita ou de Esquerda. A Linha de Sintra (comboio) presencia casos similares todos os dias.

O que acontece nestes casos é que a responsabilidade é dividida por todos, ou seja, fica toda a gente à espera que outro actue, ou então pensa que não vale a pena preocupar-se pois alguém há-de lá ir ajudar. O caso mais chocante até hoje foi o da Kitty Genoveese, que andou durante meia-hora, se não me engano, a fugir de um ladrão que a queria roubar e posteriormente assassinar, com várias pessoas a assistir às janelas das suas casa sem sequer chamar a polícia. A rapariga acabou por morrer…

É verdade que a generalidade dos italianos é bastante xenófoba, mas as mulher estava inconsciente… Como é que eles adivinhavam que ela era romena?

Andas atento nas aulas de Psicologia, não é caro Tiga? :mrgreen:

Em relação ao tema, é muito mais complexo do que aquilo que pode parecer à primeira vista. Normalmente, neste género de situações, fazemos uma avaliação custo-benefício. Tentamos perceber internamente quais os ganhos que podem surgir de uma intervenção e qual o custo da mesma e, então, se o custo for superior ao benefício não se age. O problema é que a vida humana está de tal forma banalizada que o custo de intervir é sentido como inferior ao de não fazer nada.

E na minha opinião - friso, subjectiva - um dos principais responsáveis por este fenómeno é a alienação das grandes cidades. Em zonas rurais existe muito maior entreajuda e capacidade para responder em situações de crise como esta. Nas grandes cidades, fruto da contínua exposição a pessoas e situações sem qualquer tipo de carga afectiva, acabamos por observar os outros seres humanos com muito maior distância e frieza. Não falamos com os vizinhos, cruzamo-nos todos os dias com pessoas que não conhecemos nem queremos conhecer e, esta distância eu-outro, acaba por propiciar este tipo de situações.

Claro que existem outros factores intervenientes na situação, mas será impossível analisar todos.

Também não me parece que a indiferença generalizada que se verifica no vídeo se deva ao facto de ser romena, neste caso. Não que negue, nem por sombras, que ter um presidente daqueles nada ajuda a que a sociedade italiana seja mais tolerante para com os estrangeiros a residir no país, mas neste caso acho que se trata mesmo do que se passa actualmente e globalmente. Um mundo em que a solidariedade é zero, o interesse pelos problemas alheios é nulo, a pressão, o stress e a pressa são enormes e nem sequer se repara em quem pode precisar da nossa ajuda, como é o caso.

Lamentável.

Os italianos são um povo com profundas escolhas ideológicas. Quase não existe pessoal, digamos, do Centro. É tudo Direita, ou Esquerda. Vê-se no futebol, onde as claques são movimentos claramente transmissores de determinada ideologia.

A prova disso é que as coligações de Direita envolvem partidos abertamente xenófobos, enquanto que as da Esquerda envolvem partidos comunistas, etc. E não se deve esquecer o número de partidos que compõem tais coligações.

Não sei se já contei neste espaço, mas acho que nunca é de mais.

Tal como alguns sabem (basta recordar o tópico dos dois leões fragilizados e/ou o relativo ao tabagismo, ambos abertos por mim) passei uma situação bastante complicada com o meu avô.

Muito resumidamente, era diabético, lutava contra o tumor da próstata, mas não resistiu numa luta contra um tumor nos pulmões.

Ainda a doença estava numa fase inicial (e pouco sabíamos, pois os próprios médicos demoraram a descobrir) quando tive que ir com ele ao banco. Como era muito perto, fomos os dois a pé, o que era costume, mas quando estávamos a chegar ao destino, ele começa a sentir-se cansado de uma forma algo estranha, mas não o suficiente para pensar que algo aconteceria.

Quando regressámos a casa, parámos num banco de jardim para descansar um pouco (o esforço não era muito, mas perante aquilo decidimos parar aos poucos) e ele, já bem, decidiu voltar a caminhar. Até aqui tudo bem.

Até que de repente ele começa a coxear e a ter a necessidade de se apoiar em mim. E depois vem um susto que nunca mais esquecerei: ele estava a andar à minha frente, todo descaído para trás, apenas aguentando-se em pé por estar totalmente apoiado em mim.

Vi logo que algo não estava mesmo nada bem e tive a certeza quando o ouvi dizer que não estava a conseguir andar porque eu não o deixava e só estava a agarrar…

Apesar de estar muito perto, decidi parar e percebi que ele cada vez estava mais violento e totalmente fora de si, não conseguindo ter qualquer controlo no seu corpo. Só que por estupidez, esqueci-me do meu telemóvel em casa e percebi que ele também não havia levado.

Ele era um homem alto (bem mais do que eu) e fisicamente era forte, mas tornou-se uma tarefa herculana tentar aguentá-lo quando a tudo isso juntava um total descontrolo. Nem sequer sentá-lo no chão, eu conseguia e as forças começavam a esgotar.

Não houve UMA única pessoa que viesse ajudar-me ou que ligasse ao 112 como eu tanto pedia. Muitas pessoas passavam e olhavam, davam-se ao luxo de abrandar a merda dos carros para observar, mas NINGUÉM ajudou. E o engraçado é que a menos de 100 metros do local, temos a estação da policia.

Perante tudo isto, decidi gastar as minhas últimas forças e pegá-lo ao colo (ao mesmo tempo que o abraçava de modo a suster os braços dele) e avançar uns quantos metros, onde estava uma velhota. Perguntei se tinha telemóvel, ao qual respondeu que sim, tendo logo ligado para o 112.

Do INEM não tenho uma palavra contra, bem pelo contrário. Em menos de 5 minutos estavam ao pé de mim e percebendo a situação, lidaram com a mesma de uma forma exemplar.

Na altura, depois da forte preocupação em ajudar o meu avô, a minha maior vontade era poder sair da situação e ir ter perante todos aqueles que passaram por nós…

eu nao sei o que originou a situaçao mas o que dá para entender do video é que ela agride o rapaz 2vezes antes de ele reagir, sobre as pessoas ajudarem é verdade que ela teve 30 seg sem que ninguem fosse ajudar mas alem de nimguem se ter apercebido do ocorrido durante esse tempo practicamente nao passou ninguem.

acho que o divulgarem que ela é romena é ridiculo pq ninguem ia adivinhar isso com ela no chao, infelizmente situaçºoes de assaltos em que as pessoas nao se ajudam é recorrente.

Foi das minhas primeiras aulas naquela faculdade, e das poucas de que me lembro :mrgreen:

É a anomia.

A sociedade, da maneira que está estruturada, tende a romper os valores afectivos do ser humano, incutindo-lhe, por outro lado, um distanciamento e uma frieza violentas para com o próximo.

A vida citadina baseia-se no anonimato, mas, em simultâneo, na competição, na azáfama e no stress. É a selva de cimento; é a pura atitude animalesca, numa era em que nos julgamos extremamente evoluídos por termos uma TV HD e um Ipod.

O indivíduo caminha no sentido da sua auto-destruição, mas caminha da mais perigosa forma: a silenciosa… Não possuímos uma consciência colectiva daquilo que nos está a suceder, e vamos ocultando - de forma não deliberada - essa situação.

Antes isso do que um centrão descolorido, carente de ideologias e soluções. Ao contrário do que disse Cavaco Silva no discurso do Centenário da República, nos dias de hoje precisamos de debate político; e esse debate deverá ser rico e diverso, e não monocórdico e vácuo.

Mas, pronto, o tópico não é sobre ideologia político-partidária.

Já tive de pedir o telemóvel a estranhos. Felizmente, não me negaram tal pedido. Uma vez, na IC 19, ia com uns amigos meus. O carro de um dos amigos parou, pura e simplesmente. Saímos do carro. Epá, devem ter passado uns 200 carros. Desses 200, 2 ou 3 falaram connosco. Um dizia para o condutor colocar o colete. Outro carro parou e perguntou se precisávamos de alguma coisa. Entretanto, até chegar ajuda, passaram 2 horas.

O nojento é reparar na cara de gozo de determinadas pessoas. É triste, mas tal acontece muitas vezes.

Os acontecimentos mais estranhos a que assisti, e relacionados com a situação que o paraver demonstrou, já os expliquei. Também já passei por pequenas situações onde pessoas precisavam de ajuda. No metro, para ajudar velhotes que não percebem os mecanismos das bilheteiras. Ajudar a ocasional velhota a subir o degrau do metro. Dar o lugar, etc.

Schism, de facto, é nos opostos que se produz o debate mais intenso, mais variado. O problema é que, no caso italiano, juntar demasiadas forças políticas numa só conclui-se no típico caso italiano: demasiada divergência, pouco governo. E são sempre os extremos, seja Direita ou Esquerda, a levar o debate para o indefensável. O Berlusconi, por outro lado, passa bem com tais situações porque ele é um confesso admirador de Mussolini, além de ser um bronco de 1ª, corrupto todos os dias, e incompetente.

E isso é justificação para que ele a agrida a ela? :o

Quando disse isso estava a referir-me apenas ao rapaz que a agrediu e não às outras pessoas, que de facto dificilmente saberiam que a mulher era romena. Quanto a essas não se pode dizer que tenha sido racismo mas sim pura cobardia, como alguém já referiu acima.

De certeza que tens 27 anos? É óbvio que a culpa nesta situação concreta não é do Berlusconi (muito menos do Bush e dessas organizações que referes e que eu não sei como é que foram para aqui chamadas…), mas não é menos óbvio que a política por ele seguida em Itália tem traços xenófobos e tem infelizmente muitos apoiantes, reflectindo-se nos comportamentos sociais de que este caso é, muito provavelmente, exemplo.

Não tendo estudado Psicologia, é um tema que me interessa e há uns tempos li num livro um texto sobre precisamente este tema. E, de facto, chega-se à conclusão que este fenómeno nada tem a ver com cor da pele, sexo, idade ou posição social. O factor que mais influência tem é o número de pessoas presentes: quanto mais pessoas, menor a responsabilidade que cada uma sente e menos provável é que alguem aja.