Não tenho muito tempo para escrever, mas gostaria de dizer o seguinte.
Relativamente à comparação entre os países, o rácio [n° de acidentes/n° de kms percorridos] ou [n° de acidentes/(n°pessoas transportadas X kms percorridos)] é muito mais pertinente que [n° de acidentes/população]. Este último oculta dois dados importantes : a mobilidade dos habitantes (e particularmente a mobilidade automóvel) que é muito mais importante em países germânicos, por exemplo, que em Portugal (não necessariamente em proporção, sobre esses dados não sei de nada) ; os factores geográficos, sendo de enorme importância o tipo de espaço em que se insere a maior parte desta mobilidade (âmbito urbano, suburbano, periurbano, rural). A acidentologia em zonas rurais costuma ser mais grave (maior, creio que não, mas vou tentar confirmar amanhã se tiver tempo) que em meio urbano. Portugal é dos países menos urbanizados da Europa - 65% de população urbana - média UE 75%) e este dado é um factor (não é exclusivo) agravante que explica a comparação que fizeste, António, entre Alemanha e Portugal.
Os rácios que tomam em conta o número de kms percorridos mostram outra imagem : como os kms percorridos em Portugal são muito menos que na Alemanha (mobilidade mais baixa, país muito mais pequeno e de densidade populacional mais baixa, mas também a idade média dos automóveis em circulação), o valor da divisão aumenta mecanicamente : em 1999, Portugal era o segundo país da Europa com os piores dados. Não encontro dados mais recentes, mas ao ler esta página (em francês, peço desculpa para quem queria ler e não percebe a língua de Molière), a evolução, não da conjuntura, mas sim global, desde os anos 90, não é das melhores em Portugal.
PS : entretanto, enquanto procurava mais dados, dei com este relatório - peço imensa desculpa, ainda é em francês - que utiliza (última página) o rácio n° vítimas/população total em 2004, e mesmo com este método (população global) Portugal aparece na cauda, apenas ultrapassado pela Bélgica (na mesma página, explicam que quanto mais elevada é a densidade populacional, menores são os riscos - esquecem-se de explicar então a posição da Bélgica).
(Uma nota curiosa : cada vez que estou em Portugal, é uma alegria atravessar uma rua urbana e saber que o carro que aí vem vai parar para me deixar passar. Se soubessem como é complicado fazer isto em França : aqui, o carro é mais potente que o peão, e portanto passa-lhe por cima se for preciso. A mentalidade portuguesa não é assim tão má.)