O Bessone é um fabricante de cachecóis desportivos e em simultâneo, um indefectível fanático do Sporting. O ideal, seria vender apenas cachecóis ao seu clube do coração, mas como todos devem perceber, isso não passa de mera utopia, pois no mundo dos negócios, temos de contar com tudo e todos, senão, não sobrevivemos. Conta o Bessone entre dois copos bem bebidos, que a sua deslocação a Alvalade para negociar, é no mínimo… peculiar. Enquanto no Dragão, o negócio é feito com o máximo rigor e profissionalismo e na cesta do pão, acabam por chegar sempre a um entendimento, quando chega a casa do seu clube do coração, tudo é confuso e nebuloso. Após apresentar a sua proposta e o seu melhor preço, depara-se com um lacónico «Não sei… vamos pensar e depois entramos em contacto consigo». Passadas algumas semanas e na ausência de qualquer resposta, decide telefonar para o Sporting com o intuito de saber se efectivamente há ou não interesse na compra dos cachecóis. Do outro lado da linha, um responsável do clube retorque assim: «Ah, pois, sabe… já mandámos fazer a um outro fabricante». Dias mais tarde, Bessone descobre que o referido fabricante é familiar de um dos elementos da Direcção do clube e que os cachecóis acabaram por ficar… 20% mais caros.[/size]
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Não é preciso ser um guru em dirigismo desportivo para perceber que o problema do clube não reside nos treinadores que têm sucessivamente ardido na fogueira de Alvalade. Parafraseando um político conhecido da nossa praça e que por acaso até faz parte do actual (des)Governo da República Portuguesa, se me perguntarem se eu acho que Bentos, Carvalhais, Sérgios e afins, têm qualidade para treinar o Sporting, eu direi que «Não»; se me perguntarem se eles deviam ter continuado a treinar o Sporting, eu direi que «Não»; se me perguntarem se eles estão isentos de responsabilidade, relativamente a esta senda de insucessos desportivos ao longo dos anos, eu direi que «Sim». Uma Direcção de um clube deve ter um projecto bem delineado, um rumo traçado e uma política desportiva sólida e coerente. Deve saber o que quer, de onde vem e para onde vai, sendo o treinador nada mais que uma peça de toda essa engrenagem estrutural, ou seja, deve fazer parte integrante da máquina e não estar à margem dela. Quando a Direcção constata que a escolha que se pretendia bem sucedida e afinal acabou por não o ser, deve o treinador ser substituído por outro que reúna as condições previamente delineadas – penso que até aqui, todos estamos de acordo. O problema começa a surgir quando não é só o primeiro treinador escolhido que não serve, mas também um segundo, um terceiro, um quarto e por aí fora. Tal como na informática, na electrónica, na mecânica, etc., quando a substituição de um componente ou peça que supostamente está a provocar uma determinada avaria não resolve o problema, a solução não será obviamente continuar a trocar o mesmo componente, mas sim começar por chegar à conclusão que afinal, o problema não estará (apenas) nesse componente. Do mesmo modo, em pouco menos de 16 meses, a Direcção de Godinho Lopes, vai contratar o seu terceiro treinador, deixando bem claro para todos os que ainda têm pelo menos 2 neurónios no cérebro, que o problema vem da estrutura directiva e não (apenas) dos treinadores.
Tal como todas as Direcções da continuidade, esta Direcção de Godinho Lopes não tem rumo. Ao invés, limita-se a navegar à vista, tomando as medidas que julga serem as mais adequadas no momento, mas recusando-se a cortar com interesses, privilégios, favores e má gestão, mostrando em simultâneo aquilo para o que vêm: governar para a Banca e para os interesses instalados, deixando a política desportiva, o clube e seus associados para terceiro plano. Há, contudo, uma curiosidade que já muita gente deve ter percepcionado e que une transversalmente todas as Direcções da «continuidade» que infelizmente têm estado à frente dos destinos do Sporting e que é o isolamento a que votam todos os treinadores que contratam. Desde Paulo Bento a Sá Pinto, passando por Carvalhal, Paulo Sérgio e Domingos, a tónica tem sido invariavelmente a mesma: abandonar o treinador às consequências de um jogo menos bem jogado, de uma má exibição, ou de uma derrota inapelável, deixando-o arder lentamente em lume brando, lume esse onde as Direcções não podem sequer se queimar, não vá isso pôr em causa a preciosa «continuidade».
Entretanto e pelos vistos, o problema do Sporting não é seguramente dinheiro. Gostaria de perguntar a José Maria Ricciardi - que já num passado recente teceu críticas à forma como o dinheiro é gasto em contratações e que, sofismas à parte, é a personalidade que condiciona a política do clube, tal como a troika condiciona a forma como o país é (des)governado - o que é que ele acha das pazadas de jogadores contratados para esta época, numa política desportiva sem rei nem roque e que visa única e exclusivamente favorecer as amizades e os compadrios. Que acha ele afinal, deste desvario financeiro protagonizado pela «sua» Direcção? No ano passado, foi dada aqui neste fórum a receita correcta com vista ao reforço do plantel de forma sustentada: investir o dinheiro na contratação de 6 ou 7 jogadores de valor inquestionável e que trouxessem mais-valia à equipa. Ao invés, optou-se por jogadores (a maioria a custo zero) que apenas trouxeram dividendos a quem meteu dinheiro de luvas ao bolso.
No momento em que estou a escrever esta crónica, está já o tal terceiro treinador na liça, mas só com muita ingenuidade alguém pode esperar que um qualquer treinador, por muito conceituado que seja, venha para o Sporting tentar resolver um problema que não está no balneário e muito menos no relvado, mas sim em quem apenas defende os interesses daqueles que paulatinamente nos estão a conduzir para a destruição. Já há muito que deixámos de lutar pelo título para passarmos a lutar pela Champions. Actualmente, já só lutamos pela Liga Europa e muito em breve, passaremos a lutar pela permanência na 1ª Divisão. Sinto-me bastante triste e revoltado com a situação a que o clube chegou, mas ao mesmo tempo, de consciência tranquila de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para evitar que o Sporting chegasse até aqui. Por enquanto, o futuro do clube ainda pertence aos sócios, cabendo a eles dar definitivamente o murro na mesa, de modo a romper de uma vez por todas com este estado de coisas. Até lá, vamos agoniando… lentamente.