O fatum leonino

Porque esta é a nossa sina…
Porque a nossa sina é esta…
Transformaram-se anos de glória
Em nevoeiro de longínqua festa.

Sporting Clube de Portugal.

E de Portugal mais não poderia ser. Arrastando-se pelo penoso beco da amargada Lisboa, este Sporting poderia marcar presença em qualquer verso de um qualquer fado bradado às portas do Tejo.


Parece haver no sportinguista uma procura pelo etéreo, por aquilo que não é terreno, como se essa identidade mística procurada fosse, de facto, uma identidade real, que nos condena pelos pecados. Esta busca é facilmente desencadeada, bastando para isso acontecer um episódio inesperado e com doses de tragédia. Não surpreende, portanto, que logo após o tumulto entre Sá Pinto e Liedson, tenha ouvido vários sportinguistas [neste espaço, e não só] a dizerem que em Alvalade é mesmo assim… Não temos sorte, estamos irremediavelmente condenados a um Apocalipse inadiável, e todos os momentos de paz, são somente pedaços fugazes que o destino nos proporciona, como se ele nos desse um pequeno rebuçado em troca de um sofrimento incessante.

É a bola que bate na trave, é o guardião contrário que defende o impossível, é o árbitro que não vê um penalty que todo o país viu, é o tufo de relva que desencadeia uma discussão ímpar, são as lesões cruciais, os hat-tricks sofridos por jogadores desconhecidos, é o passivo que não pára de aumentar, assim como a desvantagem para o primeiro lugar, é o regresso a Portugal de jogadores formados pelo Sporting para ingressarem com sucesso nos rivais, é o fosso em vez da pista de atletismo… É a descrença, é a desilusão, é o verde retumbante que vira acinzentando, são as cadeiras que ficam abandonadas ao vento, tão gélido quanto os assobios perpetuados, quais fantasmas, em mais uma exibição triste e descolorida do Sporting.

Tudo isto tem uma explicação simples, medieval e pouco racional:
O destino, o fatum, a crueldade de um epicurismo torpe, um fatalismo incoerente, uma responsabilidade que cai na pedra da calçada, qual lágrima vertida depois de sabermos que o velhinho Alvalade já lá não está. Tudo o que acontece deve-se a um nada que é tudo, e é neste ciclo vicioso que o Sporting vive actualmente. Ninguém sabe ao certo o porquê da bola não entrar, o porquê do árbitro falsear sempre contra nós, o porquê do fosso, o porquê da dívida crescer e a distância para ser campeão também ela aumentar.
A responsabilidade, ela, cai na rua, desamparada. Ela é um farrapo desmedido e poeirento que não cabe no tronco de ninguém, e mesmo que servisse, ninguém a usaria.

O destino inexorável e normativo condena; e o sportinguista, indivíduo propício à calamidade por ter nascido leão, acata.
Mas não estará toda esta falta de procura pela resposta, esta falta de indagação, de procurar o porquê de tudo isto acontecer, associada a esse mesmo corropio de casos, ‘casóides’ e mala suerte?

O superficial não chega, a desculpa mitológica não é suficiente.
Enquanto o farrapo não cobrir as costas devidas (sejam elas feitas de uma boa coluna vertebral ou não), então Thor, Zeus, Júpiter, ou outra identidade cuja existência temos tanta certezas como aquelas que temos em relação a todas estas pasquinadas, lançarão trovões intermináveis…

Se a sorte se procura, o azar afasta-se. Em Alvalade, este último parece bater mais vezes à porta.

Já dizia Timothy Leary:
[i]Think for yourself. Question authority.
Throughout human history, as our species has faced the frightening, terrorizing fact that we do not know who we are, or where we are going in this ocean of chaos, it has been the authorities, the political, the religious, the educational authorities who attempted to comfort us by giving us order, rules, regulations, informing, forming in our minds their view of reality. To think for yourself you must question authority and learn how to put yourself in a state of vulnerable, open-mindedness; chaotic, confused, vulnerability to inform yourself."

©Schism
2010

Excelente Schism, estavas inspirado. :great:

:clap: :clap:

Parabéns Schism. Por momentos pensei estar a ler Camões. Mas que triste fado nos descreveste.

Mas, na minha modesta opinião o que falta ao SCP é uma presidência "mafiosa"´que manobre bem arbitragens e comunicação social, que tenha amigos bem colocados, enfim que seja membro de uma “familia”.

Acho que só agora reparei nisto… muito bom, Schism. :clap: :great:

Touchdown companheiro! :great:

É isso, no fundo e para mim é mesmo isso.

:clap: :clap: :clap:

Excelente texto, Schism.

Existe uma luta contra o fado, contra o destino que nos está traçado.

As contingências que o nosso Portugal, o do Sporting, nos oferece são sempre dramáticas. Da vitória em Alkmaar à recente luta entre o leão e o gladiador, tudo parece obedecer a uma lógica sem sentido.

Sim, penso que depende de nós, do respeito que nutrimos uns pelos outros, da nossa convicção de que podemos mudar algo, de que todas as opiniões contam, de pensarmos que aquilo que parece ser orquestrado por uma implacável entidade superior, na verdade pode ser controlado se formos honestos e humildes.

Mais do que questionar os outros, devemos questionarmo-nos a nós próprios, sempre! Se todos o fizermos, do humilde ao soberano, estaremos a trilhar o caminho da forma mais prudente e inteligente, cientes de que tudo fizemos para não sermos surpreendidos pelo fatum leonino.

Muito Bom :clap: :clap:

Muito obrigado a todos pelos elogios. :great:

Ó Gabi, não me compares é ao Camões, senão o homem sai do Mosteiro dos Jerónimos e persegue-te, ofendido. :mrgreen: :-[

Também te podia estar a chamar zarolho e tu não percebes-te! :mrgreen:

Foi mesmo um elogio porque gostei do que o Schism escreveu.

Este sim que é um bom texto, parabens Schism por tocares num ponto fulcral da nossa mentalidade, que na grande maioria das vezes é perdedora, por muito que nos custe admitir.
Sem duvida alguma que falta muito optimismo a este clube e a esta nação. Ando-me sempre a queixar disso mesmo, vocês não se podem esquecer que um pessimista só tem 49% de chances para suceder, enquanto que um optimista tem 51%…Só por esse facto já vale a pena ser optimista, quanto mais se considerarmos todos os outros benefícios inerentes a esse mesmo estado de espírito. Sem duvida que é melhor do que andar a caçar bufos imaginários pelos corredores do Alvalade virtual onde se situa este forum.

Chega de filosofias, vou para o meu novo/velho vicio, Forza Motorsport 3 na xbox live, alguém me acompanha ?

:beer:

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Excelente texto :clap:

wow :xock: