O estigma da credibilidade

A cassete das eleições é recorrente. As expressões utilizadas são sempre as mesmas e incluem sempre a “vaga de fundo” de “notáveis” para que um sócio do Sporting aceite ser candidato, mas apenas depois de um “período de reflexão”. Juntam-se os ingredientes todos e o objectivo final é ter alguém “credível”.

É repugnante a manipulação que alguns tentam fazer da essência do sportinguismo. Os tais “notáveis” são os mesmos que querem fazer passar a ideia de que só um rico pode assumir os comandos do clube. Só alguém com muitos milhões (25 nestas eleições, não é?) poderá ser a pessoa indicada. O ciclo é vicioso: o grupo de presidentes é sempre do mesmo lado. José Roquette, Dias da Cunha, Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e Godinho Lopes são, para o bem e para o mal, farinha do mesmo saco. O que os “notáveis” ignoram é que o presidente do Sporting é o representante máximo dos sócios. Age, em representação dos sócios, de acordo com um plano que há para o clube/SAD. Nessa representação, não interessam os milhões que tem na conta bancária mas sim o estatuto e prestígio do clube.

É impossível desmentir o estado calamitoso a que as finanças do Sporting chegaram. Mas chegaram a esse ponto com a gestão de milionários, com passado na banca e construção civil. Todos eles, sem excepção. Terem dinheiro no banco serviu de pouco, especialmente num momento em que existe já uma SAD e o clube não está dependente dos mecenas que não se importam de investir a fundo perdido. Desde a criação da SAD, já ninguém dá nada ao Sporting. Só o contrário acontece.

Ser “credível” é, por tudo isto, a maior falácia das eleições do Sporting. Quando Rui Oliveira e Costa e companhia falam de “credibilidade”, eu quero ouvir “idoneidade”. É isso que uma candidatura precisa. Precisa de alguém honesto, com capacidades de gestão excepcionais e conhecimento profundo da situação do clube. Não precisa de alguém que consiga safar uns milhões e adiar o inadiável só porque é amigo dos ricalhaços que disponibilizam o dinheiro. Porque se assim for, ad eternum, não faltará muito a que as três iniciais da bolha que rebentar sejam SCP e não BPN.

Reconheço que não sou o exemplo perfeito para um candidato. Sempre lidei com quantias pequenas e a minha área de acção tem muito pouco a ver com economia, finanças e gestão. Mas sou “credível” à minha maneira. Sou idóneo. Não devo um euro a ninguém. Tenho uma casa, um carro e um salário. E não devo um euro aos bancos. Sempre honrei os meus compromissos, paguei a horas (algumas vezes antes) e sinto-me envergonhado quando recebo um segundo aviso de gás ou água, mesmo que a carta só tenha chegado depois de ir de férias. Como disse, o meu universo financeiro é pequeno, mas faço uma gestão exemplar de acordo com as minhas necessidades e poupo facilmente mais de 30% do que recebo.

Reforço: o meu universo financeiro é pequeno. Mas é precisamente alguém com esta filosofia e capacidade que eu procuro no Sporting. Alguém que saiba cortas nas gorduras, saiba identificar onde é preciso investir e que reconheça a sua dimensão. Não precisamos de quem tenha 34 milhões de euros para investir, quase 25% num jogador como Elias, e uma época depois seja obrigado a destruir tudo pela falta de dinheiro. Dou o privilégio do voto a quem tenha menos, mas saiba o que fazer com ele e que os mesmos 25% possam, por exemplo, ser usados e explorados num jogador como Witsel (peço desculpa o exemplo) que dê um retorno financeiro claro e permita uma recuperação financeira progressiva, como se fosse um dominó: investir 15, fazer 30 um ano depois, investir novamente 15, fazer 30 e assim progressivamente até conseguir dar verdadeiramente um rumo ao Sporting.

Alonguei-me mais do que queria - e peço desculpa por isso - mas tinha isto na mente há muito tempo. “Credível”? Credível é alguém idóneo, que seja inteligente a gastar o que tem e que nunca se esqueça que está a representar os interesses máximos do Sporting. Os interesses máximos do Sporting. Do Sporting. Só assim, e não com os amigos ricalhaços que promovam a bolha, se poderá ansiar pelo futuro renovado do Sporting.

© RS 2013

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Excelente post!

Subscrevo por inteiro. :great:

Na mouche! Revejo-me a 100%!

Está na hora de termos um Presidente que perceba mais de Futebol do que de finanças, que dê mais valor ao nosso ecletismo do que aos bancos, que perceba mais de desporto do que de dinheiro, que entenda o que é um adepto e esqueça a palavra cliente.

Nem mais. Os valores do sportinguismo há muito que estão esquecidos na presidência do clube

Sem tirar nem por, é isto que precisamos. :great:

Em cheio RS

Todos nós, no mínimo, somos gestores de pequenas economias. Por isso, só me dá vontade de rir quando leio sobre algum “gestor de topo”. A diferença destes “credíveis gestores de topo” para o comum cidadão é a quantidade de 0s do lado direito da conta bancária.

O que o Sporting precisa neste momento é precisamente alguém com o carácter humilde o suficiente para assumir a situação e assumir a sua própria capacidade em gerir os recursos do clube, compreendendo as limitações que se apresentam neste momento devido ao asfixiamento causado pelo aumento do passivo, e a quantidade de juro que temos de pagar.

Contudo repito a ideia, que disse noutros tópicos: O Sporting gera entre 50 a 60M€ por ano, é imenso dinheiro e só um incompetente precisa de N apoios e empréstimos, reestruturações e afins para segurar uma época desportiva no futebol português, tudo o que tem acontecido nos últimos anos é de uma incompetência tal, que quase parece que somos geridos por crianças de 12 anos. Uma criança credível claro.

RS :clap:

Tiro bastante certeiro. E com uma simplicidade desconcertante.

Tenho a plena convicção de que o Sporting Clube de Portugal estaria hoje melhor se a generalidade dos Sócios pensasse desta forma.

Excelente Post RS!

Parabéns pelas sábias palavras :clap: :clap:

Muito bom.

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Muito bem dito, subscrevo o texto pro inteiro.

Este establishment teve o dom de desvirtuar por completo o significado de “credibilidade”, atualmente sempre que ouço/leio a palavra “credível”, soa sempre a conotação negativa.

Mais nada RS!!!
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Destes “credíveis” rebentadores do Clube e que dele se têm servido, não queremos mais!!!
Trampa desta RUA!!!

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Excelente “post”.

Tomo a liberdade de isolar estes dois trechos, autênticas pérolas, e nos quais me revejo particularmente.

É impossível desmentir o estado calamitoso a que as finanças do Sporting chegaram. Mas chegaram a esse ponto com a gestão de milionários, com passado na banca e construção civil. Todos eles, sem excepção. Terem dinheiro no banco serviu de pouco, especialmente num momento em que existe já uma SAD e o clube não está dependente dos mecenas que não se importam de investir a fundo perdido. Desde a criação da SAD, já ninguém dá nada ao Sporting. Só o contrário acontece.
"Credível"? Credível é alguém idóneo, que seja inteligente a gastar o que tem e que nunca se esqueça que está a representar os interesses máximos do Sporting. Os interesses máximos do Sporting. Do Sporting. Só assim, e não com os amigos ricalhaços que promovam a bolha, se poderá ansiar pelo futuro renovado do Sporting.

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Não podia deixar de assinar por baixo.

Esta é a verdadeira questão que está em discussão nestas eleições.

O que é espantoso é como é que o grupo de pessoas que pôs o Sporting a lutar pela manutenção se consegue achar a si próprio “credível”. E como é que alguém consegue ouvir isso e não se desmanchar a rir.

Farto de credibilidade, quero é idoneidade!

Não nos podemos, também, esquecer do essencial.

Tenho bem presente que, na sequência das intenções dos “viscondes”, desde JR, em retirar os sócios do SCP dos assuntos do futebol remetendo-os para meros adeptos, consumidores e “clientes”, o que se joga agora, e pela última vez, é a consumação disso mesmo.
Parece ter-se assistido a uma estratégia premeditada e criminosa, na contínua desvalorização e empobrecimento do SCP, até à altura de, poder ser facilmente “metido no bolso” dos interesses financeiros.
Os que se julgam "os donos” do Clube já estão a tratar da “contratação” de um “presidente”, pago a peso de ouro, como se de um CEO das suas empresas se tratasse.

Só BdC pode alimentar a (ténue) esperança de o Sporting-Futebol-SAD continuar a pertencer ao Clube, escapar à privatização e, consequentemente, não ser entregue a quem der mais e, a poder passar de mão em mão.
Não vejo aparecer mais ninguém que pretenda manter o SCP de 1906. Com as adaptações necessárias à evolução, mas sem perder a matriz fundadora.

O que pode acontecer depois, pode ser tema para histórias de ficção ou mesmo de terror.

Seremos, na emulação com os nossos principais rivais, mais desconsiderados do que nunca, mesmo que o não seja pelos resultados do Futebol.
Os adeptos, e sobretudo os sócios, nunca mais poderão encarar da mesma maneira os dos clubes rivais.

O ecletismo, as modalidades, os Grupos ligados ao Clube, entrarão em rápida decadência e extinguir-se-ão, arrastados pela inevitável deserção dos actuais associados e pela não atracção de novos.
De Clube com Sócios espalhados pelo País e pelo Mundo, passaremos a um Clube de bairro. De Sporting Clube de Portugal, passaremos em menos de uma década para Sporting Clube de Lisboa ou de Telheiras. Com secções de Bridge, Golf e TT.
Moniz Pereira, entretanto “desaparecido”, não verá novos ginásios nem pistas, nem sequer alugados.

Para o Futebol, “desporto-rei” (em Portugal), assistiremos à criação, promovida pela “nova” SAD, de cartões-cliente do SCP, análogos aos do Continente, da Galp ou da FNAC.

E, como na política nacional e internacional, aparecerão, claro, as “terceiras-vias”, com vários Couceiros a propor “acordos para-sociais” que, de “revisão” em “revisão”, espalharão uma nuvem muito fina de areia para os do “Sporting somos nós”, até se atingir o mesmo resultado.

Que fique aqui, para memória futura.