Nossa Senhora e o Sporting Clube de Portugal

Este é um artigo do Dr. Vasco Garcia, ex-reitor da Universidade dos Açores.

Não tem nada a ver com o SCP per se, mas faz alusão ao nosso clube e de uma forma engraçada.

Nossa Senhora e o Sporting Clube de Portugal

Há a sensação de que é melhor seguir gastando, enquanto não vêm os dias em que ninguém nos vai emprestar mais e a torneira dos financiamentos a crédito fechará

A BTR-Bateria de Artilharia 516, do Grupo de Artilharia de Campanha 518, esteve estacionada em Quibaxe, no Norte de Angola, entre 1963 e 1965. Além de patrulhamentos na chamada “zona de acção”, a BTR 516 apoiava o Comando do Sector Q e dava apoio e protecção às fazendas de café propriedade de colonos portugueses e de um ou outro estrangeiro. Era uma vasta área, equivalente ou mesmo superior à de todas as ilhas dos Açores. Quando fui integrado na 516, jovem alferes miliciano ido de Portugal (a Metrópole ou “Puto”, na gíria local) a vida era uma aventura e comia-se às dentadas. As patrulhas e as escoltas, por perigosas que fossem, eram quase uma forma de divertimento que quebrava a monotonia da vida do quartel e a exiguidade da vilazinha de Quibaxe. Comandava a BTR 516 o Capitão José Joaquim Villares Gaspar, o mais copofónico dos oficiais com quem me cruzei na vida militar, o que não impedia de ser um excelente condutor de homens. O Capitão Gaspar tinha prestado serviço no Quartel General dos Açores, no Forte de São Brás, em Ponta Delgada. Foi esse ponto comum que nos aproximou desde o dia em que me apresentei ao serviço na Bateria. Embora não fosse propriamente um modelo de virtudes, Villares Gaspar sabia reconhecer e premiar as qualidades dos seus oficiais, sendo no entanto crítico e mesmo duro na apreciação da sua acção. Nos “Marialvas”, nome de guerra da 516, encontrava o ambiente que lhe agradava e onde fomentava a camaradagem. Como operacional era destemido, rasando por vezes a loucura. Pessoa muito inteligente, usava frases motivadoras. Uma vez, quando lhe perguntámos se uma determinada operação era de risco elevado, respondeu que não nos preocupássemos, porque “Nossa Senhora vela pelos Portugueses e pelo Sporting Clube de Portugal!”. Caímos todos na gargalhada e a tensão que precedia os momentos difíceis desapareceu. A frase do Capitão Gaspar tem-me vindo à memória com demasiada frequência nos últimos anos, ao ver como Portugal tem vindo a comportar-se no quadro económico, social e político. Esmagado por uma desastrosa governação que não hesitou em pintar com cores aliciantes um panorama nacional que já era péssimo em 2009, o povo português prepara-se para entrar em 2011 com um comportamento no mínimo bizarro. Basta ir a um qualquer shopping, destes que abundam por tudo quanto é canto um pouco mais populoso, nestes dias de Natal, para se ficar perplexo perante o delírio consumista com que nos deparamos. Dizem as estatísticas que as compras deste ano superaram as do ano passado, com a ressalva dos valores médios por pessoa estarem mais baixos. Ou seja, estão-se a comprar prendas de preço mais baixo, mas compra-se em mais quantidade, porque senão o volume total diminuía. Será que o aparecimento de mais 600 milionários nacionais em 2009, tem nisso alguma influência? Questão complicada, esta interrogativa, uma vez que por todo país se fala nas empresas que vão à falência, do aumento dramático dos desempregados, da fuga de jovens qualificados para o estrangeiro e da pobreza que alastra e começa a atingir os estratos menos abonados da definhada classe média. Uma das explicações pode estar na economia paralela, mas não é fenómeno estranho, porque há precisamente 6 anos, em 27 de Dezembro de 2004, num artigo nestas mesmas linhas a que dei o título de “Riqueza debaixo da mesa”, afirmei que a riqueza produzida pelo País estava subavaliada em 30 a 40000 milhões de euros – o que, em termos reais, reduzia o famoso défice a uma canção mal cantada. Nesse ano de 2004, ninguém falava do assunto, porque o que era moda, era destruir a imagem de Manuela Ferreira Leite, a Ministra das Finanças de Durão Barroso. No destaque desse artigo de há 6 anos, escrevi o seguinte: “um cálculo simples mostra que 3,7% de 130000 milhões são apenas 2,8% de 170000; logo, em termos de economia real, estamos abaixo do famoso tecto da União Europeia”. Recorde-se que, nesse ano, se dizia que o défice era de 3,7%, já considerado “excessivo”, por furar o tecto dos 3%. Belos tempos, Neste ano de 2010, seguindo o mesmo raciocínio linear de 2004, considerando um PIB de 170 mil milhões de euros e uma economia paralela de 40 mil milhões, teremos uma produção real de riqueza de 210 mil milhões. São números correctos, porque todos os estudos apontam para uma economia não registada de 24/25% do PIB. Assim sendo, mesmo que o défice esteja em 17000 milhões (10% do PIB) ainda ficava uma folga de 23000 ou mais! Porém, o que se fez nestes últimos anos para corrigir o aumento da economia “debaixo da mesa”? Rigorosamente nada. Para piorar, andou-se a propagandear, antes das eleições de 2009, que estava tudo nos conformes, o défice estava pouco acima dos 4 por cento…porque era preciso ganhar eleições. Quando estas passaram, veio ao de cima a verdade, com o valor real de 9%. Vivendo no reino da fantasia, como pode o Governo da República convencer os Portugueses e – pior ainda – os estrangeiros que nos emprestam dezenas de milhões por dia, de que os números que fornece são de confiança? Com um endividamento externo, público e privado, bem superior a 500 mil milhões de euros, bem podem os Portugueses preparar-se para um futuro cheio de surpresas desagradáveis Talvez esteja no que foi dito atrás a explicação do estranho comportamento consumista das cidadãs e dos cidadãos nacionais, nestes dias festivos. De um lado, há muito dinheiro que corre e não se sabe de onde vem, mas existe; do outro, há a sensação de que é melhor seguir gastando, enquanto não vêm os dias em que ninguém nos vai emprestar mais e a torneira dos financiamentos a crédito fechará. Sirva-nos de consolação que não somos só nós, é o mundo inteiro que é devedor: a dívida externa total dos países do planeta atingia, há exactamente 1 ano, 57000 milhares de milhões de dólares, mais de 4 vezes todo o PIB anual dos Estados Unidos e correspondente a 98% da riqueza mundial. Instintivamente, muitos portugueses são capazes de se aperceber disso e pensar como o Capitão Villares Gaspar que “Nossa Senhora vela pelos Portugueses e pelo Sporting Clube de Portugal”. A questão é saber se assim conseguimos ganhar o campeonato.

In Açoriano Oriental

Muito bom o artigo!