Histórias da Carochinha

Aí galera, como é que é, tudo supimpa? Um feliz 10 de Junho para todos.

Há uns tempos estava aqui a pensar, e pensei que num espaço de convívio em que a comunicação se faz através da escrita, não podia deixar de se assinalar este feriado nacional em que se celebra a língua e cultura portuguesas e se evoca um dos seus maiores ícones: Luís de Camões. Então continuei a pensar, e já com a cabeça a deitar fumo, pensei que não haveria melhor maneira de homenagear o nosso ilustre e zarolho poeta bem como a língua portuguesa em geral, do que criar um tópico exclusivamente dedicado a essa forma de expressão tão versátil e universal que é a escrita.

Assim, o que proponho é que mostremos o Camões, o Esopo ou o La Fontaine que há em cada um de nós e deixemos aqui os sonetos, contos e fábulas da nossa autoria. Sr. Chirola, que tal uma reedição da história do sportinguista que visitou pela primeira vez a sala de sócios do novo Estádio? Sr. One_o_six, que tal uma história não documentada sobre o Cardeal Cerejeira e o Prof. Salazar? Sr. MRG, que tal uma fábula sobre o biólogo molecular que queria fazer um clone da menina da bilheteira e lhe saiu uma Leonor Pinhão? Menina Kitty, que tal uns versos sobre a princesa cujo cabelo era preto ao luar mas ficava ruivo à luz do Sol? Sr. FLL, que tal um conto kafkiano inspirado nas negociações entre um grupo de sócios e o CD do clube para realização de uma AG extraordinária? Está dado o mote. Começo eu no post seguinte.

Antes que me esqueça: este tópico é patrocinado pelo Desacordo Ortográfico :twisted:

O HOMEM QUE PERDEU A RAZÃO

Há muitos, muitos anos mas não há tantos que os animais ainda falassem, numa terra muito, muito longínqua mas não tão longínqua que não soubéssemos da sua existência, existia uma cidade próspera e pacífica que se destacava das cidades vizinhas pelo saber e conhecimento que emanavam da sua Academia, onde viviam, estudavam e discutiam os homens mais sábios que o Mundo jamais conhecera.
Dois desses sábios eram irmãos gémeos que, tendo crescido numa luta constante pela afirmação da sua identidade e personalidade, tinham-se tornado intelectuais com ideias diametralmente opostas sobre a maneira de ver o Mundo e constituíam a dupla de maior rivalidade ideológica que a Academia jamais havia visto. A questão mais fracturante entre ambos era a forma da Terra: um advogava que era plana, enquanto o outro defendia que era redonda. Os sábios mais velhos, sensatos e moderados, que viam nas acesas disputas entre os dois sábios não a genuína busca da verdade mas sim o conflito entre dois irmãos igualmente teimosos e orgulhosos que não aspiravam a mais do que mostrar que cada um deles estava certo e o outro estava errado, menosprezavam a substância da questão, que lhes parecia irrelevante e irresolúvel, e dedicavam-se a contemplar e analisar aspectos formais da discussão tais como a retórica e a dialéctica, que os deslumbrava acima de tudo. De facto, ambos os irmãos tinham uma capacidade argumentativa tão impressionante e uma loquacidade tão admirável, que tinham granjeado apoiantes à sua causa e a Academia se tinha dividido em duas linhas de opinião: os que acreditavam que a Terra era plana e os que acreditavam que a Terra era redonda. Dentro de cada partido, havia aqueles que tinham questionado, analisado e confirmado os respectivos argumentos, seguindo o seu mestre por plena convicção mas também havia aqueles que, simplesmente considerando que alguém que defendia algo de forma tão obstinada e eloquente não podia estar errado, seguiam o seu mestre por mera devoção. Independentemente disto, a divergência de opinião e a rivalidade entre as duas facções principais era de tal ordem que os membros da Academia começaram a sentir necessidade de se distinguirem dos seus opositores até na indumentária pelo que os defensores da Terra Plana passaram a usar um chapeuzinho largo e achatado enquanto os defensores da Terra Redonda passaram a usar um barrete com uma bolita no cocuruto.
Certo dia a discussão entre os dois sábios atingiu tais proporções que dela já não poderia resultar mais uma vez um empate. Da exposição fervorosa dos argumentos passaram à zombaria dos contra-argumentos e da zombaria dos contra-argumentos passaram ao insulto mútuo até que da discussão académica se passou à discussão pessoal, num crescendo de teimosia, indignação e fúria que terminou quando o sábio da Terra Plana esfregou um pergaminho na cara do irmão e este reagiu deitando mão a um pisa-papéis de alabastro e dando uma traulitada tão violenta na cabeça do primeiro, que o deixou estendido e inconsciente no chão. Após uns momentos de perplexidade geral, os discípulos de chapéus largos e achatados precipitaram-se para o seu mestre que jazia no chão, enquanto os discípulos de barrete com bola olharam atónitos para o seu, procurando naquele olhar lunático e enraivecido a racionalidade e eloquência que outrora os havia conquistado. Não passaram mais do que uns breves momentos até que toda a Academia rodeasse o sábio prostrado e procurasse aferir o seu estado de saúde. Sentindo cair sobre si os olhares de desilusão e recriminação, o outro sábio, irritado consigo próprio e com a situação, virou costas àquela assembleia e encaminhava-se pesadamente para a porta de saída quando alguém lhe gritou: ”Se tinhas razão, perdeste-a!”. Ouvindo isto, o sábio deteve-se, virou costas e mal conseguiu esboçar um gesto ou uma resposta quando aquela mesma frase começou a soar de diferentes locais, primeiro timidamente e depois furiosamente até se transformar num clamor que fazia tremer as colunas de mármore da Academia: ”Se tinhas razão, perdeste-a, se tinhas razão, perdeste-a!”. O sábio, indignado, deitava mão aos seus pergaminhos e corria desesperadamente por entre a multidão de sábios, agarrando-lhes pelas togas, mostrando-lhes os seus cálculos e chamando pelo nome dos seus discípulos mais fiéis, que no entanto se limitavam a depor os seus barretes com a bola no cocuruto e a repetir, com a desilusão estampada no rosto: ”Se tinhas razão, perdeste-a!”.
Nunca o sábio se sentira tão solitário como naquele momento em que os seus pares não só lhe recusavam a razão como ainda, pior do que tudo, se recusavam a ouvi-lo. Aterrado por aquela sensação de vazio, fugiu da Academia em pânico, como se fosse enxotado por aquela vaga de vozes que gritavam ”se tinhas razão, perdeste-a” e nunca mais voltou à companhia dos outros sábios, que assumiram que ele tinha enlouquecido, quando passaram a vê-lo a deambular pela cidade batendo de porta em porta e pedindo bocadinhos de fio que ia enrolando num novelo. O sábio da Terra Plana, por sua vez, acabou por abrir os olhos mas limitava-se a olhar para o vazio. Nunca mais se mexeu, nunca mais falou, deixou de reagir a qualquer estímulo e tornou-se um ser inanimado que só sobrevivia porque era alimentado e tratado por aqueles que tinham sido os seus discípulos mais devotos. A questão da forma da Terra passou a ser um assunto tabu, mas o insólito coma do sábio da Terra Plana levantou uma nova controvérsia na Academia, pois na tentativa de compreender o seu estado clínico, alguém propôs que a pancada na cabeça do sábio tinha feito espirrar o seu espírito pelo nariz e pelos ouvidos, e daí deduziu que o espírito humano deveria residir na cabeça e não no coração, como sempre se pensara. E então mais uma vez a Academia se dividiu em dois partidos: o partido daqueles que acreditavam que o espírito residia na cabeça, que passaram a usar cabelo rapado para ostentar o seu receptáculo espiritual, e o partido daqueles que mantinham a velha ideia de que o espírito residia no coração, que passaram a usar um chapeuzinho donde pendia um fio com um coraçãozinho na ponta.
Certo dia, fervilhava a Academia na sua actividade intelectual como sempre, quando um abalo de intensidade crescente começou a fazer tremer os pilares e paredes, interrompendo os exercícios e declamações dos sábios, que de imediato olharam assustados em redor e para cima, julgando que a Academia se desmoronava sob o peso de tanto conhecimento. Rapidamente chegaram a uma explicação mais prosaica para o fenómeno e, no preciso instante em que concluíram que o abalo se devia à aproximação de um objecto de dimensões ciclópicas, o tremor cessou e as portas da Academia abriram-se cedendo à força de uma bola gigante que um homem empurrava furiosamente. O homem era o sábio da Terra Redonda e a bola era o novelo que ele tinha produzido com todos os pedacinhos de fio que andara a mendigar desde que abandonara a companhia dos seus pares. Não perdendo tempo a apreciar as reacções de espanto, as quais já esperava, o sábio trepou o novelo com um ar esbaforido e como que fazendo deste um palanque, abriu os braços, respirou fundo e proclamou: “Aquele que perde a razão deve reencontrá-la. Fui proscrito desta comunidade porque se considerou que eu tinha perdido a razão. Pois eu digo-vos que a razão não é uma coisa que se perde ou se ganha como se fosse um piolho no cabelo. A razão não é uma coisa que perde o valor consoante aquilo que a pessoa faz ou deixa de fazer. A razão ou se tem ou se não tem. Eu não perdi a razão por ter agredido o meu irmão, nem a Terra deixou de ser redonda por o meu irmão ter ficado apático. Não fui eu que perdi a razão, foram vocês que ma retiraram! Mas como hoje, mais do que nunca, as palavras se revelam vãs, irei conceder-vos a prova cabal, irrefutável e definitiva de como eu tinha razão: partirei hoje mesmo com este novelo de linha em direcção ao lado em que o Sol nasce e, seguindo em linha recta, ver-me-ão um dia surgir do lado em que o Sol se põe; porque a Terra é redonda e se nos pusermos a caminhar numa certa direcção, após darmos uma volta completa à Terra e percorrer a sua redondeza, surgiremos da direcção contrária. Se perdi a razão, vou reencontrá-la de forma a que ninguém ma poderá negar!” E tendo dito isto, desceu calmamente do novelo e levou uma ponta do fio pela mão até ao pátio interior central, onde se erguia um poste cuja sombra projectada no chão era usada para assinalar a passagem das horas, dias, estações e anos e indicava o Norte, o Sul, o Nascente e o Poente. Depois de atar o fio ao poste, olhou em redor, viu a porta Poente da Academia por onde ele um dia entraria e saiu pela porta Nascente, empurrando e desenrolando o novelo, dando assim início ao fantástico empreendimento de demonstrar que a Terra era redonda através do percurso e união de um fio a toda a sua volta. Estupefactos e sem saber como reagir, os sábios seguiram-no até ele sair pela porta Nascente da Academia e depois até sair pela porta Nascente das muralhas da cidade, numa procissão a que se juntou o povo, que, sem saber o que se estava a passar, mas contagiado, balia com os sábios as palavras de ordem: “Se tinhas razão, perdeste-a! Se tinhas razão perdeste-a!”, às quais o sábio apenas respondia teimosamente “vou encontrá-la!” de cada vez que olhava para trás para puxar o fio e se certificar que a linha ficava direita e bem esticada.
E assim partiu o nosso explorador em busca da razão perdida, empurrando e desenrolando o novelo sob os gritos da voz da Razão enquanto se sumia na distância, até que os sábios dispersaram um a um e regressaram à Academia e aos seus afazeres intelectuais, sem no entanto se terem apercebido que aquele ponto diminuto que era o sábio empurrando o novelo, se desvanecia no horizonte começando pelos pés, depois pelo meio do corpo, até que a última fracção visível antes de desaparecer completamente era o topo do novelo. Empurrava, desenrolava e caminhava durante todo o dia. E naquela épica tarefa da qual fez desígnio único da sua vida parava apenas para comer, beber, dormir e meditar, coisas que realizava com a maior simplicidade. Bebia as gotas de chuva e de orvalho que acumulava numa cabaça, comia raízes e tubérculos arrancados da terra e temperados com o suco agridoce de formiguinhas, e descansava apenas de noite, deitado de barriga para cima no topo da bola, de forma a cartografar mentalmente o firmamento e encontrar inspiração para filosofar.
Tornou-se um eremita ambulante cuja obsessão com que encarava o seu empreendimento e o furor com que o executava eram de tal ordem que por onde quer que passasse deixava uma marca indelével da sua passagem. Uma vez, vendo que uma casa se interpunha à trajectória rectilínea do novelo, aplicou a sandália na porta, derrubou-a e entrou pela casa adentro, assustando de tal forma um casal que fazia amor, que a mulher teve um espasmo no sítio onde não devia e esmagou a masculinidade do marido, enquanto o sábio atravessava a casa com o novelo e saía pela porta das traseiras, indiferente ao transtorno que havia causado, surdo aos urros agonizantes do homem que deixara para trás e prosseguindo a empurrar o novelo, olhando ocasionalmente para trás para endireitar o fio e parando apenas para comer raízes com formigas ou para descansar e contemplar o firmamento.
Outra vez, sendo interpelado por um ladrão de quem se dizia ser tão mau que era capaz de matar alguém com um olhar, mostrou-se tão indiferente às suas ameaças que este, espantado e desgostado com o seu insucesso face àquele louco que empurrava um novelo, tomou o falhanço como um sinal divino, abandonou a ladroagem, penitenciou-se pelos seus pecados, passou a viver como um asceta e mais tarde acabou por fundar uma religião.
Numa outra ocasião, irrompeu por um campo de batalha na fase decisiva da contenda e os guerreiros ficaram de tal forma perturbados pela visão daquele homem, alheado do clamor e horror da guerra e que empurrava um novelo acotovelando-se no meio dos guerreiros, chapinhando com as suas sandálias nas poças de sangue e trepando por cima dos mortos e moribundos, que perderam a vontade de lutar, os generais de ambos os exércitos ordenaram a retirada, a guerra terminou e as nações beligerantes firmaram um pacto de não-agressão que durou vários séculos.
Outra vez ainda, tendo chegado a uma terra distante onde os nativos viviam em pequenos bandos no meio da selva e se alimentavam do que a Natureza tinha para lhes dar, foi tomado por um Deus e os nativos ficaram de tal modo fascinados com o novelo, que passaram a adorar todo o tipo de coisas esféricas, estabeleceram uma economia baseada na manufactura e comércio de esferas, sedentarizaram-se na margem de um grande rio e fundaram uma cidade donde haveria de emergir uma próspera e duradoura civilização.
E indiferente a todas estas incidências e insipiências, o nosso sábio seguia o seu caminho em direcção a Nascente, buscando a ponta do novelo que tinha deixado amarrada ao poste da Academia a Poente, olhando para trás apenas para verificar se o fio estava direito, e parando apenas para comer raízes com formigas, beber chuva da cabaça ou descansar e contemplar o firmamento.
A única ocasião em que parou para fazer outra coisa que não fosse comer, beber ou descansar foi num dia ensolarado em que o seu caminho se cruzou com o de um homem que ora espreitava para dentro de um poço ora corria na direcção de uma vara espetada no chão. Nesse homem, que espreitava para dentro do poço e escrevia num pergaminho, olhava para a sombra da vara e escrevia no pergaminho, o sábio viu reflectido o seu próprio empreendimento pois via nele o ar absorto e dedicado de quem está a procurar resolver a questão mais intrigante e importante do Mundo. Sentindo pela primeira vez saudades dos seus colegas da Academia, e vendo ali uma oportunidade para mitigar, ainda que temporariamente, a sua solidão, aproximou-se do estranho e quis perguntar-lhe que problema estava ele a tentar resolver. Mas tantos anos de solidão haviam-lhe retirado as capacidades de interacção social ao ponto de não saber como iniciar uma conversa com um desconhecido nem tão pouco conseguir esboçar um gesto que lhe chamasse a atenção para a sua presença. E assim, depois de ver o estranho correr várias vezes para o poço e várias vezes para a vara enquanto tomava notas no seu pergaminho completamente alheado à sua presença, virou as costas triste e frustrado e retomou o seu caminho, empurrando e desenrolando o novelo, olhando ocasionalmente para trás para se certificar de que o fio estava direito e parando apenas para comer raízes com formigas, beber água da cabaça e contemplar o firmamento.
Muitos anos assim se passaram e muitas terras assim foram passadas, até que do nosso sábio já só restava um invólucro decrépito de pele e osso, coberto de trapos e de uma longa barba em que tropeçava, unicamente animado pela vontade de caminhar para a frente, enquanto do gigante novelo já só restava uma bolita que ele segurava na mão e ia desenrolando à medida que caminhava. Assim, foi quase por milagre que um dia os seus olhos enevoados pela miopia e pelas cataratas detectaram no horizonte uma grande cidade e esta não se lhe deparou como mais uma de tantas que se lhe atravessavam no caminho, mas sim como aquela de onde tinha partido e aquela onde devia terminar a viagem. Semi-cerrou os olhos e, distinguindo a porta Poente da cidadela, iluminou-se-lhe pela primeira vez o espírito desde o dia em que ouviu que tinha perdido a razão. Tinha demonstrado que a Terra era redonda através de uma circum-peregrinação da qual o fio que atara à volta do Mundo era a prova física e irrefutável. E se foi milagre ter reconhecido ao longe a sua cidade natal apesar dos seus olhos enfraquecidos, mais milagre foi a correria desenfreada em que se pôs apesar das artroses que lhe empederniam os joelhos. Percorreu os derradeiros metros da sua longa jornada mais alheado do que se passava à sua volta do que nunca, pois desta vez, à obsessão de manter a trajectória rectilínea e à ânsia de chegar ao fim da sua caminhada, juntava-se a inebriação provocada pelo êxtase com que antecipava a sua grande conquista perante tudo e todos: a redescoberta da razão perdida, o reencontro com a Razão. E tais eram essa obsessão, essa ânsia e essa inebriação, que não sentiu o cheiro a sangue e cinzas que empestavam o ar, nem viu que os estandartes e bandeiras que adornavam as torres ostentavam cores diferentes das da sua cidade, nem reparou nas vestes exóticas das sentinelas que patrulhavam a orla das muralhas, nem se apercebeu que entrava sozinho pela porta Poente da cidadela, a qual outrora entupia com o tráfego de mercadores, cortesãos, soldados e saltimbancos e agora era unicamente agitada pelo movimento de quatro desses guerreiros exóticos que, puxando uma corda tentavam derrubar uma lápide do frontão onde se lia: “Aquele que recorre à força, perde a razão”. Absorto de tudo isto, o sábio atravessou a porta e seguiu pela artéria principal, que desembocava na porta Poente da Academia, sempre desenrolando o pequeno novelo com a mesma técnica de sempre, mais sofregamente do que nunca. Entrou na Academia e, não encontrando nenhum dos seus antigos colegas, prosseguiu até ao pátio interior para unir a ponta do fio que lhe restava ao poste onde há muitos anos tinha atado a outra ponta do novelo. Mas foi surpreendido pelo facto de, a esse poste que outrora servira de calendário, estar agora amarrado um soldado que era chicoteado violentamente por um daqueles guerreiros de uniformes exóticos. E mais ficou surpreendido quando olhou em volta e se apercebeu que tudo estava diferente na Academia, tão diferente que mais se assemelhava a um quartel: onde dantes se costumavam reunir os matemáticos para fazer cálculos de aritmética, estava agora um grupo de guerreiros a jogar aos dados; onde dantes os físicos e astrónomos calibravam os seus instrumentos de medições, estava agora um soldado a amolar a sua espada; onde dantes se congregavam os filósofos para discutir efervescentemente, estavam agora dois soldados a praticar luta livre sob os gritos de encorajamento dos colegas. Apesar de sentir que dificilmente encontraria ambiente menos adequado para proclamar o seu triunfo, já tinha as palavras entaladas há tanto tempo na sua velha e áspera garganta que não conseguiu evitar proferir estrondosamente: “Encontrei a razão!”. Ouvindo isto, os guerreiros interromperam as suas tarefas e olharam na direcção da porta surpreendidos pela presença daquele estranho velho, até que depois de alguns segundos de silêncio sem esboçarem qualquer reacção, um guerreiro mais brincalhão fez um ar de pânico e gritou para os colegas: “Ai que agora é que estamos perdidos”, a que se seguiu uma vaga de gargalhadas que ressoou por todo o pátio como um trovão. O sábio, incrédulo e atarantado, virou costas e saiu da Academia apressado e olhando em redor para se certificar que estava na sua cidade natal. Estava de facto no local da cidade pacífica e próspera onde tinha nascido e crescido juntamente com o seu irmão gémeo e onde se tinha distinguido como um dos sábios mais proeminentes da Academia, mas dessa cidade já só restavam as pedras, as ruas e a memória, depois de haver sucumbido à fúria de um exército de invasores bárbaros. Tendo constatado isto, e vendo todas as ruas e praças despidas de vida, foi batendo de porta em porta mas só era confrontado com caras novas e pouco familiares. Não encontrou nenhum dos seus colegas sábios e rapidamente descobriu que todos os habitantes de que se lembrava ou haviam morrido de velhice ou haviam sido massacrados pelos invasores ou então eram vivos mas estavam tão velhos que só retinham uma recordação senil da sua expulsão da cidade e se limitavam a repetir mecanicamente a lição que daí fora retirada: “Aquele que recorre à força, perde a Razão”.
Era grande a angústia do sábio ao ter notícia do infeliz destino da sua velha cidade mas nem se comparava à angústia de não ter sido contemplado nem aclamado por ninguém no momento da sua conquista e da sua redescoberta da razão. Veio-lhe a última réstia de esperança quando pensou que, se ele próprio sobrevivera a uma volta ao Mundo, então com grande probabilidade o seu irmão gémeo também estaria vivo e nele encontraria o melhor espectador e confirmador do seu triunfo. Mas quando irrompeu pela sua casa e o encontrou no mesmo estado catatónico em que o tinha deixado, deu um grito de terror pois logo percebeu que a única pessoa no Mundo que agora lhe podia devolver e reconhecer a razão, era aquela a quem ele próprio tinha destruído a capacidade para tal no ímpeto de lhe querer mostrar essa mesma razão. E então ajoelhou-se aos pés do irmão e explodiu num pranto compulsivo pela ironia cruel do seu destino: um dia perdera a razão e fora procurá-la, e agora que julgava tê-la encontrado perdera-a para sempre.