Estabilidade não se impõe, é preciso ganhá-la através do mérito

Presidente Godinho Lopes,

Escrevo esta carta numa altura em que o senhor tem vindo a apelar constantemente à união e à estabilidade dentro do clube para, segundo diz, possibilitar a busca de soluções para recuperar o Sporting.

Nesse sentido eu gostava que fizesse apenas o pequeno exercício de se colocar na pele dos sócios (os que votaram em si e os que votaram em outros candidatos) e adeptos e sentir o que é que eles têm passado (só) neste último ano e meio.

Antes de mais, permita-me analisar o projecto que levou às urnas, ver o que é que foi efectivamente cumprido e o que ficou por cumprir:

Programa

«Honrar é ganhar»

Projecto global:

O futebol é o elemento central da estratégia do clube, para o qual os esforços e recursos de gestão deverão ser predominantemente direccionados;
A formação é a raiz e base da equipa. Potenciar os talentos da Academia;
Gestão profissional das modalidades mais emblemáticas, de modo a tornarem-se auto-sustentáveis;
Dotar o Sporting de um pavilhão, com capacidade para cerca de 3000 espectadores, destinado à formação de atletas, treinos e jogos das modalidades de alto rendimento. Requalificar o Pavilhão Multidesportivo;
Mais núcleos e com um papel mais activo

Projecto financeiro:

Fundo de 15 milhões de euros que já está em andamento;
Novo contrato de 20 anos para a bomba de gasolina junto ao estádio e cujo contrato termina em 2013;
Forte investimento no Sporting, nomeadamente na equipa profissional de futebol, depois de assegurados os recursos humanos e financeiros necessários

Projecto para o futebol:

Contratação de uma equipa técnica de reconhecida competência e determinação para liderar o futebol profissional;
Contratação de jogadores de referência mundial;
Constituição de uma estrutura profissional de gestão e direcção do departamento de futebol;
Criação de um departamento de scouting;
Potenciar a capacidade geradora de talentos da Academia;
Criação a muito curto prazo de uma equipa B ou de uma equipa satélite

Comecemos pelo projecto global:

Na altura , o presidente Godinho Lopes acreditava que “o futebol é o elemento central da estratégia do clube, para o qual os esforços e recursos de gestão deverão ser predominantemente direccionados”.

Um ano e meio depois, o presidente Godinho Lopes afinal diz que "o futebol faz parte do conforto necessário dos adeptos, mas não é a principal referência do Sporting. A principal referência do clube são os sportinguistas” (declarações nas comemorações do 20.º aniversário do Núcleo Sportinguista de Castelo Branco, citado pela Lusa)
http://relvado.sapo.pt/sporting/godinho-lopes-futebol-nao-principal-referencia-sporting-441559

Quando foi eleito, dizia que “a formação é a raiz e base da equipa”, era preciso “potenciar os talentos da Academia”.

E o que é que se fez nesse sentido? Contratou-se três ou quatro jogadores chave, de grande capacidade, para suportar a “prata da casa” que já estava no plantel e os que entretanto subissem à primeira categoria? Não.

Em 2011-2012, o Sporting contratou dois holandeses, Wolfswinkel e Schaars, dois espanhois, Capel e Jeffreen, um búlgaro, Bojinov, dois peruanos, Alberto Rodriguez e Carrillo, dois argentinos, Rinaudo e Ínsua, dois uruguaios, Luís Aguiar e Sebastian Ribas, três brasileiros, Marcelo Boeck, Xandão e Elias, um colombiano, Santiago Arias, um chileno, Diego Rúbio, um francês, Atila Turan, e um americano, Oguchi Onyewu, tudo pela módica quantia de 28 milhões de euros, fora prémios de assinatura.

Em 2012-2013, vieram um marroquino, Zakaria Labyad, um suíço, Gelson Fernandes, um croata, Danijel Pranjic, um holandês, Khalid Boulahrouz, mais dois argentinos, Marcos Rojo e Valentin Viola, que ao todo terão custado entre os 6 e os oito milhões de euros.

E as camadas jovens, “raiz e base da equipa”?

Cumpriu esta temporada a promessa de criar a equipa B, com a possibilidade de competir num patamar com grau de exigência maior, como é a Segunda Liga, com tudo o que de bom isso tem para o crescimento dos nosso jovens jogadores.

No entanto, em termos de dividendos para a equipa A, tirando Rui Patrício, Carriço, Adrien, André Santos e Pereirinha, que não são do seu tempo, o primeiro ano trouxe apenas uma aposta mais efectiva em André Martins, entretanto aparentemente abandonada.

No segundo ano surgiu Cédric Soares, mas só confiaram nele durante os primeiros jogos do campeonato, Tiago Illori, pontualmente, Betinho, em dois ou três jogos, tipo bombeiro, e Eric Dier, um inglês que é central mas tem jogado a lateral direito.

Em sentido contrário, neste ano e meio saíram do clube (pelo menos que eu tenha notado) João Carlos, um júnior vendido ao Liverpool por um milhão de euros, Edgar Ié e Agostinho Cá, para o Barcelona por um valor que nunca foi bem esclarecido, e Rafael Veloso, guarda-redes internacional português, que abandonou Alvalade a custo zero…

Aposta em jovens valores ou estrelas emergentes a nível nacional? O único movimento relevante neste campo, para a equipa A, foi em sentido inverso, a saída de Diogo Salomão e André Santos para o Corunha.

Na equipa B entraram Júlio Alves, Jorge Chula e Kikas, este último uma recuperação.

Contas feitas, num projecto que se queria basear na formação entraram 24 jogadores estrangeiros e da prata da casa, apenas um jogador (André Martins) teve um número suficiente de jogos para se poder minimamente dizer que foi aposta (mais uma vez, recordo, entretanto aparentemente abandonada).

E se tinha a intenção de apostar na formação logo desde início, então como explica estas suas declarações, datadas de 25 de outubro deste ano, à RTP, em que parece que só agora, 18 meses depois, é que descobriu que a formação faz parte do ADN do Sporting?
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=597983&tm=27&layout=122&visual=61

Senhor presidente, é este o seu mérito? É assim que reclama estabilidade?

Outra das ideias chave do seu projecto era assegurar uma “gestão profissional das modalidades mais emblemáticas, de modo a tornarem-se auto-sustentáveis”, e ao mesmo tempo, “dotar o Sporting de um pavilhão, com capacidade para cerca de 3000 espectadores, destinado à formação de atletas, treinos e jogos das modalidades de alto rendimento”, e “requalificar o Pavilhão Multidesportivo”.

Nesse âmbito, enquanto não tinha o seu pavilhão, o Sporting chegou este ano a acordo com a câmara de Odivelas para usufruir por um período de 20 anos de um centro desportivo para as modalidades (eu sei que também é para o futebol de formação, mas aqui vou restringir-me às modalidades) com a garantia ainda de que o basquetebol voltaria esta temporada, o rugby arrancaria para o ano e seria construído um centro de alto rendimento desportivo para o atletismo.

No plano financeiro, o Sporting não paga nada pelo direito de cedência, mas compromete-se a custear as obras de melhoramento necessárias ao bom funcionamento do centro desportivo e ainda a dar à autarquia 50% das receitas vindas do naming das instalações, das transmissões televisivas e da bilheteira.

O protocolo foi assinado em Agosto de 2012, o prazo para iniciar as obras de melhoramento era de três meses e o fim de 24 meses, no entanto já chegámos a Dezembro e ainda não há luz verde para arrancar com nada.

Senhor presidente, é este o seu mérito? É assim que reclama estabilidade?

O último ponto do seu projecto, em termos gerais, era a criação de “mais núcleos” do Sporting, “com um papel mais activo”

Neste campo, é verdade que Godinho Lopes e seus representantes têm passado por muitos núcleos, mas a criação de novos núcleos não tem sido significativa.

Por outro lado, verifica-se uma preocupante discriminação de determinados núcleos em favor de outros, ao mesmo tempo que têm surgido tentativas de instrumentalizar os núcleos para passar à opinião pública uma ideia de apoio à direcção que está longe de ser verdadeira.

Exemplo disso mesmo foram os núcleos sportinguistas de Paço D’Arcos e de Viana do Alentejo, que confrontados com notícias de jornais que davam conta do seu apoio à direcção de Godinho Lopes, prontamente as vieram desmentir.

O presidente do núcleo sportinguista de Aveiro, Tiago Marques, disse mesmo que “os núcleos devem ser tratados todos por igual”, mesmo quando apontam para uma situação “onde não há gestão, nem liderança rigorosa”.

Senhor presidente, ainda considera que tem mérito? Que merece estabilidade?

Então vamos passar para o projecto financeiro, onde apesar da situação económica catastrófica do Sporting, o senhor prometeu “um forte investimento, nomeadamente na equipa profissional, depois de assegurados os recursos humanos e financeiros necessários”.

É indesmentível que foi mesmo um forte investimento, tão forte que em ano e meio gastou entre 70 e 130 milhões de euros (os números também não são muito claros) na compra de passes de jogadores, em prémios de assinatura, em comissões para terceiros, em rescisões de contratos, quer de jogadores quer de treinadores.

Olhando para aquilo que o Sporting (não) conquistou ou já comprometeu nestas últimas duas temporadas, quer em termos desportivos quer em termos de futuro económico, com um aumento brutal do passivo, acha que merece continuar à frente do Sporting. Chama a isto competência?

Depois olhemos também para a situação daqueles que são hoje os (únicos) activos do clube, os jogadores? Investir fortemente no Sporting é alienar mais de 80 por cento dos passes do plantel sénior a fundos que ninguém sabe muito bem de onde vieram e de quem são? Uma situação que começa a passar-se também com muitos jogadores da equipa B e dos juniores?
Então, investir no Sporting é fazer com que os direitos económicos de um jogador deixem de ser totalmente do Sporting ainda antes dele chegar à equipa A. Não goze com os sportinguistas!!!

E que dizer do “projecto para o futebol”?

“Contratação de uma equipa técnica de reconhecida competência e determinação para liderar o futebol profissional”

Se, como disse, “o ADN do Sporting é a formação”, porque é que começou por contratar um treinador como o Domingos, ainda por cima uma das grandes referências do rival Porto, que estava na memória dos sportinguistas mas não pelos melhores motivos? Foi por ser o “treinador da moda”?, foi por ter trabalhado na equipa B do Porto?, foi pela sua (reconhecida?) capacidade de potenciar e lançar novos talentos?

E se Domingos era um dos três pilares do seu projecto para o futebol (aos outros dois já lá vamos), porque é que o abandonou tão depressa? Porque é que num dia disse que Domingos iria continuar e logo a seguir o despediu? http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=2300149

Continuando na senda dos treinadores, como é que foi possível renovar o contrato de Sá Pinto depois de, objetivamente, ter falhado a poule de apuramento para a champions, o acesso à final da Liga Europa e a conquista da Taça de Portugal, às mãos da Académica?
Depois de ter colocado o Sporting a jogar com um modelo de equipa pequena, compacta lá atrás e apostando no contra-ataque?
Para si, aparentemente foram bons serviços, porque depressa tratou de renovar o contrato do Sá Pinto… para agora o despedir também.

Para um presidente consciente da situação financeira do clube, é óbvio que não faz mal nenhum estar a pagar ordenados a vários treinadores entretanto despedidos, não…

“Contratação de jogadores de referência mundial”

Se recuarmos um pouco no texto e olharmos para os nomes contratados nestes últimos 18 meses, quantos deles é que encaixam neste perfil? E já agora, o que é que entende como “referência mundial”?

É por estarem pontualmente nas suas selecções ou é porque são efectivamente jogadores habituados ao sucesso, que podem transmitir aos mais novos toda a sua experiência?

É preciso não confundir “referência” com “decadência”, senhor presidente, como os resultados tão bem têm demonstrado. Por outro lado, os jogadores contratados têm uma média de idades de 23, 24 anos anos, que exemplos podem dar aos mais novos?

“Constituição de uma estrutura profissional de gestão e direcção do departamento de futebol”

Bem, mesmo não ninguém soubesse a quantidade de asneiras que Luís Duque e Carlos Freitas fizeram, quer no passado quer nos últimos 18 meses, basta ver que a sua competência era tão grande que o senhor já os despediu.
Mas entremos um pouco dentro da política de contratações:

  • Porquê gastar quase nove milhões de euros num jogador como o Elias, que ainda por cima foi tão prontamente despachado pelo Atlético, quando já havia excesso de médios e faltavam, isso sim, avançados que fizessem verdadeiramente concorrência ao Wolfswinkel?

Quer um exemplo de borla de um leigo na matéria? A verba paga ao clube madrileno (grandes negócios que têm feito connosco e ninguém aprende…) dava para comprar o passe de jogadores como Dirk Kuyt, que este ano foi para o Fenerbahçe por apenas 1 milhão de euros, de Michu, que foi para o Swansea por 3 milhões de euros, de Arouna Koné, que foi para o Wigan por 3,8 milhões de euros, de Bas Doost, do Heerenveen, que foi para o Wolfsburgo por 7 milhões, de Derdiyok, que foi para o Hoffenheim por 5,5 milhões de euros, de Artem Rudnev, que foi para o Hamburgo por 3,5 milhões de euros, de Ciro Immobile, que foi para o Génova por quatro milhões de euros, de Tim Matavz, que foi para o PSV por cinco milhões de euros, ou de Dries Mertens, extremo habilidoso, garantia de muitas assistências para golo, colega de Wolfswinkel que se entendia às mil maravilhas com ele no Ultrecht, e que custou ao PSV 8,5 milhões de euros.

Ainda dentro da tal “estrutura profissional de gestão” do futebol, o presidente precisa de explicar aos sócios o que é que o actual elenco, encabeçado por si, pelo advogado Paulo Farinha Alves e por Pedro Cunha Ferreira, este na área da formação, tem de experiência na gestão dos recursos humanos de um clube de futebol? Que obra é que já conseguiu fazer neste desporto para ser elegível para o efeito? Posso mandar também o meu currículo?

“Criação de um departamento de scouting”

Esta parte não percebi, pensava que o Sporting já tinha um. Mas se criaram um de propósito para o efeito, é preciso ter a coragem de assumir que não tem trabalhado lá muito bem.

“Potenciar a capacidade geradora de talentos da Academia” e “criação a muito curto prazo de uma equipa B ou de uma equipa satélite”.

Penso que estes dois pontos já foram sobejamente abordados, resta saber que caminho será apresentado aos novos excelentes jogadores da Segunda Liga, se a integração e aproveitamento ou a desintegração e o desbaratamento.

Quanto tempo mais vai ser necessário para o presidente admitir que simplesmente não consegue navegar o barco? Da sua equipa inicial, do seu núcleo duro, praticamente todos já saíram. Pelo bem do clube, não adie o inevitável e permita a quem também gosta do clube assegurar o seu futuro.

Peço a todos os meus colegas do fórum que acrescentem a este texto informações que eu eventualmente não tenha posto ou corrijam aquelas que (por lapso) não coloquei tão bem.

Eu vou depois imprimir esta carta e entrega-la a todos os sócios e adeptos que forem ao jogo com o Nacional, no próximo dia 16 de dezembro. Se é preciso isto para abrirem os olhos, então vou fazê-lo.

Convido também os colegas do Fórum (quem puder) a juntarem-se a mim para uma manifestação pacífica nesse dia, no exterior do estádio, apenas com cartazes com palavras de ordem à volta da temática inicial deste texto: Estabilidade não se impõe, é preciso ganhá-la através do mérito – vamos todos usar a nossa criatividade.

Consoante a adesão do Fórum e de outros sócios e adeptos que entretanto consigamos juntar, irei continuar com esta acção ao longo de mais alguns jogos em casa.

Saudações leoninas a todos

Grande post!

De relembrar que GL em altura de eleições, prometeu que o treinador seria de escola italiana, espanhola ou holandesa.
Aquando da apresentação de Domingos Paciência, afirmou que este que era a sua 1a escolha.

Já que é para ser enviado, convém reunir o máximo de informação sobre este miserável ano e meio.

Estás a ser desonesto :inde:

O Domingos passou dois anos no Tenerife, logo é de escola espanhola :angel:

Estabilidade não se impõe, é preciso ganhá-la através do mérito

É uma grande verdade, mais acrescento, é preciso trabalhar-se nesse sentido, que é algo que não cai do céu. Seja num clube de futebol ou nas vidas privadas de cada um.

Quanto ao texto, nada me ocorre para o melhorar. Para já.

Já agora, quanto aos núcleos.

http://www.sporting.pt/Noticias/Clube/notclube_clubepereiraecoimbraverde_021212_102802.asp

Estão a conseguir dividir o clube todo.

É isto que a direcção quer, atirar areia aos olhos dos sportinguistas com festas e elogios comprados. Mas uma direcção que, para ganhar consegue fazer aparecer, por artes mágicas, mais 400 votos, como dizia o José Eduardo há dias na Bola TV, é capaz de fazer tudo.
Por isso é que é preciso agir e retirar as palas dos olhos dos sócios e adeptos.