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“Era muito difícil sermos campeões”
A poucos dias de se apresentar em Alcochete, o defesa leonino, como é seu timbre, diz o que pensa sobre os mais variados temas, sem nunca fugir às perguntas, por muito complicadas que elas sejam. Ao contrário do que defende Paulo Bento, Abel insiste em dizer que o título foi perdido na Luz, mas acaba por admitir que o FC Porto foi um justo vencedor da Liga 2006/2007.
As recentes afirmações de Fernando Santos, a saída de Nani para o Manchester United e a constante discussão sobre o número de clubes da Liga foram ainda alvo de conversa entre Abel e o Sportugal.
Qual é o balanço que faz da época transacta?
Não foi uma época excelente, mas acabou por ser positiva, pois entrámos pela segunda vez consecutiva na Liga dos Campeões – algo inédito na história do clube –, e acabámos por vencer um troféu.
Quais as expectativas para a próxima época?
Os objectivos do Sporting traduzem-se sempre em lutar por títulos. Neste caso, vai haver mais uma competição, a Taça da Liga, e não tenho dúvidas, juntamente à Liga dos Campeões, que queremos triunfar nas três competições ‘obrigatórias’ (Taça de Portugal, Liga e Taça da Liga).
Como é que foi perder o campeonato para o FC Porto, numa luta até aos últimos minutos?
Depois de termos estado muito longe do FC Porto, logicamente que vimos ali uma ponta de esperança, mas não mais do que isso. Sabíamos que era extremamente difícil sermos campeões. O FC Porto jogava em casa com o Desp. Aves na última jornada, não dependíamos de nós, mas cumprimos a nossa obrigação. Tentámos fazer tudo, ganhar os jogos até final, mas o FC Porto aguentou a pressão e foi um justo vencedor. Acabámos por contribuir para um emocionante fim de campeonato, onde também poderíamos ter sido campeões.
Qual foi, para si, o momento crucial que ditou a derrota do Sporting na Liga?
Em contextos diferentes, durante a época, houve dois empates com adversários que desceram de divisão. Isso foi determinante. Na parte final do campeonato, o jogo com o Benfica foi decisivo porque, se temos vencido esse jogo, o desfecho seria outro. Era um jogo-chave em função do momento, a três jornadas do fim, era extremamente importante vencer na Luz.
Em termos pessoais, fez um grande final de temporada, mas passou muito tempo no banco, quando não existia mais nenhum lateral-direito de raiz no plantel. Consegue explicar o porquê de ter ficado de fora tanto tempo?
A única justificação que encontro tem a ver com a opção do treinador. Depois, há sempre a irregularidade do jogador ou o poder estar em baixo de forma, mas comigo não se passou isso. Simplesmente, houve uma razão porque não joguei e foi única e exclusivamente por opção do treinador. A partir do momento em que me pôs a jogar, penso que dei a resposta que devia e que dei sempre. Não encontro uma justificação, a não ser essa, de não ter sido opção regular, porque só jogava de mês a mês. Logicamente que, para ganhar ritmo de jogo e confiança, só conheço uma forma, que é jogar. Não fui opção, mas sentia que tinha valor e qualidade para jogar na equipa do Sporting.
Não é de esperar que o Sporting contrate mais um lateral-direito. É sinal de que Paulo Bento confia em si?
Não me compete a mim julgar se é preciso reforçar o lado direito da defesa. O que me interessa é treinar bem, estar bem, porque só me preocupando e estando concentrado naquilo que tenho de fazer é que consigo dar o máximo. Se perder tempo a pensar se vêm mais um ou dois laterais, vou perder a concentração no meu trabalho e o meu rendimento não será o mesmo. É normal que haja dois jogadores para cada lugar, sempre foi assim, e olhando à versatilidade do plantel, há jogadores que podem ocupar essa posição.
Com a renovação de Paulo Bento, o Sporting quer dar um exemplo de continuidade e de aposta no mesmo treinador durante muitos anos. Acha isso positivo?
Quando as coisas não funcionam bem, é lógico que é mais fácil trocar um, do que 13 ou 14. Quando há competência – e neste caso há –, acho que a aposta na continuidade é o maior factor de estabilidade e organização e que aumenta as probabilidades de êxito. Se um plantel mantiver a estrutura-base e o treinador, que vai passando a filosofia aos jogadores, ainda para mais o Paulo Bento – que conhece a realidade da casa, foi jogador, reúne o consenso da massa associativa, independentemente das coisas correrem bem ou mal. Tem-se visto, neste curto espaço de tempo, que o Paulo Bento é treinador e conseguiu, de certa forma, fazer história no Sporting.
Nos últimos anos, tem-se assistido a uma debandada dos ‘capitães’ do Sporting, como por exemplo Pedro Barbosa, Sá Pinto, Beto ou Custódio. Acha que falta uma voz de comando no balneário?
Eu tenho uma opinião muito radical em relação a isso. Para mim, a referência tem de ser sempre a instituição, o Sporting, que tem um lema. Seja A, B ou C que enverga a braçadeira, terá de ser respeitado como os outros. Não vejo que, por ser ‘capitão’, possa ter mais ou menos privilégios. Não acho que, por exemplo, o caso do Vítor Baía possa ser a união num grupo com vinte e tal jogadores. Terá de haver carácter de cada um, o líder será sempre o treinador e, acima de tudo, a instituição. É um facto que as referências – embora para mim a referência seja o clube – têm saído do Sporting, mas são simples coincidências. Tenho uma amizade enorme pelo Custódio, mas há alturas na vida que temos de seguir outro caminho, foi isso que ele fez, mas as pessoas passam e o clube fica. Na minha opinião, o ‘capitão’ é apenas o porta-voz do grupo e, por si só, não decide nada. Às vezes adquire-se um estatuto, quase de mito, e diz-se que o ‘capitão’ é que manda; então, se fosse assim, tirava-se o treinador e o ‘capitão’ resolvia a situação. Eu não vejo as coisas assim.
Conhece os reforços confirmados para o Sporting?
Tenho lido a imprensa, mas foi a primeira vez que ouvi esses nomes. Sei que jogaram na selecção, ainda bem, mas se estão referenciados temos de acreditar que os responsáveis que estão à frente do clube vão olhar pelos interesses do mesmo. Espero que a palavra “reforço” possa encaixar em cada um deles.
O que é que ambiciona da sua carreira, no futuro?
Ainda há algumas coisas para preencher a minha carreira. Quero ter uma aventura no estrangeiro, sempre disse isso, e tenho a certeza que a vou ter. Um sonho meu é representar a nossa selecção e vou lutar por isso enquanto tiver forças. E também conquistar um campeonato português, porque não? O primeiro título que consegui como profissional de futebol aconteceu este ano.