Mais importante do que esmifrar os facto para suporte de algumas tendências políticas (alterações climáticas), numa óptica de protecção civil interessava-me analisar alguns pontos…
O que está a acontecer em Santarém, Porto, Gaia, Montemor, etc… sendo certo que é com gravidade especial, acaba por ser “fruta da época”. Não é por acaso que chegam imagens da Ribeira de Santarém, da Ribeira do Porto, da RIbeira de Gaia e por aí fora. Aquilo já eram ribeiras antes de lá haver construção e eram ribeiras porque quando o leito do rio era insuficiente para a água a escoar, a água invadia essas zonas - tal como está a acontecer agora.
O grande “problema” é haver protecção civil e seguros, portanto o Estado acode como pode, os seguros pagam os estragos e as coisas ficam na mesma durante 10 ou 20 anos até isto se repetir novamente.
Portanto, todas as zonas actualmente inundadas com água pelos joelho parece-me que são zonas historicamente propícias a cheias (quem não conhece Ereira auqi na zona?) até os locais estão culturalmente adaptados a esta situações. Este momento particularmente difícil, tal como outros no passado, também ele há-de passar.
Pior mesmo é a situação de Alcácer do Sal, porque por algum motivo quando os outros ainda não tinham água pelos joelhos, já eles tinham água pelo pescoço numa zona bastante alargada da cidade.
É preciso perceber o que falhou em Alcácer, porque me parece algo mais assimétrico e estrutural, com a agravante de não haver desculpa das descargas das barragens espanholas. Choveu mais no Alentejo? Cedeu algum dique local? O leito do rio estava assoreado? O que é que temos em Alcácer que originou tão particular gravidade que - felizmente - ainda não tem paralelo no resto do país?
Mas o mais grave de tudo é a mediatização do espectáculo. A CS já anda de fita na mão a er quantos centímetros encheu nas diversas ribeiras do país, vejo pessoas a pedir alojamento aos presentes da CM e PM, ”nem que seja um quarto de hotel”, como ouvi hoje na tv, ao mesmo tempo que em Leiria continuam pessoas sem água, luz e telefones. Leiria parece que é “yesterday’s news” e Leiria ainda é, pelo menos para mim, “A” catástrofe com que ainda não lidámos adequadamente. Bem sei que de repente tivemos que nos dispersar por todo o país - e bem - mas vai ser difícil que as cheias provoquem em todo o país o mesmo dano, material e humano, que a Kristin provocou em Leiria. Andamos a empolar cenários de protecção civil, sim, mas comuns para a época, com cenários brutalmente atípicos, absolutamente destrutivos, e que me parece que já perderam alguma da atenção e cuidado que ainda deveriam ter.
Sendo muito frio, se não houvesse protecção civil, melhor ou pior, e se não houvesse seguros, a coisa resolvia-se bem porque as pessoas deixavam de construir e investir em locais particularmente expostos aos elementos. Por muito frio e imprativcável que isto seja, não tenham dúvidas que ficava resolvido em 2 gerações o problema da impermeabilização dos solos em zonas inundáveis: não havendo quem acuda, as pessoas deixam de arriscar, é a natureza humana a funcionar.
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Pior ainda é ter pesudo-especialistas da pixota a comentar a toda a hora em todo o lado. Hoje falava um gajo que queria meter coberturas verdes em toda a cidade para acabar com as cheias.
Certo, impecável, e se eu gostar de telhados? Não posso. Mais, o solo junto à terra está completamente saturado, portanto que merda vai fazer, ao fim de dois dias a chover, uma camada de terra com 30 a 40 cms de terra, que depois de estar saturada já nada consegue reter, apenas tem um pequeno delay nos tempos de acesso à rede de drenagem?
Não estou a dizer que isto não ajude, mas não resolve, porque ao fim de alguns dias a água que chega é superior à água que conseguimos gerir, é o problema das barragens.
Eu fiz um pequeno poço roto na minha casa, para onde encaminho as águas da chuva, aquilo ainda me leva uns metros cúbicos, mas já tive que lhe tirar a tampa porque está cheio… ou seja, a água que chega ao poço é superior à água que a terra consegue absorver, portanto a diferença vai sair por cima e alguma vai para as rigueiras e rios mais próximos.
Será necessária uma abordagem holística, não é só com coberturas verdes, nem só com bacias de retenção, nem só no privado e nem só no público, e ainda assim com esta precipitação, parte destes eventos continuará a acontecer. Mas pode ser mitigável, agora não acredito é que vão resolver alguma coisa com uma solução milagrosa.