Campeão por Encomenda - Artigo de Rui Santos

Campeão por encomenda Luís Filipe Vieira foi dizendo que sim a tudo, mesmo com o presidente do Sporting a reconhecer que o Benfica controlava a parte institucional da arbitragem

1 – OS MÉRITOS DE TRAPATTONI

A velhíssima raposa consegue o título na sua primeira e provavelmente única época no futebol português. O desiderato assume tamanha relevância porque o treinador italiano liderou uma equipa que já não obtinha o troféu máximo da competição indígena há 11 longos anos. Pelo caminho ficaram muitas promessas de êxito. Ficaram muitos treinadores, jogadores e até directores. Não se deve escamotear o trabalho que ficou para trás. Seria injusto não referir o trabalho de Camacho, mas foi o italiano e não o espanhol que se sagrou vencedor. Com a base que herdou do ano anterior e com o seu pragmatismo.

Trapattoni tinha ovos para fazer a omeleta. Tinha ovos e algumas cascas de ovo e, sem outros ingredientes, não se podia fazer, por exemplo, omeleta de lagosta. Não se pôr a inventar (na cozinha) foi o seu maior mérito. Percebeu os jogadores que tinha, os que não tinha, os que tinha mas não tinha e, depois de feito o diagnóstico, definiu muito bem a forma de os colocar em campo. Um geómetra perante a geometria não pode deixar de ser draconiano. Trapattoni fechou a cara, vestiu o seu fato cinzento, colocou-se no banco numa das suas posições de marca como se tentasse avistar a chegada dos índios e murmurava sozinho. Às vezes, de tanto açoitar os suplentes, dava a sensação que o jogo estava no banco e não nas quatro linhas. Era irritante aquele seu conservadorismo? Sem dúvida! Era desesperante aquela maneira de encarar as substituições, tipo tira um prato sujo e põe um prato lavado? Sem dúvida! Mas (bem) fica a convicção de que, se Trapattoni tem optado por mexer muito num edifício de pilares pouco sólidos, a casa teria vindo abaixo.

2 – O MARTIM MONIZ DO BENFICA

O italiano contou sempre com um apoio incontornável: o de José Veiga, o homem que o levou para o Benfica e que, no final do jogo com o Sporting, exultava de contentamento. Normal e compreensível. Afinal, José Veiga tinha prometido a si próprio, aos adeptos e a outros responsáveis do Benfica que, com ele, a águia voltaria a voar rumo ao título. Veiga tinha, de resto, contas a ajustar com Pinto da Costa e esse era também um grande desafio. Derrotar o FC Porto campeão europeu; abrir uma brecha no clube e na organização que tinham conquistado para si próprio a hegemonia e o controlo do futebol português. José Veiga sabia que, depois de consumada a saída de José Mourinho – o grande artífice das últimas vitórias no Dragão – a sua tarefa poderia tornar-se mais facilitada. Não esperava era que, dentro do próprio Benfica, com apoios externos (oriundos do Sporting e até do FC Porto), o colocassem numa situação extremamente delicada. José Veiga foi uma espécie de Martim Moniz do Benfica. Por outras palavras: entalaram-no!

Outros valores, naturalmente, se levantaram quando se entende que foi o presidente dos encarnados quem puxou o tapete a José Veiga, deixando que Jorge Mendes aterrasse o seu jacto particular, as vezes que quisesse, no aeródromo da Luz. Veiga ficou sem espaço de manobra (com António Carraça a ser promovido nas suas costas) e a única coisa que pôde fazer, até ao fim, foi selar a cabina e dar todo o apoio a Trapattoni. Por isso, porque foi uma luta contra tudo e contra todos, esta é uma vitória que sabe muito bem a José Veiga. Porque ele foi um sistema dentro do próprio sistema!

3 – A ESTRATÉGIA DE VIEIRA

Ninguém fala do passivo consolidado do Benfica (cerca de 375 milhões de euros) nem que, do ponto de vista dos capitais próprios, os activos não chegam para pagar o passivo. A diferença (pela negativa) é de 59 milhões de euros. E do ano passado para este ano o aumento do passivo foi de 50 milhões. Mas, no fundo, o que interessa a realidade económico-financeira do Benfica na hora da euforia?

É importante reconhecer que Luís Filipe Vieira (LFV) conseguiu, em muitos momentos, baixar a pressão sobre o Benfica e beneficiar com isso. Quando as divergências com José Veiga passaram a ser discutidas na praça pública, o presidente dos encarnados teve o bom senso de não as exponenciar.

Quando LFV verificou as fragilidades do FC Porto e compreendeu que o maior perigo poderia advir do seu vizinho da Segunda Circular, apostou na táctica de amansamento da fera. O Manifesto serviu, acima de tudo, para gerir as boas maneiras dos dirigentes sportinguistas. Vieira foi dizendo que sim a tudo, mesmo com o presidente do Sporting a reconhecer que o Benfica controlava a parte institucional da arbitragem.

Vieira foi brilhante e foi muito hábil na manipulação de certos órgãos de comunicação social, que lhe fizeram a propaganda e lhe corrigiram os erros de português.

4 – A INVESTIGAÇÃO APITO DOURADO

O sector da arbitragem mexeu. Havia um clima de medo e reverência ao FC Porto, em razão de técnicas (de intimidação) utilizadas no passado, que estava a ser posto em causa. Em caso de dúvida, houve uma mudança de comportamento. O maior número de derrotas registadas em casa do FC Porto resultaram não apenas das debilidades demonstradas pela equipa portista mas também dessa mudança de comportamento dos árbitros.

5 – UMA LIGA FRACA

O Benfica chegou ao fim da SuperLiga com uma equipa muito fraca, que raramente jogou futebol convincente. A verdade é que ninguém mereceria ganhar este campeonato, que fica na história não exactamente pelos melhores motivos.

6 – UMA LIGA LEAL

Filipe Vieira disse uma frase que vai ficar na memória de todos nós: “Mais vale ter alguém na Liga do que contratar jogadores”. Valeu. A realização do Estoril-Benfica no Algarve foi uma deslealdade.

7 – UMA EQUIPA FRACA MAS HUMILDE

Qualidades do Benfica? Frieza, pragmatismo, muita humildade.

8 – GANHAR SEM REFORÇOS

O Benfica anunciou grandes reforços mas nem reforços vieram. Não fizeram falta.

9 – A DERRAPAGEM DO FC PORTO

A saída de Mourinho para o Chelsea foi uma grande ajuda.

10 – A INGENUIDADE DO SPORTING

O Sporting foi no engodo do Benfica e, manifestamente, perdeu o campeonato.

11 – A INFLUÊNCIA DA BANCA

Os entendimentos da banca, porventura com os mesmos interlocutores e seguramente com os mesmos interesses, acabou por favorecer os encarnados. A estória do pai, do filho e do… espírito santo. Foi quase um campeão por encomenda.

O Benfica foi campeão porque…

…Trapattoni não inventou.
…José Veiga esteve contra tudo e todos.
…Simão foi uma presença permanente.
…Manuel Fernandes foi o foco da qualidade.
…Luisão marcou um golo crucial.
…Mantorras foi um reforço inesperado.
…Cunha Leal funcionou como bandeira na Liga.
…Luís Guilherme nomeou bem.
…Dias da Cunha fez um manifesto mortal.
…O Estoril alinhou.
…Sokota não fez falta.
…Pinto da Costa desfez a sua equipa.
…José Couceiro falhou na reconstrução.
…Peseiro errou a mais com o melhor plantel.
…Jorge Mendes desmantelou o FC Porto.
…Liedson expulsou-se antes do derby
…Vale e Azevedo ainda incomoda.
…Nuno Assis foi vital quando chegou.
…Dias Ferreira foi a voz mais incómoda.
…Soares Franco validou o título.
…a FPF assistiu a tudo impávida e serena.
…a Liga foi injusta, desigual e parcial.

http://www.record.pt/noticia.asp?id=675094&idCanal=124

já postado…

http://www.sportingcp.artinova.pt/viewtopic.php?t=1664

Olha lá…achas que é o mesmo artigo??? Ora vê lá bem…

Olha lá...achas que é o mesmo artigo??? Ora vê lá bem..

O inicial não é, mas nessa discussão acaba por aparecer uma referência a este artigo, que acaba também por ser discutido.

Olha lá...achas que é o mesmo artigo??? Ora vê lá bem..

Ok! Qual vírgula é diferente?