Um bom artigo de Rui Santos que saiu no CM… uma primeira parte sobre os burgessos onde são ditas várias verdades e uma segunda sobre o sporting…
"[i]O cartão (Benfica) ou a vida!
O líder do Benfica deve convocar Sócrates e dizer-lhe que o segredo está no cartão. O cartão vai salvar os benfiquistas. O cartão pode salvar os portugueses. Basta ameaçar com o abandono que correm todos atrás do cartão.
Há pessoas na vida a quem não deveríamos passar cartão mas há circunstâncias nestes nossos ‘pequeníssimos mundos’ que nos colocam, sem querermos, no caminho de certas aventesmas.
Houve um tempo em que o cartão de visita era indispensável. Porque era chique e porque era das poucas formas de passarmos a nossa importância para os outros. Fulano de tal, empresário. O nome e o poder. Mas o cartão de visita entrou um pouco em desuso com a aparição de outros cartões, principalmente o cartão de crédito. A exibição do cartão de crédito, sobretudo o dourado, também tem lá o nome e a cor é a projecção do estatuto. Hoje por hoje, os cartões de crédito misturam-se nas carteiras ou nos bolsos com todo o tipo de cartões, até aqueles que nos dão quando abastecemos os nossos veículos automóveis nos postos de abastecimento de gasolina. Vivemos na era do cartão. Cartão para isto, cartão para aquilo, só a IURD praticamente ainda não institucionalizou a utilização do cartão para pagamento do dízimo. Compreende-se: não dá muito jeito, não é prático e a informatização das igrejas universais iria subverter o princípio da salvação do espírito e do corpo, para além do execesso de ruído que provoca a desinstalação do demónio do complexo circuito cerebral de alguns seres humanos.
O impante presidente do Benfica foi na quinta-feira à TVI dizer que, se o cartão não for o sucesso que pretende, abandonará o clube. Sabem os leitores que, desde que entrou na Luz, o presidente dos ‘encarnados’ nunca parou de ameaçar a saída. Tudo foi motivo para poder sair. O cartão a que o presidente se refere é uma forma de tentar multiplicar o número de sócios do Benfica e, com ele, aumentar os proventos, através de supostos benefícios. A implementação do cartão já era para ter sido mas não foi, provavelmente à espera de melhor oportunidade.
Diz o povo que a ocasião faz o ladrão. E, apesar dos 6,83% de défice, dos gritos dos economistas, dos teoremas sobre o grau de responsabilização deste ou daquele (primeiro) ministro para esta situação dramática que se vive, a partir da qual já se fala na falência do regime, do aumento dos impostos, das famílias portuguesas estarem cada vez mais endividadas, apesar disso, dizia, o presidente do Benfica afirma que se vai embora se o cartão não for um sucesso. O presidente olha para este ‘tsunami vermelho’ que se levantou após a conquista do campeonato e voltou a fazer contas. Basta atingirmos o meio milhão de sócios, dizermos-lhes que têm todas as vantagens em adquirir o cartão, que lhes dá descontos no talho e na charcutaria, permite-lhes pagar menos prestação no crédito à habitação, comprar dois sapatos ao preço de um, ser atendido sem demoras nos hospitais ou até mesmo em clínicas privadas, consumir água e electricidade sem custos e assistir a TODOS os jogos do Benfica, nacionais e internacionais, sem pagar um euro!
O título era a droga necessária para ‘pedrar’ o povo e levá-lo a fazer tudo o que o presidente manda. O chefe diz: não leias aquele jornal. O povo obedece. O chefe diz: Fonseca Santos voltou a ser meu amigo. O povo acredita. O chefe diz: só pus o Mendes no caminho do Veiga para motivar o Veiga. O povo agradece. O presidente acha, como Erasmo, que o povo é (apenas) uma enorme e possante besta. O presidente, de tanto ler, inspirou-se certamente em Voltaire: convém que o povo seja guiado e não que ele seja instruído. E se é verdade que as televisões exponenciam a besta que cada ser humano tem alojada dentro de si próprio, ao ponto de se ter banalizado a amplificação do palavrão, seja ao fim da tarde ou de madrugada, com bolinha vermelha no ecrã ou sem ela, ainda devemos perceber o motivo pelo qual Napoleão defendia que a boa política é aquela que convence os povos de que são livres; o presidente do Benfica não entende, ao contrário, que só é digno da liberdade aquele que se empenha em conquistá-la.
O presidente do Benfica não ama a liberdade. Quer que todos sejam escravos dele. E ameaça. E mente. E confunde. Convencido que um título de futebol o torna numa grande cabeça. Errado: um título de futebol corresponde a um somatório de factos e, em última análise, no seu caso ou no de outro qualquer, esses factos até podem ter-lhe escapado entre os dedos. Um verdadeiro campeão é aquele que aceita a diferença. Não convencido disso, o presidente do Benfica deve convocar José Sócrates e dizer-lhe que o segredo está no cartão. O cartão vai salvar os benfiquistas. O cartão pode salvar os portugueses. Basta ameaçar com o abandono que vai tudo a correr atrás do cartão.
SPORTING PRECISA DE ELEIÇÕES
O Sporting vive um momento que muitos outros clubes vivem ou já viveram mas, em todo o caso, é indesejável.
Há quem ache que o Sporting, por ter quase conseguido ganhar o campeonato e quase conseguido ganhar a Taça UEFA, fez uma época notável.
Não estou de acordo e nem sequer o facto de ganhar, ou não, é relevante. A questão é a forma como perdeu e a forma como aceitou e aceita, internamente, a derrota.
Para além do facto de Dias da Cunha ter falado quando deveria estar calado e ter estado calado quando deveria ter falado, errando rotundamente na estratégia de comunicação, só pode ter a noção do dever cumprido em Alvalade quem achou que aquele grupo de jogadores, do ponto de vista potencial, não valia nada. Não é essa, como se sabe, a minha opinião.
Dias da Cunha merece-me todo o respeito, até pelos contributos que deu no sentido de não consentir que o futebol funcione como uma seita. Em última análise terá sempre uma palavra a dizer, enquanto quiser, no futuro do futebol português. Mas as últimas decisões do presidente do Sporting tiraram-me a dúvida essencial: a sua utilidade passou a ser apenas relativa. Se um presidente passa toda a época a questionar a arbitragem e é literalmente atropelado pelo seu sistema e de quem o alimenta, tem a oportunidade de questionar tudo e fica a meio caminho, isso quer dizer que as suas dependências não o deixam cumprir aquilo que, eventualmente, gostaria de fazer. Dias da Cunha tornou-se refém de quem não devia e colocou o Sporting numa posição extremamente delicada. A meio da ponte, com o caminho todo minado.
A demissão de Carlos Freitas fez com que a SAD do Sporting reforçasse os poderes de José Peseiro. Fez o mais fácil, o mais cómodo e o mais barato. Com a saída de Freitas, quem poderia assumir o futebol? Especialistas em ténis? Especialistas em golfe? A desfutebolização do Sporting, em certo sentido, é um perigo. Peseiro não compreende que esse reforço de poderes é um presente envenenado. Vai perceber um dia destes. O Sporting precisa de eleições e evitá-las é adiar um caminho inelutável.[/i]"