48 aniversário do 25 de Abril de 1974

25 de abril sempre, fascismo nunca mais!!!

Existe aquela pergunta, velha de quase 50 anos, que é:

Onde é que estavas no 25 de abril?

A maior parte do pessoal que anda por esta casa ainda não era nascido ou era bastante pequena.

Eu tinha acabado de fazer 11 anos, andava no 1. ano do Ciclo Preparatório, hoje 2. Ciclo, o meu irmão tinha 5 anos e ainda não andava na escola.

A minha mãe era empregada de limpeza numa empresa em Benfica (a localidade, não a estrumeira rabolha) e saia muito cedo de casa.

O meu pai, metalúrgico, trabalhava a turnos, e nesse dia estava em casa.

Eu e o meu irmão dormíamos.

A minha mãe telefonou ao meu pai a dizer que havia um acontecimento nas ruas, muitos soldados e carros blindados, os célebres Chaimites, e para ele não me deixar ir para a escola até se perceber o que se estava a passar.

Lembro-me de acordar e o meu pai estar a ouvir notícias na rádio e na televisão.

Como puto, não tinha muito a noção do regime em que vivíamos, era mais cromos da bola, jogar à bola com a malta, corridas de carrinhos de rolamentos, etc.

Não tinha muita noção do que era fascismo, comunismo, PIDE/DGS, censura, repressão.

Sabia que havia uma guerra, onde primos e tios combatiam os “terroristas” e, nas mensagens de Natal, desejavam um “feliz Natal e um ano novo cheio de prosperidade”, terminando invariavelmente com um mítico “Adeus, até ao meu regresso”.

Naqueles dias, os pais não falavam de assuntos tais como dinheiro e política em frente aos filhos.

Mas, de qualquer modo, por umas e por outras, percebia que não éramos livres. A minha família professava uma religião que se encontrava proscrita, não havia liberdade de reunião, era tudo feito às escondidas, o meu pai tinha estado ausente de casa durante uma semana e, mais tarde, percebi que tinha estado preso nos calabouços da António Maria Cardoso.

Gradualmente, nos dias seguintes, fui-me apercebendo que as coisas estavam a mudar, não tinha a noção se estavam a mudar para pior ou para melhor, isso só viria depois.

Foi realmente um dia de muita esperança e hoje posso dizer que, na sua essência, no seu espírito, o 25 de abril foi e será inolvidável.

Pena que a liberdade e as conquistas de abril tenham sido tão mal aproveitadas nas últimas 2 décadas por uma classe política em que grassa a incompetência, o clientelismo, o nepotismo e o oportunismo.

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Eu ainda não era nascido nesta altura, só uma década e tal depois…
Mas sei que o meu velhote tinha chegado a casa, vindo da Guiné cerca de 1 ano antes e um tio meu que pertencera aos comandos também andara lá pelas ruas de Lisboa atuar no 25 novembro…

Lembro me de o meu pai me contar cenas sobre o antigo regime, tipo tinha se de ter muito cuidado com as conversas, pois as paredes tinham ouvidos naquela altura. E também como funcionavam as eleições na época ( ele ainda votou antes de 1974 ). O boletim era entregue em mão na casa da pessoa, já preenchido. Era só chegar lá e inserir. E não eram todos que podiam votar, os suspeitos serem do contra, ou tinham nomes trocados e assim não podiam votar ou não constavam…
Mas também me contou uma peripécia aconteceu na década de 60 cá nas “eleições” da junta. O executivo da altura e um então opositor tinham visões diferentes, culpa dos desenvolvimentos da altura e o governador civil da guarda conseguiu promover um entendimento e elaboraram uma lista conjunta pra eleições em que o então secretário descia a tesoureiro e o dito opositor ia pro lugar dele e o presidente era o mesmo. Só que o tesoureiro não gostou e convenceu o presidente a irem entregar às escondidas uma lista separada na câmara, rompendo o acordo feito. O governador ficou lixado, e ao descobrir autorizou o opositor a meter também a dele. Os cadernos estavam só pessoas de confiança do então executivo, só que no dia tiveram surpresa, tendo perdido por 7 votos. Oposição foi a Alenquer buscar 8 pessoas de cá que lá trabalhavam, e que estavam cá inscritas, para virem votar. E assim o secretário que não queria descer, assim perdeu uma coisa e outra.

25 de Novembro sempre, ditaduras nunca mais? :astonished:

O dia 25 de Abril para mim, não foi um dia de liberdade…
Ainda era pequeno (7 anos) e os meus pais meteram-me a mim e às minhas irmãs a descascar uma saca de ervilhas que tinham trazido lá da terra!!
Era o mais novo (junto com a minha irmã gemea), com uma irmã mais velha (com 12) e o meu irmão já com 17.
A minha mãe estava a pentear-nos (aos gemeos) quando a minha irmã chegou, vinda da escola e disse que haviam muitos soldados na rua e tanques. O meu pai, que já tinha saído para o trabalho, telefonou a dizer para ninguem sair de casa e foi buscar o meu irmão que andava na escola industrial marquês de pombal (onde já reinava grande confusão com estudantes). No prédio colado ao nosso, ficava a estação de rádio Radio Graça, que foram algumas das que forneceram as “senhas secretas” do fim do antigo regime e arranque da revolução (com a musica do paulo de Carvalho “e depois do adeus” e “grandola vila morena” (zeca afonso). Todo o dia enquanto descascava ervilha (tipo prisioneiro a descascar batatas) ouviam-se helicopteros e musica “de intervenção”.
Apesar de muito jovem, sempre tive uma memoria visual e auditiva boa, mesmo que só mais tarde pude relacionar ou compreender o que vi/ouvi com os acontecimentos. Tive extremos na familia, um tio que era um bufo da PIDE, um avô que foi preso por oposição ao regime, um tio que esteve preso muito tempo por ser manifestamente comunista (via sempre em casa dele a revista “Vida Soviética”) e cujo filho estava na Guiné (paraquedista), lembro-me do terror da minha mãe por o meu irmão já com 17 anos poder ir para o ultramar. Lembro-me de ser um dia em que algo tinha mudado, a vida tinha mudado.Mas também me lembro dos tempos a seguir, militares com ar de jagunços a pararem carros com metralhadoras e ai de quem não fizesse o V de vitoria, lembro-me da musica da ■■■■ da gaivota não parar de tocar, lembro-me do restaurante do meu pai ser vandalizado e os empregados (filhos dos quais chegavam a ir connosco de férias) irem apresentar queixas aos comunas e fazerem a vida do meu pai complicada, lembro-me de um tio ( que trabalhava numa carvoaria e estudar a noite ate conseguir formar-se) ser saneado. Vi um dia de mudança, vi sofrimento de vários lados e a esperança que…ficou por realizar.

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Não tendo por lá passado, a ideia que me fica é que há uma grande mistura de ter conseguido a liberdade e a libertinagem.

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Festejar fins de ditadura no país do cabrita, dos crimes do Sócrates que prescreveram, dos empréstimos de 15M à comerdicação social, do Ferro Rodrigues a PAR, do Ricardo Salgado com Alzheimer, do Vieira amnésico e por aí fora.

Gabo-vos a inocência :rofl:

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A única coisa que mudou foi a existência de liberdade de expressão e a existência de direito ao voto (esta última graças ao 25 de novembro). Ainda bem que existe liberdade expressão, obviamente que é a coisa mais maravilhosa do mundo. De resto vivemos num país pobre e corrupto onde criminosos são exultados.

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Liberdade de expressão? Deixa entrar a carta dos direitos digitais ou lá como se chama esse devario do comuna que vais ver.

Excelente testemunho, como outros que já tive a oportunidade de ler neste tópico!

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A minha mãe chorou das duas vezes que teve 2 rapazes, um de 63 e outro de 69.

Nessa altura, pensava-se que a guerra duraria para sempre.

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O 25 de abril vivi de forma intensa nesse dia… eu na altura já trabalhava numa pastelaria ali na zona de Belém, lembro me de me levantar pra ir pegar ao serviço de madrugada e ver montes de gente na rua, uma confusão. Já não consegui ir trabalhar, não havia transportes etc… entretanto cruzo me com malta amiga, e “entrei no barco” da tourada e andei com eles por vários sítios, lembro me de estarmos nas imediações da rua Antônio Maria Cardoso, onde era a PIDE e ouvir alguém gritar " morte á PIDE!! " e apontar pra um senhor de barba, óculos, casaco castanho se não me engano e dizerem era inspetor ou funcionário, já não me recordo… multidão deu atrás dele e acabou trancar se numa casa lá havia numa rua adjacente, acabaram por arrombar a porta e entraram por ali acima, parecia aquilo saído de um filme… foi um dia inesquecível, sentir o que era finalmente liberdade…
Meu pai era comunista , teve de fugir pra França, deixando 3 filhos e esposa em casa, minha mãe trabalhava numa fábrica, eu sou o mais velho dos irmãos, ( infelizmente o mais novo faleceu o ano passado de cancro… ) quem nos valeu foi meus tios e meu avô paterno…

Lembro me de eu em casa dizer ao meu pai, que na escola tinha ouvido dizer isto e aquilo, sobre pessoas contra o Salazar e ele apressava se a mandar calar me e a dizer " oh malandro não repitas isso, as paredes tem ouvidos… "

O 25 de abril nunca me irei esquecer dele…

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celebrar o fim do passado horrendo ao qual nunca poderemos voltar.
lamentar que tenha sido o início de um projeto ainda por realizar.

Eu nasci um mês e meio depois , o meu tio que andava nas fragatas na marinha tambem andou lá metido em Lisboa.

Em relação às histórias do antes do 25 de Abril , ai daqueles que aumentassem os produtos , caia-lhes logo uma inspeção em cima.

Um colega do meu pai na primária meio amalucado , foram-lhe dizer para nunca dizer as palavras moscovo e comunismo , não é que ele começou a gritar na escola , viva moscovo , viva o comunismo. :rofl:
Já havia um fddp de um pide lá na terra que queria levar o puto e tambem já havia pessoal a prometer fazer-lhe a folha se o fizesse.

Feliz dia 25 de Abril. Fascismo nunca mais! Liberdade, Socialismo e pão para todos.

Que a malta cujos princípios políticos não se ajustam consoante os interesses eleitorais não se esqueça que, nestes anos de Geringonça, o Partido Socialista, que foi fundamental para a data em causa, renegou o 25 de Novembro. O 25 de Novembro salvou o 25 de Abril, que teria sido vilificado se o golpe de Estado que em Novembro a Esquerda totalitária tentou tivesse sido concretizado (pois seria entendido hoje como o próximo passo natural, a do elemento político, do que foi implementado após o 11 de Março).


Os meus avós paternos estavam em Lisboa, o meu pai na escola, um tio estava na Guiné (paraquedista, veio de lá mentalmente avariado), outro em Angola, e não faço ideia sobre os outros 15 ou 16 irmãos e irmãs (o meu avô tuga teve 18 irmãos).

Nos últimos dias foi muito engraçada ver a CS apertar o Montenegro acerca da sua capacidade de chegar ao poder com ou sem o apoio do Chega.

Engraçado como ninguém se questiona que a necessidade do PSD se alavancar no Chega decorre precisamente do facto do PS ter espartilhado a cerca sanitária à esquerda, tornando absolutamente essencial que essa mesma cerca sanitária seja derrubada à direita para derrubar um governo PS.

E o cromo do Montenegro, que não tem outro nome, porque é um imbecil e um inútil, só tinha que responder que o facto do PSD se aliar ao Chega tem mais que ver com o PS do que com o PSD. Mas não, nem para isso tem préstimo, porque lá está, a inteligência não é o forte dele.

Bem sei onde os partidos do regime nos têm conduzido. Mas era altura de ambos se sentarem à mesa e estabelecerem aglumas ground rules, porque se há coisa que esta guerra da ucrânia nos ensinou, é que não só devem existir cercas sanitárias, como as mesmas devem ser impostas em ambos os quadrantes políticos (esquerda e direita). A bem da liberdade, a bem da democracia.

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Não deixa de ser irónico que no dia que se celebra a liberdade em Portugal, o Elon Musk compra o twitter e a esquerda mundial está a chorar pelo perigo de haver liberdade na internet.