Ex-jogadores do Sporting

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A questão é: Demiral ia ser aposta no Sporting ou ia passar por 5 clubes diferentes da 1a Liga?
A segunda.

Não deixa de ser uma gestão danosa por parte do Cintrão e uma gestão ridícula dos jovens por todos os que passam pelo Sporting.
Óbvio.
Numa equipa que HIPOTECOU a época quando apresentou ANDRÉ PINTO E PETROVIC a centrais
Nuno André Coelho, saquei a parte em que se refere ao Sporting apenas:

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Como é que surge o Sporting se até jogou pouco?
Eu ainda comecei no FCP nessa época em que vou para o Sporting, ainda fiz a pré-época no FCP, com o Villas-Boas. O Jesualdo foi embora, acabou o campeonato, fomos de férias, depois tinha de me apresentar no Porto. Fazíamos sempre aquele período no centro de treinos do Olival e só depois é que íamos para estágio. Ainda me apresentei lá. Sentia o Villas-Boas do meu lado, sempre o senti em todos os treinos que fiz, a incentivar-me sempre, sempre. Mas de repente o Antero Henrique chamou-me ao gabinete e inventou uma história. Que tinha falado com o treinador e que ele não contava comigo e que existia a possibilidade de eu ir para o Sporting. ‘Não estou a perceber.’ Mas ele disse ‘epá, vai para casa, pensa’. Depois começaram a sair notícias sobre o Moutinho ir para o FCP e aí é que percebi. Falei com o meu empresário e disse que não queria, porque sabia que o treinador contava comigo e aquilo que o Antero Henrique me estava a dizer não era verdade.

Alguma vez questionou o Villas-Boas sobre se o queria mesmo ou não?
Na altura em que começamos a pré-época, o Villas-Boas disse-me que contava comigo. Depois o meu empresário, através do Antero e dos diretores do Sporting, é que descobre que foi uma exigência que o Sporting fez. O FCP queria muito o Moutinho, o Pinto da Costa queria muito o Moutinho, sempre gostou muito dele, e então a exigência que o Sporting fez, já não sei se foram 10 milhões, uma coisa assim, mais o Nuno André Coelho. O Moutinho assim podia ir para o FCP. Eles fizeram de tudo para que eu dissesse que sim.

E conseguiram.
Eu acabei por dizer que sim porque não estava para ficar a treinar à parte e essas coisas todas que ameaçaram fazer.

Vai para o Sporting…
Desmotivado.

Vai sozinho?
Não, aí a minha esposa, namorada na altura, vem comigo. Ficámos em Alcochete num apartamento do clube.

Adaptou-se bem?
Sim, era um meio pacato, um meio sossegado em que eu me dava bem. Não gostava muito de confusões.

Nuno André Coelho chega ao SC Braga na época 2011/12
Nuno André Coelho chega ao SC Braga na época 2011/12 STEVE DREW - EMPICS
Como é que foi o impacto de chegar ao Sporting vindo do FCP?
Fui direto para o estágio na Suíça. Naquele tempo vivi a troca de treinador e a troca de presidente, foi tudo no mesmo ano. Fui para lá com o Bettencourt e saí de lá com o Godinho. O Sporting estava de rastos nessa altura. Apesar de ir para lá desmotivado, não posso colocar as culpas todas em cima dos outros. Também tenho a minha parte. Mas fiz de tudo para motivar-me e ajudar o Sporting da melhor maneira, só que não dependia só de mim.

As coisas não correram bem, mas entre o Paulo Sérgio e o José Couceiro, com qual é que se deu melhor?
Joguei mais com o Paulo Sérgio, fui a aposta. Exigiu que eu fosse para lá, tinha de apostar em mim, tinha de me pôr a jogar. Com o Couceiro já não joguei. Mas foi no Sporting que tive o jogo mais marcante da minha carreira, com o Brondby, em que perdemos 2-0 em casa no playoff da Liga Europa e fomos lá ganhar 3-0 e eu fiz o segundo golo. Foi um dos jogos mais marcantes da minha carreira. Porque lá está, acho que o problema do Sporting, até hoje, continua a ser o mesmo: os adeptos querem resultados imediatos e não pode ser, o futebol não é assim.

É um clube grande que já não ganha o campeonato há muitos anos - é natural que os adeptos tenham essa exigência.
Mas também há tanto tempo que andam com troca de presidentes, troca de treinadores, troca de não sei o quê... Assim não vai a lado nenhum. Eles discutem sempre. Se um treinador empata ou perde já está em causa. Têm de dar tempo ao tempo. Se nós estivéssemos dois ou três jogos sem perder, sempre a ganhar, estava tudo fantástico. Bastava empatar um jogo...

Acha que são adeptos mais exigentes que os do Porto, por exemplo?
Acho que nesses clubes, e eu passei pelo Sporting e pelo FCP, os adeptos são muito exigentes mas não dão tempo. Os do Porto estão habituados a ganhar, é verdade, basta uma derrota para aquilo ficar logo tudo em alvoroço, mas apoiam sempre a equipa, sempre.Também lá vivi momentos conturbados com o Jesualdo, em que ficamos atrás do SC Braga, no ano em que o Braga ficou em 2º lugar. Mas eles só reagem e agem no momento em que veem que não temos capacidade para ir mais longe. Eles invadiram o estádio num treino, mas só invadiram depois do treino, porque queriam falar com o presidente, com os capitães e com o treinador. E foi já numa fase final do campeonato porque viram que já não havia hipóteses de lutarmos pelo título e queriam conversar, estavam revoltados, é normal. Enquanto no Sporting, o que lá vivi, é que não interessa qual é a fase, se é no início, no meio ou no fim, não interessa, basta uma derrota ou dois ou três resultados menos positivos para eles se atirarem ao treinador, ao presidente, aos jogadores, atiram-se a toda a gente.

Iam para Alcochete chatear-vos?
Muitas vezes. E quando saímos do estádio, depois de um jogo com um resultado menos positivo, quando estávamos a sair do estádio, chingavam-nos.

Não o surpreendeu o que aconteceu em Alcochete no ano passado?
Não, nada, e principalmente com aquele presidente.

O balneário era muito diferente do do Porto?
Muito diferente.

Consegue explicar?
Eu não sei como é que funciona o FCP agora e o Sérgio Conceição deve ter uns métodos completamente diferentes hoje em dia. Mas, na altura, no balneário do FCP não existiam treinadores, não entrava lá ninguém - e se entrasse era com permissão. Tinha de bater à porta e pedir para entrar.

No Sporting isso não acontecia?
Recordo-me de uma situação que aconteceu no balneário do Sporting. Nós estávamos na Liga Europa e no início da época fazemos aquelas medições para os fatos, e recordo-me de uma situação que para mim é surreal numa equipa de um grande em Portugal. Tirámos as medidas e no dia em que fomos para a Academia estavam lá os fatos, só as calças e o casaco. Agora camisas, sapatos, gravatas e cintos, estavam todos metidos dentro de um caixote no centro do balneário, como que a dizer, cada jogador que se sirva, que tire aquilo que quiser. Não faz sentido num clube como o Sporting. Acho que apanhei das piores fases do clube.

É quando está no Sporting que faz a sua estreia na seleção A?
Nunca me estreei.

Não fez um jogo de qualificação para o Euro 2012?
Não. E não gosto do Paulo Bento por isso.

Porquê?
Por causa disso. É assim, antes do Queiróz era o Paulo Bento e o Paulo Bento convocou-me para jogos amigáveis e nunca me colocou a jogar. E aí é que poderia ter-me colocado a jogar, não era o Carlos Queiroz, depois do Paulo Bent, que me ia pôr a jogar para a qualificação. Estive no banco. Tive a oportunidade de ser internacional com o Paulo Bento e ele não me deu essa oportunidade. Até hoje não sei porquê. Joguei no Algarve com uma equipa africana, já não me recordo, e ele não me tirou do banco, nem fui aquecer. Fiquei lá o jogo inteiro. Entraram todos menos eu. Até hoje não consigo encontrar uma explicação para isso.

Não tinha mau feitio, não era de arranjar conflitos?
Não, nunca fui.

Era para ter continuado no Sporting, mas foi para o Sc Braga. Porquê?
Quando vim para o Sporting na altura assinei por três anos. Não fico porque as coisas não correram bem desportivamente e também por causa dos treinadores. Quando o Domingos veio do SC Braga para o Sporting, quis trazer o central que estava no Braga, o peruano Rodriguez. Então arranjaram ali uma solução para não haver trocas de dinheiro, não haver muitos pagamentos e o SC Braga também quis que eu fosse para lá. É aí que se torna complicado. Eu nunca deveria ter aceitado naquelas condições. Sempre tive até ao último ano no Braga, e ainda lá estive três anos, 50% do meu passe no FCP, 20% no Sporting e 30% no SC Braga. Foi nestas circunstâncias que fui para o Braga.

Por que diz que nunca devia ter aceitado?
Porque depois no SC Braga, onde fui mais feliz, onde joguei e tive a oportunidade de dar um salto significativo para mim, monetariamente, não consegui porque o SC Braga não aceitou. O dinheiro que davam por mim era bastante, mas o Sc Braga tinha que o dividir com o Sporting e com o FCP. Foi por isso que eles não aceitaram. Eu tive ofertas de quase 10 milhões.

De quem?
Do Besiktas, por exemplo. Eles não aceitaram porque só iam ficar com 30%.

E nessa altura não se chateou com o seu empresário por ter deixado que as coisas fossem feitas dessa forma?
Na altura nem pensávamos nisso porque eu não estava feliz no Sporting e só fiquei a saber depois que o meu passe estava dividido por três clubes. Quando surgiram essas propostas é que fiquei a saber.

Vai para Braga e o treinador é o Leonardo Jardim.
Foi dos melhores treinadores que apanhei. Não é um tipo de treinador de falar mas sabe tirar o melhor do jogador. Apanhei-o quando ele chegou praticamente à I Liga, ainda tinha estado nuns clubes intermédios, mas ali no SC Braga foi onde ele deu cartas para depois ir para o Sporting. Para mim ele tem uma visão fantástica do jogo, sabe o que é preciso fazer, estuda muito bem o adversário e consegue motivar e dar confiança ao jogador. E a confiança para um jogador é jogar. Não precisa de muitas palavras e ele nunca foi um treinador de falar. Simplesmente dizia “queres confiança? Eu meto-te lá dentro”.


Entrevista completa (https://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2019-06-08-Nuno-Andre-Coelho-O-Pinto-da-Costa-queria-muito-o-Moutinho-e-o-Sporting-exigiu-em-troca-ficar-comigo.-Eu-nao-devia-ter-aceitado)
"Para mim , o Sporting é como uma mulher que se ama logo à primeira vista. Um homem pode conhecer várias mulheres , mas há sempre ‘aquela’, a especial. Independentemente de ficarmos com ela ou não, lembramo-nos dela para sempre!" - Ivone De Franceschi
Carlos Martins.

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E aí sim vai viver para o Centro de Estágio do Sporting. Outra realidade.
Sim, sim. Apesar de hoje em dia os meninos estarem num hotel de cinco estrelas e nós não. Mas só o convívio, o amor que havia entre nós. Eram 4 camas num quatro de 15, 20 m2. Fiz o contrato profissional com 16 anos.

Foi nessa altura que começou a ganhar dinheiro?
Foi.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Quando vim com 11 anos o Sporting ajudava a minha família com 20 contos (100€). O meu primeiro contrato profissional foi de 360 euros, tinha 16 anos.

Recorda-se o que fez com esse dinheiro?
Não, eu não mexia nele.

Não havia nada que quisesse muito ter?
Um telemóvel, porque toda a gente tinha. Eu vim de um lado social e de uma terra em que nós éramos felizes com uma bola. Roupa? Nem sabia o que era. Vim para aqui, para este lado social em que tinha colegas que já compravam brincos, relógios, e mais não sei o quê, mas isso foi-me passando ao lado. Tive uma gestora muito grande na minha vida, a minha mãe. Todo o dinheiro que recebia ela guardava-o. Dizia-lhe preciso disto e ela dava-me. Lembro-me de ir à Springfield comprar t-shirts e ficava todo feliz da vida por ter comprado uma coisinha (risos). A partir daí, quando fiz o primeiro contrato profissional, começo a treinar com a equipa sénior do Sporting, no tempo do Jozic. As pessoas do Sporting começam a dizer que vou ser mesmo uma aposta para a equipa principal.

Saiu do centro de estágio nessa altura?
Sim, com 17 anos. Estive dois anos no centro de estágio.

Que brincadeiras e partidas faziam uns aos outros?
Na primeira fase, em que cheguei a viver com o Simão, o Nuno Santos, para quem olhava com respeitinho, eles é que faziam partidas à gente. As nossas mães levavam bolachas para comermos à noite, porque quando passava a hora de jantar, acabou. Eles iam lá: “Ó miúdo, o que tens aí? Tens bolachas que eu sei, a tua mãe esteve cá este fim de semana. Abre lá isso” (risos).

Depois fez o mesmo aos outros?
(risos). Quando tinha 17 anos, e era dos mais velhos, também fazia. Mas o pior daquilo era quando queríamos ver televisão. Só havia uma televisão para todos e quando chegava um mais velho e dizia: “Ó miúdo está na tua hora”. Nós, caladinhos, íamos embora (risos). Depois, claro, também fazíamos isso aos outros.

Carlos Martins em sua casa, no dia da entrevista a Tribuna
Carlos Martins em sua casa, no dia da entrevista a Tribuna NUNO BOTELHO
Fugas noturnas, não havia?
Fizemos uma fuga e correu-nos tão mal, tão mal, tão mal...

Conte lá.
Tínhamos um amigo chamado António que nos disse: “Pá, vamos a uma discoteca que abriu agora e é espetacular”. Era a minha primeira saída, estava nervoso. Tínhamos de sair antes da meia noite, que era quando a porta fechava, depois só abria às 7 da manhã. A tal discoteca ficava para os lados da Avenida da Liberdade, não sei o nome. Saímos todos contentes, contentes e com medo que alguém reparasse em nós, porque éramos um grupo de oito ou nove. Chegávamos a uma rua e o António dizia “chegámos”, mas afinal “ah, não é aqui”. Ou seja, ele não sabia, quis armar-se, dizia que sabia tudo mas não sabia nada. Até que chegamos a uma esquina e ele “É esta, é esta”. Eu tive logo um daqueles feelings...Vejo um senhor à frente, todo muito bem vestido a olhar para uma cambada de miúdos, com 15, 16 anos com ar desconfiado. O António diz que queremos entrar. O senhor vira-se: “vocês sabem para onde vão entrar?”. O António mais uma vez, na tanga, a armar-se “sei, eu frequento isto”. Eu como sou muito cauteloso, sou dos últimos a entrar. Lembro-me de estar eu e o Paulo Ribeiro, um moço do Porto, mais recuados. Entramos na primeira porta, depois vamos para um hall e nesse hall havia uma porta blindada lá para dentro. Só que nesse hall vejo umas pessoas e digo assim: “Eh pá, acho que isto é um bar de gays”. O homem que está no hall da entrada faz entrar os primeiros, eu e o Paulo Ribeiro quando estamos para entrar vejo logo dois tipos a dar beijos um ao outro, virei-me para o Paulo e disse-lhe que ia embora. Fiquei assustado, entrei em stress. O senhor ia a fechar a porta, eu ponho a mão na porta e o homem“ai não querem?”. “Não, não, esperamos lá fora” (risos). E ficamos lá fora. Eles depois saíram, disseram que foram obrigados a consumir bebida e só depois é que saíram. Foi a minha primeira saída (risos).

Estava a contar que estava nos juniores nessa altura e começa a treinar com a equipa sénior. A primeira vez que é chamado à equipa sénior, como foi?
Estava com um nervoso maluco, quase não podia olhar para a cara deles. Oceano, Pedro Barbosa…

Houve praxe?
Não, nessa altura eles só nos mandavam ir buscar os cestos da roupa. E uma pessoa ia toda contente, mas nem sequer falava para eles (risos). Lembro-me de, com 17 anos, querer fazer um banho de imersão como todos faziam e ia entrar no jacuzzi, estava lá o Pedro Barbosa, o João Pinto e disseram: “Ó miúdo onde é que tu vais? Não tens idade para fazer isto, sai já daqui” (risos). E lá fui eu, caladinho, a olhar para baixo. Eu a pensar que já tinha direito a massagens e jacuzzi (risos).

Quando sai do centro de estágio fica a viver sozinho?
Os meus pais decidem que é melhor fazer um acompanhamento, porque as pessoas estavam a depositar confiança em mim e a minha mãe veio viver comigo. Fomos viver para um apartamento pago pelo Sporting, no Alto da Faia. Estive lá com ela um ano.

Era muito controlado pela sua mãe?
Era, mas ainda bem. Também nunca fui muito de saídas à noite para discotecas. Hoje em dia gosto mais de estar num restaurante do que sair para discotecas. Sempre tive medo das coisas na noite. Pode acontecer em qualquer lado e em qualquer altura, mas há sítios mais propícios do que outros, e eu sempre tive na minha cabeça que para ser jogador, ou tentar ser jogador, temos de nos privar de certas coisas. Eu privava-me mas não ficava triste, fazia porque queria.

Estreou-se na I Divisão com 18 anos pela mão do Inácio, certo?
Sim. Num jogo com o Alverca. Empatámos um igual.

Foi titular ou substituiu um colega?
Entrei. Estávamos a ser massacrados e o Inácio mandou-me para o fogo, literalmente. Estávamos a ser assobiados. Eu estava muito nervoso. Hoje um miúdo com 16, 17 anos é preparado para chegar a esses momentos com outra maturidade. Na altura, lembro-me que estávamos a ganhar e estávamos a ser assobiados, e eu só pedia na minha cabeça "que não me ponha neste jogo". Estava completamente nervoso. Quando um miúdo entra, podia ser eu ou podia ser outro, se a equipa não ajuda, se alguma coisa de mal acontece, foi o que aconteceu, empatámos o jogo em casa contra o Alverca, a culpa é do miúdo. O miúdo entrou, o que é que foi para lá fazer, isto e aquilo...

Lembra-se de ouvir isso de alguém?
Não, mas foi o que saiu na imprensa. Recordo terem dito que não tinha capacidade para jogar na equipa A. Mas aos olhos de hoje, os miúdos entram, e entram preparados. Quando o Inácio chegou ao pé de mim, fechou-me no gabinete dele e disse: “miúdo estás preparado para jogar contra o Real Madrid, na Liga dos Campeões?”. Eu quase que engoli em seco, mas claro que disse que sim. Não havia preparação nenhuma. Hoje é diferente, fala-se diariamente com os jogadores, há apoio psicológico, etc. Naquela altura ninguém falava nada, era ir lá treinar, tens qualidade vai ao jogo e acabou. Para um miúdo vingar... era preciso uma grande percentagem de sorte, de estar no momento certo, à hora certa, com a pessoa certa. Para vingar e ser mais fácil a sua projeção, a equipa tem de estar bem, tem de transpirar confiança. Coisa que não existiu na minha altura. O Inácio, por exemplo, nunca mais me pôs a jogar. Claro que se tivéssemos ganho e se tivéssemos jogado bem, provavelmente era chamado novamente.

Jogou bem?
Não, ninguém jogou. Vai um miúdo com 18 anos no meio daqueles tubarões fazer o quê? Não sou nenhum Maradona, não sou nenhum Cristiano Ronaldo.

Carlos Martins como jogador do Sporting a disputar uma bola com Nuno Gomes, do Benfica
Carlos Martins como jogador do Sporting a disputar uma bola com Nuno Gomes, do Benfica FRANCISCO LEONG
Entretanto, é emprestado ao Campomaiorense.
Vou ao Torneio de Toulon e estou a falar com um jornalista que me diz que está em off e eu digo-lhe que fui prejudicado pelo Sporting, que me sentia injustiçado, que nunca mais me chamaram à equipa sénior por causa daquele jogo e que as pessoas não se portaram bem comigo; prometiam uma coisa e depois não faziam. Por um lado tenho culpa, por ter falado muito, por não ter experiência, que hoje os miúdos já têm porque há alguém por trás a dizer: “não fales, está calado, deixa-me falar a mim”. Isso é muito importante e eu não tive esse acompanhamento. Saiu no Record uma página completa a dizer: “Fui prejudicado pelo Sporting”. Aquilo caiu como um bomba. Disseram-me que tinha de ser emprestado porque o Sporting estava triste comigo, porque era uma entrevista forte.

Quando lhe disseram que ia para o Campomaiorense, qual foi a sua reação?
Eu próprio também quis ir porque, se não me engano, na época anterior o Campomaiorense tinha estado na primeira divisão. Era o meu último ano de júnior, ou o primeiro de sénior, e tinha a possibilidade de jogar. Portanto, juntaram-se as duas coisas. Agora, fiquei triste por me ter estreado no Sporting, as pessoas estarem a pensar que viam em mim alguma coisa e depois, de um momento para o outro, ter ido parar ao Campomaiorense. Mas é assim a vida.

Foi para Campo Maior sozinho?
Fui com outros colegas, fomos uns 5. Eu fiquei a viver com um colega, o Vasco.

Como correu essa época?
Em termos desportivos foi bom, porque joguei, marquei e fiz muitas assistências.

Era Diamantino o treinador.
Sim. Depois veio um espanhol, Fabio Gonzalez que... meu Deus...

Então?
Maluco. No primeiro treino da semana metia-nos a jogar futebol. Em termos táticos, tinha umas táticas que não eram comuns. Foi difícil porque veio substituir o Diamantino quando estávamos em 2º lugar; a partir daí foi sempre a descer. Quando estamos a descer todos os problemas vêm ao de cima. A mim acusavam-me que só jogava bem na seleção, que não queria jogar no Campomaiorense porque era jogador do Sporting. Isso acaba por acontecer com qualquer jogador que vai de uma equipa para outra e as coisas correm mal: “Ele tem contrato com os outros, quer lá saber disto”. Lembro-me do Paulo Vida, um jogador fantástico, um ponta de lança que fazia golos a todos de todas as formas e feitios, também o acusaram de não querer marcar golos porque estava lixado, bom... Foi o ano que também ficou na história porque o clube acabou. Não foi positivo em termos de clube.

Regressa para a equipa B do Sporting?
Sim.

Ficou chateado por não ir para a equipa principal?
Não. Eu fiz uma boa época em Campo Maior. As pessoas diziam: “Eh pá tu és maluco, mas és grande jogador”.

Porque é que diziam que era maluco?
Se calhar porque eu falava as coisas. Nunca fui de me calar e no futebol há que saber calar, mas nunca faltei, nunca mandei um treinador para o outro lado.

Era um refilão.
Isso sim. Era refilão e admito que muitas vezes devia ter estado calado. Eu adorava ganhar, ficava doido se perdia. Isso sempre me caracterizou e é uma coisa que levo com agrado. Sempre dei tudo e por vezes as pessoas interpretavam mal ou eu esticava mais um bocado, mas a minha essência é aquela que os meus pais me ensinaram, sempre a respeitar todos.

Depois é chamado pelo Bölöni à equipa principal. O que achou dele?
Muito severo, um bom treinador, penso que fez um bom trabalho, mas rotulou-me logo na primeira conversa. Disse-me: “eu sei que tu és maluco, és um grande jogador, mas à mínima coisa que faças aqui comigo, vais-te embora.” Foi assim, nunca ninguém me deu nada. Há aqueles jogadores que caem na graça de Deus, sei lá, mas nunca tive essa hipótese, nem essa sorte. Nunca ninguém me disse: “Eh pá, calma. Ele fez isto, mas vamos perdoá-lo", ou seja o que for, nunca. O João Pinto lesiona-se no ombro, penso eu, e faço 6 ou 7 jogos seguidos. Penso que é assim. Ganhei alguns créditos, as pessoas começaram a acreditar mais em mim. Mas de repente, o Bölöni vira-se e diz: “Tu tens um problema, não podes ser jogador do Sporting assim”. Do nada.

Por causa do feitio?
Não. Volta e meia estava num jogo ou no treino e saltava-me o ombro, tanto que fui operado. O Bölöni do nada chega-se: “Tu não podes ser jogador do Sporting com esse problema, tens de tratar.” Respondi-lhe: “Não vou ser tratado agora porque consigo jogar. Tento evitar alguns movimentos que me fazem saltar o ombro”. Mas ele já não me queria mais, dizia que eu não estava apto para ser profissional do Sporting. É então que me aparece a Académica, que estava na 1ª divisão. O treinador era o Artur Jorge que me quis logo lá.

Que tal o Artur Jorge?
Espetacular, dava-me muita atenção e ensinava-me, tinha paciência, porque para jovens é preciso ter paciência. Temos de ver a essência do jovem primeiro. Se for uma essência maldosa, há que apertá-lo de maneira diferente. Se for uma essência boa, mas de sangue quente, é preciso perceber. Hoje em dia todos os que querem ser treinadores são, mas só quem tem uma relação humana com os jogadores é que vai longe. Não são aqueles que estudam e depois tratam mal os jogadores. Sei que estive lá dois meses e recebi um telefonema do Sporting a dizer para regressar mais cedo, para ser operado, para começar bem a época seguinte.

Já com o Fernando Santos.
Espetacular também. Aliás todos eles, todos eles.

Não houve um treinador que o tenha marcado mais?
Em termos pessoais o José Peseiro, sem dúvida. A minha melhor fase no Sporting é com ele. Deu-me total liberdade para jogar, cometi alguns erros,mas ele nunca foi tão duro. Aí sim, se tenho de destacar alguém é o Peseiro. Acho que é bom demais para ser treinador ao nível de um clube grande. O que quero dizer com isto é que há pessoas e há jogadores que tendem a abusar quando encontram uma pessoa que é boa. Ele é nosso patrão, é o nosso treinador. E naquelas alturas em que devia ser rígido nunca o era, porque era a essência dele. Levava sempre as coisas a conversar, encontrava sempre um ponto ou outro para que tudo ficasse calmo. E na alta competição às vezes a coisa não pode ser assim.

Pela negativa, houve também algum que o tenha marcado?
Pela negativa, mas sem ter nada contra ele porque não sou rancoroso, o Jorge Jesus. Mas mais à frente falamos disso.

Como lhe corre a época com o Fernando Santos?
Mais ou menos. É preciso não esquecer que eu tinha o João Pinto na minha posição. Por mais que fizesse tinha aqueles tubarões todos ali e eu era sempre um menino. Totalmente diferente da visão de hoje em dia. Hoje, um puto joga com 18 anos e ninguém acha anormal. Naquela altura jogar com esta idade no meio destes tubarões…(risos).

Carlos Martins na sua casa em Cascais.
Carlos Martins na sua casa em Cascais. NUNO BOTELHO
Depois, vem o Peseiro e no ano a seguir o Paulo Bento. É a primeira vez que tem um treinador que foi seu colega de balneário. É uma situação complicada?
Não, não foi difícil. Quando o Paulo assumiu a equipa disse logo: “Para aquelas pessoas que já trabalharam comigo e foram meus colegas não quero que me tratem por mister”. Para ele não fazia sentido. Sabíamos diferenciar as coisas.

Mas as coisas não correm bem com o Paulo Bento.
Não. É ele que dita a minha saída.

O que aconteceu?
O Paulo Bento fica marcado com a minha saída do Sporting única e exclusivamente por ser o treinador nessa altura, mas nada tem a ver com ele. Tem a ver com as minhas lesões na perna direita, que eram constantes, sempre na mesma perna. Nesse período pedi para ser observado por outro médico. Fui ao médico do Bayern de Munique e da seleção alemã, o Müller [Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt]. Ele manda-me fazer um exame que nunca ninguém se tinha lembrado: um raio-x às costas. E o meu problema estava no ilíaco, tinha uma perna mais curta do que a outro e daí as minhas lesões serem sempre na perna direita.

Qual era a solução?
O Dr. Müller disse-me que para ficar curado tinha de fazer no mínimo três tratamentos. Só eu sei que tratamentos eram… Com agulhas enormes a perfurar-me as costas e a perna por dentro, para ir às fibroses e descalcificar as fibroses. Era já tanta fibrose que eu tinha que, claro, ninguém podia jogar como eu estava. O departamento clínico do Sporting, não o Paulo Bento, desde o primeiro dia nunca foi de acordo que eu fosse lá. Hoje isto também já está mudado, mas antigamente, meu Deus. Antigamente fazia-se mas tinha de ser às escondidas, ninguém podia pedir uma autorização ao clube. Eu pedi.

O departamento médico não quis que fizesse o tratamento?
O departamento clínico disse que eu estava hipocondríaco, que era da minha cabeça, que eu estava maluco por dizer que tinha coisas na perna. Inclusivé o médico, o Gomes Pereira, não quero falar muito desse senhor, ele nunca mexia muito nos jogadores, mas a única vez que me mexeu na perna, esteve 15 segundos e disse que eu não tinha nada. Eu tinha a perna cheia de fibroses calcificadas, isso via-se na ressonância, enfim. Compreensivelmente eu não aceitei bem a decisão do departamento clinino do Sporting. O Paulo Bento teve de se pôr ao lado da direção e do departamento clínico. E diz-me: "Carlos se tu lá vais mais alguma vez ao estrangeiro, não jogas mais comigo.” Fiquei chateado por ele me estar a dizer aquilo e respondi: “Olha Paulo, não me interessa que não jogue mais. Eu quero é tratar da minha saúde. Preciso de lá ir mais uma vez, fica ao teu critério se me pões ou não a jogar”.

E foi?
Fui lá mais uma vez. Tudo pago do meu bolso. Graças a Deus que fui. Fui tratado e fiquei bem. E é aí que se rompe a ligação que tenho com o Sporting e com o Paulo Bento. Sei que estive dois meses sem jogar e sei que o Paulo também é uma pessoa convincente: aquilo que diz, faz. Achava ele que estava a defender o departamento clínico, que dizia mais uma vez que eu era maluco, que eram as noitadas, que era droga, o que não disseram de mim. E eu quando ia à Alemanha, ia com o Carlos Gonçalves, que era o meu empresário na altura. Só eu sei os tratamentos que me fizeram lá, mas sabia que aquilo era para o meu futuro. A dois meses de acabar a época, fui lá uma última vez e tive uma conversa com o Paulo. Disse-lhe que já estava bem, mas ele disse-me que já tínhamos falado sobre o assunto. Respeito. Mas foi muito doloroso ter saído do Sporting assim.

Quando falavam que eram noitadas, droga...
...Senti uma revolta muito grande. Mas sempre cresci assim. Se chegar ao pé de alguém do Sporting, que se lembre de mim naquela altura, e perguntar pelo meu percurso, vão dizer: “Eh pá, o Carlos, grande jogador mas cheio de lesões, era só noites, era só mulheres, era não sei o quê”...

Era mentira?
Claro que sim, eu comecei a namorar com a minha mulher tinha 22 anos, antes tinha uma namorada, sempre fui uma pessoa pacata, fiz as minhas coisinhas, mas sempre muito responsável. Isso foi uma imagem que se criou e tive de levar com isso até sair do Sporting. Quando fui para o Benfica a visão que tinham de mim mudou um bocado, mas no Sporting sempre foi assim. Um talento imenso, mas tinha muitas lesões porque a vida não era compatível.

Carlos Martins representou o Recreativo de Huelva, de Espanha, em 2007/08.
Carlos Martins representou o Recreativo de Huelva, de Espanha, em 2007/08. BAGU BLANCO
Era o seu clube de coração, o clube onde cresceu e onde se tornou profissional.
Quando fui fazer a desvinculação, chorava que nem um bebé e o Carlos Freitas também. Custou-me horrores sair do Sporting, mas foi por causa disso. Eu não abandonei o Sporting, o Sporting é que quis que eu saísse. Porque o Paulo ia continuar, ele já não me queria lá porque tinha dito aquilo, que eu tinha infringido uma regra dele. Tinha-me dito cara a cara. Assumi a minha decisão em prol da minha saúde.

Porque é que na altura não tornou isso público? Porque não se quis defender?
Porque fui aconselhado a não falar.

Pelo seu empresário?
Também.

Vai para o Recreativo do Huelva. Não houve interesse de outros clubes, do Espanhol de Barcelona, do AEK, do Panathinaikos?
E do Benfica, já na altura. Eu tive contrato ainda era jogador do Sporting. Na altura foi público e dizia-se que estava em conflito com o Paulo Bento. Mas as pessoas não sabiam que o que gerou o meu conflito com o Paulo não foi por não jogar ou por ter sido mal criado, mas sim por uma declaração do posto médico. Na altura, o meu empresário reuniu-se comigo e com o Fernando Santos em casa do Veiga. Vimos qual era a melhor maneira de eu sair do Sporting e ir para o Benfica, discutimos isso. Achamos por bem que tinha sempre de fazer uma ponte fora, nunca podia sair diretamente para o Benfica, porque o Sporting nunca deixaria um jogador ir diretamente. Apareceu o Recreativo do Huelva porque o Beto estava lá. Eu tinha sido companheiro do Beto, ele ligou-me: “Vem para aqui, é um clube da primeira liga, estamos perto de Portugal”. Sempre rejeitei muita coisa por não querer estar longe, não tinha aquela coisa de ir à aventura por muitos países. Em Huelva podia vir de carro a Portugal, não gosto muito de andar de avião. Era um clube que ia apostar mesmo em mim, iam formar equipa à minha volta e foram estas condicionantes que me fizeram optar por Espanha

Entrevista completa: https://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2019-05-11-A-porta-o-seguranca-perguntou-Tem-a-certeza-.-Entramos-homens-aos-beijos-era-um-bar-gay.-A-primeira-saida-a-noite-correu-tao-mal

https://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2019-05-12-A-vida-do-meu-filho-dependia-de-um-saco-de-sangue-de-medula.-Chorei-desenhei-o-nome-dele-em-coracoes-na-areia-nao-fui-ao-Euro-por-ele
"Para mim , o Sporting é como uma mulher que se ama logo à primeira vista. Um homem pode conhecer várias mulheres , mas há sempre ‘aquela’, a especial. Independentemente de ficarmos com ela ou não, lembramo-nos dela para sempre!" - Ivone De Franceschi
Carlos Martins.

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E aí sim vai viver para o Centro de Estágio do Sporting. Outra realidade.
Sim, sim. Apesar de hoje em dia os meninos estarem num hotel de cinco estrelas e nós não. Mas só o convívio, o amor que havia entre nós. Eram 4 camas num quatro de 15, 20 m2. Fiz o contrato profissional com 16 anos.

Foi nessa altura que começou a ganhar dinheiro?
Foi.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Quando vim com 11 anos o Sporting ajudava a minha família com 20 contos (100€). O meu primeiro contrato profissional foi de 360 euros, tinha 16 anos.

Recorda-se o que fez com esse dinheiro?
Não, eu não mexia nele.

Não havia nada que quisesse muito ter?
Um telemóvel, porque toda a gente tinha. Eu vim de um lado social e de uma terra em que nós éramos felizes com uma bola. Roupa? Nem sabia o que era. Vim para aqui, para este lado social em que tinha colegas que já compravam brincos, relógios, e mais não sei o quê, mas isso foi-me passando ao lado. Tive uma gestora muito grande na minha vida, a minha mãe. Todo o dinheiro que recebia ela guardava-o. Dizia-lhe preciso disto e ela dava-me. Lembro-me de ir à Springfield comprar t-shirts e ficava todo feliz da vida por ter comprado uma coisinha (risos). A partir daí, quando fiz o primeiro contrato profissional, começo a treinar com a equipa sénior do Sporting, no tempo do Jozic. As pessoas do Sporting começam a dizer que vou ser mesmo uma aposta para a equipa principal.

Saiu do centro de estágio nessa altura?
Sim, com 17 anos. Estive dois anos no centro de estágio.

Que brincadeiras e partidas faziam uns aos outros?
Na primeira fase, em que cheguei a viver com o Simão, o Nuno Santos, para quem olhava com respeitinho, eles é que faziam partidas à gente. As nossas mães levavam bolachas para comermos à noite, porque quando passava a hora de jantar, acabou. Eles iam lá: “Ó miúdo, o que tens aí? Tens bolachas que eu sei, a tua mãe esteve cá este fim de semana. Abre lá isso” (risos).

Depois fez o mesmo aos outros?
(risos). Quando tinha 17 anos, e era dos mais velhos, também fazia. Mas o pior daquilo era quando queríamos ver televisão. Só havia uma televisão para todos e quando chegava um mais velho e dizia: “Ó miúdo está na tua hora”. Nós, caladinhos, íamos embora (risos). Depois, claro, também fazíamos isso aos outros.

Carlos Martins em sua casa, no dia da entrevista a Tribuna
Carlos Martins em sua casa, no dia da entrevista a Tribuna NUNO BOTELHO
Fugas noturnas, não havia?
Fizemos uma fuga e correu-nos tão mal, tão mal, tão mal...

Conte lá.
Tínhamos um amigo chamado António que nos disse: “Pá, vamos a uma discoteca que abriu agora e é espetacular”. Era a minha primeira saída, estava nervoso. Tínhamos de sair antes da meia noite, que era quando a porta fechava, depois só abria às 7 da manhã. A tal discoteca ficava para os lados da Avenida da Liberdade, não sei o nome. Saímos todos contentes, contentes e com medo que alguém reparasse em nós, porque éramos um grupo de oito ou nove. Chegávamos a uma rua e o António dizia “chegámos”, mas afinal “ah, não é aqui”. Ou seja, ele não sabia, quis armar-se, dizia que sabia tudo mas não sabia nada. Até que chegamos a uma esquina e ele “É esta, é esta”. Eu tive logo um daqueles feelings...Vejo um senhor à frente, todo muito bem vestido a olhar para uma cambada de miúdos, com 15, 16 anos com ar desconfiado. O António diz que queremos entrar. O senhor vira-se: “vocês sabem para onde vão entrar?”. O António mais uma vez, na tanga, a armar-se “sei, eu frequento isto”. Eu como sou muito cauteloso, sou dos últimos a entrar. Lembro-me de estar eu e o Paulo Ribeiro, um moço do Porto, mais recuados. Entramos na primeira porta, depois vamos para um hall e nesse hall havia uma porta blindada lá para dentro. Só que nesse hall vejo umas pessoas e digo assim: “Eh pá, acho que isto é um bar de gays”. O homem que está no hall da entrada faz entrar os primeiros, eu e o Paulo Ribeiro quando estamos para entrar vejo logo dois tipos a dar beijos um ao outro, virei-me para o Paulo e disse-lhe que ia embora. Fiquei assustado, entrei em stress. O senhor ia a fechar a porta, eu ponho a mão na porta e o homem“ai não querem?”. “Não, não, esperamos lá fora” (risos). E ficamos lá fora. Eles depois saíram, disseram que foram obrigados a consumir bebida e só depois é que saíram. Foi a minha primeira saída (risos).

Estava a contar que estava nos juniores nessa altura e começa a treinar com a equipa sénior. A primeira vez que é chamado à equipa sénior, como foi?
Estava com um nervoso maluco, quase não podia olhar para a cara deles. Oceano, Pedro Barbosa…

Houve praxe?
Não, nessa altura eles só nos mandavam ir buscar os cestos da roupa. E uma pessoa ia toda contente, mas nem sequer falava para eles (risos). Lembro-me de, com 17 anos, querer fazer um banho de imersão como todos faziam e ia entrar no jacuzzi, estava lá o Pedro Barbosa, o João Pinto e disseram: “Ó miúdo onde é que tu vais? Não tens idade para fazer isto, sai já daqui” (risos). E lá fui eu, caladinho, a olhar para baixo. Eu a pensar que já tinha direito a massagens e jacuzzi (risos).

Quando sai do centro de estágio fica a viver sozinho?
Os meus pais decidem que é melhor fazer um acompanhamento, porque as pessoas estavam a depositar confiança em mim e a minha mãe veio viver comigo. Fomos viver para um apartamento pago pelo Sporting, no Alto da Faia. Estive lá com ela um ano.

Era muito controlado pela sua mãe?
Era, mas ainda bem. Também nunca fui muito de saídas à noite para discotecas. Hoje em dia gosto mais de estar num restaurante do que sair para discotecas. Sempre tive medo das coisas na noite. Pode acontecer em qualquer lado e em qualquer altura, mas há sítios mais propícios do que outros, e eu sempre tive na minha cabeça que para ser jogador, ou tentar ser jogador, temos de nos privar de certas coisas. Eu privava-me mas não ficava triste, fazia porque queria.

Estreou-se na I Divisão com 18 anos pela mão do Inácio, certo?
Sim. Num jogo com o Alverca. Empatámos um igual.

Foi titular ou substituiu um colega?
Entrei. Estávamos a ser massacrados e o Inácio mandou-me para o fogo, literalmente. Estávamos a ser assobiados. Eu estava muito nervoso. Hoje um miúdo com 16, 17 anos é preparado para chegar a esses momentos com outra maturidade. Na altura, lembro-me que estávamos a ganhar e estávamos a ser assobiados, e eu só pedia na minha cabeça "que não me ponha neste jogo". Estava completamente nervoso. Quando um miúdo entra, podia ser eu ou podia ser outro, se a equipa não ajuda, se alguma coisa de mal acontece, foi o que aconteceu, empatámos o jogo em casa contra o Alverca, a culpa é do miúdo. O miúdo entrou, o que é que foi para lá fazer, isto e aquilo...

Lembra-se de ouvir isso de alguém?
Não, mas foi o que saiu na imprensa. Recordo terem dito que não tinha capacidade para jogar na equipa A. Mas aos olhos de hoje, os miúdos entram, e entram preparados. Quando o Inácio chegou ao pé de mim, fechou-me no gabinete dele e disse: “miúdo estás preparado para jogar contra o Real Madrid, na Liga dos Campeões?”. Eu quase que engoli em seco, mas claro que disse que sim. Não havia preparação nenhuma. Hoje é diferente, fala-se diariamente com os jogadores, há apoio psicológico, etc. Naquela altura ninguém falava nada, era ir lá treinar, tens qualidade vai ao jogo e acabou. Para um miúdo vingar... era preciso uma grande percentagem de sorte, de estar no momento certo, à hora certa, com a pessoa certa. Para vingar e ser mais fácil a sua projeção, a equipa tem de estar bem, tem de transpirar confiança. Coisa que não existiu na minha altura. O Inácio, por exemplo, nunca mais me pôs a jogar. Claro que se tivéssemos ganho e se tivéssemos jogado bem, provavelmente era chamado novamente.

Jogou bem?
Não, ninguém jogou. Vai um miúdo com 18 anos no meio daqueles tubarões fazer o quê? Não sou nenhum Maradona, não sou nenhum Cristiano Ronaldo.

Carlos Martins como jogador do Sporting a disputar uma bola com Nuno Gomes, do Benfica
Carlos Martins como jogador do Sporting a disputar uma bola com Nuno Gomes, do Benfica FRANCISCO LEONG
Entretanto, é emprestado ao Campomaiorense.
Vou ao Torneio de Toulon e estou a falar com um jornalista que me diz que está em off e eu digo-lhe que fui prejudicado pelo Sporting, que me sentia injustiçado, que nunca mais me chamaram à equipa sénior por causa daquele jogo e que as pessoas não se portaram bem comigo; prometiam uma coisa e depois não faziam. Por um lado tenho culpa, por ter falado muito, por não ter experiência, que hoje os miúdos já têm porque há alguém por trás a dizer: “não fales, está calado, deixa-me falar a mim”. Isso é muito importante e eu não tive esse acompanhamento. Saiu no Record uma página completa a dizer: “Fui prejudicado pelo Sporting”. Aquilo caiu como um bomba. Disseram-me que tinha de ser emprestado porque o Sporting estava triste comigo, porque era uma entrevista forte.

Quando lhe disseram que ia para o Campomaiorense, qual foi a sua reação?
Eu próprio também quis ir porque, se não me engano, na época anterior o Campomaiorense tinha estado na primeira divisão. Era o meu último ano de júnior, ou o primeiro de sénior, e tinha a possibilidade de jogar. Portanto, juntaram-se as duas coisas. Agora, fiquei triste por me ter estreado no Sporting, as pessoas estarem a pensar que viam em mim alguma coisa e depois, de um momento para o outro, ter ido parar ao Campomaiorense. Mas é assim a vida.

Foi para Campo Maior sozinho?
Fui com outros colegas, fomos uns 5. Eu fiquei a viver com um colega, o Vasco.

Como correu essa época?
Em termos desportivos foi bom, porque joguei, marquei e fiz muitas assistências.

Era Diamantino o treinador.
Sim. Depois veio um espanhol, Fabio Gonzalez que... meu Deus...

Então?
Maluco. No primeiro treino da semana metia-nos a jogar futebol. Em termos táticos, tinha umas táticas que não eram comuns. Foi difícil porque veio substituir o Diamantino quando estávamos em 2º lugar; a partir daí foi sempre a descer. Quando estamos a descer todos os problemas vêm ao de cima. A mim acusavam-me que só jogava bem na seleção, que não queria jogar no Campomaiorense porque era jogador do Sporting. Isso acaba por acontecer com qualquer jogador que vai de uma equipa para outra e as coisas correm mal: “Ele tem contrato com os outros, quer lá saber disto”. Lembro-me do Paulo Vida, um jogador fantástico, um ponta de lança que fazia golos a todos de todas as formas e feitios, também o acusaram de não querer marcar golos porque estava lixado, bom... Foi o ano que também ficou na história porque o clube acabou. Não foi positivo em termos de clube.

Regressa para a equipa B do Sporting?
Sim.

Ficou chateado por não ir para a equipa principal?
Não. Eu fiz uma boa época em Campo Maior. As pessoas diziam: “Eh pá tu és maluco, mas és grande jogador”.

Porque é que diziam que era maluco?
Se calhar porque eu falava as coisas. Nunca fui de me calar e no futebol há que saber calar, mas nunca faltei, nunca mandei um treinador para o outro lado.

Era um refilão.
Isso sim. Era refilão e admito que muitas vezes devia ter estado calado. Eu adorava ganhar, ficava doido se perdia. Isso sempre me caracterizou e é uma coisa que levo com agrado. Sempre dei tudo e por vezes as pessoas interpretavam mal ou eu esticava mais um bocado, mas a minha essência é aquela que os meus pais me ensinaram, sempre a respeitar todos.

Depois é chamado pelo Bölöni à equipa principal. O que achou dele?
Muito severo, um bom treinador, penso que fez um bom trabalho, mas rotulou-me logo na primeira conversa. Disse-me: “eu sei que tu és maluco, és um grande jogador, mas à mínima coisa que faças aqui comigo, vais-te embora.” Foi assim, nunca ninguém me deu nada. Há aqueles jogadores que caem na graça de Deus, sei lá, mas nunca tive essa hipótese, nem essa sorte. Nunca ninguém me disse: “Eh pá, calma. Ele fez isto, mas vamos perdoá-lo", ou seja o que for, nunca. O João Pinto lesiona-se no ombro, penso eu, e faço 6 ou 7 jogos seguidos. Penso que é assim. Ganhei alguns créditos, as pessoas começaram a acreditar mais em mim. Mas de repente, o Bölöni vira-se e diz: “Tu tens um problema, não podes ser jogador do Sporting assim”. Do nada.

Por causa do feitio?
Não. Volta e meia estava num jogo ou no treino e saltava-me o ombro, tanto que fui operado. O Bölöni do nada chega-se: “Tu não podes ser jogador do Sporting com esse problema, tens de tratar.” Respondi-lhe: “Não vou ser tratado agora porque consigo jogar. Tento evitar alguns movimentos que me fazem saltar o ombro”. Mas ele já não me queria mais, dizia que eu não estava apto para ser profissional do Sporting. É então que me aparece a Académica, que estava na 1ª divisão. O treinador era o Artur Jorge que me quis logo lá.

Que tal o Artur Jorge?
Espetacular, dava-me muita atenção e ensinava-me, tinha paciência, porque para jovens é preciso ter paciência. Temos de ver a essência do jovem primeiro. Se for uma essência maldosa, há que apertá-lo de maneira diferente. Se for uma essência boa, mas de sangue quente, é preciso perceber. Hoje em dia todos os que querem ser treinadores são, mas só quem tem uma relação humana com os jogadores é que vai longe. Não são aqueles que estudam e depois tratam mal os jogadores. Sei que estive lá dois meses e recebi um telefonema do Sporting a dizer para regressar mais cedo, para ser operado, para começar bem a época seguinte.

Já com o Fernando Santos.
Espetacular também. Aliás todos eles, todos eles.

Não houve um treinador que o tenha marcado mais?
Em termos pessoais o José Peseiro, sem dúvida. A minha melhor fase no Sporting é com ele. Deu-me total liberdade para jogar, cometi alguns erros,mas ele nunca foi tão duro. Aí sim, se tenho de destacar alguém é o Peseiro. Acho que é bom demais para ser treinador ao nível de um clube grande. O que quero dizer com isto é que há pessoas e há jogadores que tendem a abusar quando encontram uma pessoa que é boa. Ele é nosso patrão, é o nosso treinador. E naquelas alturas em que devia ser rígido nunca o era, porque era a essência dele. Levava sempre as coisas a conversar, encontrava sempre um ponto ou outro para que tudo ficasse calmo. E na alta competição às vezes a coisa não pode ser assim.

Pela negativa, houve também algum que o tenha marcado?
Pela negativa, mas sem ter nada contra ele porque não sou rancoroso, o Jorge Jesus. Mas mais à frente falamos disso.

Como lhe corre a época com o Fernando Santos?
Mais ou menos. É preciso não esquecer que eu tinha o João Pinto na minha posição. Por mais que fizesse tinha aqueles tubarões todos ali e eu era sempre um menino. Totalmente diferente da visão de hoje em dia. Hoje, um puto joga com 18 anos e ninguém acha anormal. Naquela altura jogar com esta idade no meio destes tubarões…(risos).

Carlos Martins na sua casa em Cascais.
Carlos Martins na sua casa em Cascais. NUNO BOTELHO
Depois, vem o Peseiro e no ano a seguir o Paulo Bento. É a primeira vez que tem um treinador que foi seu colega de balneário. É uma situação complicada?
Não, não foi difícil. Quando o Paulo assumiu a equipa disse logo: “Para aquelas pessoas que já trabalharam comigo e foram meus colegas não quero que me tratem por mister”. Para ele não fazia sentido. Sabíamos diferenciar as coisas.

Mas as coisas não correm bem com o Paulo Bento.
Não. É ele que dita a minha saída.

O que aconteceu?
O Paulo Bento fica marcado com a minha saída do Sporting única e exclusivamente por ser o treinador nessa altura, mas nada tem a ver com ele. Tem a ver com as minhas lesões na perna direita, que eram constantes, sempre na mesma perna. Nesse período pedi para ser observado por outro médico. Fui ao médico do Bayern de Munique e da seleção alemã, o Müller [Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt]. Ele manda-me fazer um exame que nunca ninguém se tinha lembrado: um raio-x às costas. E o meu problema estava no ilíaco, tinha uma perna mais curta do que a outro e daí as minhas lesões serem sempre na perna direita.

Qual era a solução?
O Dr. Müller disse-me que para ficar curado tinha de fazer no mínimo três tratamentos. Só eu sei que tratamentos eram… Com agulhas enormes a perfurar-me as costas e a perna por dentro, para ir às fibroses e descalcificar as fibroses. Era já tanta fibrose que eu tinha que, claro, ninguém podia jogar como eu estava. O departamento clínico do Sporting, não o Paulo Bento, desde o primeiro dia nunca foi de acordo que eu fosse lá. Hoje isto também já está mudado, mas antigamente, meu Deus. Antigamente fazia-se mas tinha de ser às escondidas, ninguém podia pedir uma autorização ao clube. Eu pedi.

O departamento médico não quis que fizesse o tratamento?
O departamento clínico disse que eu estava hipocondríaco, que era da minha cabeça, que eu estava maluco por dizer que tinha coisas na perna. Inclusivé o médico, o Gomes Pereira, não quero falar muito desse senhor, ele nunca mexia muito nos jogadores, mas a única vez que me mexeu na perna, esteve 15 segundos e disse que eu não tinha nada. Eu tinha a perna cheia de fibroses calcificadas, isso via-se na ressonância, enfim. Compreensivelmente eu não aceitei bem a decisão do departamento clinino do Sporting. O Paulo Bento teve de se pôr ao lado da direção e do departamento clínico. E diz-me: "Carlos se tu lá vais mais alguma vez ao estrangeiro, não jogas mais comigo.” Fiquei chateado por ele me estar a dizer aquilo e respondi: “Olha Paulo, não me interessa que não jogue mais. Eu quero é tratar da minha saúde. Preciso de lá ir mais uma vez, fica ao teu critério se me pões ou não a jogar”.

E foi?
Fui lá mais uma vez. Tudo pago do meu bolso. Graças a Deus que fui. Fui tratado e fiquei bem. E é aí que se rompe a ligação que tenho com o Sporting e com o Paulo Bento. Sei que estive dois meses sem jogar e sei que o Paulo também é uma pessoa convincente: aquilo que diz, faz. Achava ele que estava a defender o departamento clínico, que dizia mais uma vez que eu era maluco, que eram as noitadas, que era droga, o que não disseram de mim. E eu quando ia à Alemanha, ia com o Carlos Gonçalves, que era o meu empresário na altura. Só eu sei os tratamentos que me fizeram lá, mas sabia que aquilo era para o meu futuro. A dois meses de acabar a época, fui lá uma última vez e tive uma conversa com o Paulo. Disse-lhe que já estava bem, mas ele disse-me que já tínhamos falado sobre o assunto. Respeito. Mas foi muito doloroso ter saído do Sporting assim.

Quando falavam que eram noitadas, droga...
...Senti uma revolta muito grande. Mas sempre cresci assim. Se chegar ao pé de alguém do Sporting, que se lembre de mim naquela altura, e perguntar pelo meu percurso, vão dizer: “Eh pá, o Carlos, grande jogador mas cheio de lesões, era só noites, era só mulheres, era não sei o quê”...

Era mentira?
Claro que sim, eu comecei a namorar com a minha mulher tinha 22 anos, antes tinha uma namorada, sempre fui uma pessoa pacata, fiz as minhas coisinhas, mas sempre muito responsável. Isso foi uma imagem que se criou e tive de levar com isso até sair do Sporting. Quando fui para o Benfica a visão que tinham de mim mudou um bocado, mas no Sporting sempre foi assim. Um talento imenso, mas tinha muitas lesões porque a vida não era compatível.

Carlos Martins representou o Recreativo de Huelva, de Espanha, em 2007/08.
Carlos Martins representou o Recreativo de Huelva, de Espanha, em 2007/08. BAGU BLANCO
Era o seu clube de coração, o clube onde cresceu e onde se tornou profissional.
Quando fui fazer a desvinculação, chorava que nem um bebé e o Carlos Freitas também. Custou-me horrores sair do Sporting, mas foi por causa disso. Eu não abandonei o Sporting, o Sporting é que quis que eu saísse. Porque o Paulo ia continuar, ele já não me queria lá porque tinha dito aquilo, que eu tinha infringido uma regra dele. Tinha-me dito cara a cara. Assumi a minha decisão em prol da minha saúde.

Porque é que na altura não tornou isso público? Porque não se quis defender?
Porque fui aconselhado a não falar.

Pelo seu empresário?
Também.

Vai para o Recreativo do Huelva. Não houve interesse de outros clubes, do Espanhol de Barcelona, do AEK, do Panathinaikos?
E do Benfica, já na altura. Eu tive contrato ainda era jogador do Sporting. Na altura foi público e dizia-se que estava em conflito com o Paulo Bento. Mas as pessoas não sabiam que o que gerou o meu conflito com o Paulo não foi por não jogar ou por ter sido mal criado, mas sim por uma declaração do posto médico. Na altura, o meu empresário reuniu-se comigo e com o Fernando Santos em casa do Veiga. Vimos qual era a melhor maneira de eu sair do Sporting e ir para o Benfica, discutimos isso. Achamos por bem que tinha sempre de fazer uma ponte fora, nunca podia sair diretamente para o Benfica, porque o Sporting nunca deixaria um jogador ir diretamente. Apareceu o Recreativo do Huelva porque o Beto estava lá. Eu tinha sido companheiro do Beto, ele ligou-me: “Vem para aqui, é um clube da primeira liga, estamos perto de Portugal”. Sempre rejeitei muita coisa por não querer estar longe, não tinha aquela coisa de ir à aventura por muitos países. Em Huelva podia vir de carro a Portugal, não gosto muito de andar de avião. Era um clube que ia apostar mesmo em mim, iam formar equipa à minha volta e foram estas condicionantes que me fizeram optar por Espanha

Entrevista completa: https://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2019-05-11-A-porta-o-seguranca-perguntou-Tem-a-certeza-.-Entramos-homens-aos-beijos-era-um-bar-gay.-A-primeira-saida-a-noite-correu-tao-mal

https://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2019-05-12-A-vida-do-meu-filho-dependia-de-um-saco-de-sangue-de-medula.-Chorei-desenhei-o-nome-dele-em-coracoes-na-areia-nao-fui-ao-Euro-por-ele


por acaso estive a ler mais umas quantas entrevistas e são bastante interessantes (apesar de haver sempre muito cuidado em não queimar ninguém nem se queimarem a eles próprios)..

mas é interessante ver o que os jogadores que foram treinados pelo jj dizem dele (basicamente, que percebe daquilo como ninguém); o papel de alguns treinadores no futebol do passado.. por exemplo, o josé romão, aparece algumas vezes como o treinador que apostou nesse jogador; o facto de o oceano achar que o jorge gonçalves perdeu muito dinheiro no Sporting e até ter a opinião que teria dado um bom presidente.
@PauloD eu vou essa página várias vezes para ler as entrevistas de ex-jogadores do Clube até porque as perguntas são muito bem feitas.

É óbvio que os gajos tem que sair, quase sempre, com a sua imagem limpa e a culpa é dos outros mas é interessante que muitos metem o dedo na ferida em relação a certos temas.

É bom para eles contarem a sua versão da história, apesar de agora já ter passado muito tempo e os adeptos continuarem a não perdoar certas coisas.

Agora uma coisa que vou lendo dos ex-jogadores e em livros é que o nosso Clube às vezes faz cada coisa que não lembra ao diabo.
"Para mim , o Sporting é como uma mulher que se ama logo à primeira vista. Um homem pode conhecer várias mulheres , mas há sempre ‘aquela’, a especial. Independentemente de ficarmos com ela ou não, lembramo-nos dela para sempre!" - Ivone De Franceschi
@PauloD eu vou essa página várias vezes para ler as entrevistas de ex-jogadores do Clube até porque as perguntas são muito bem feitas.

É óbvio que os gajos tem que sair, quase sempre, com a sua imagem limpa e a culpa é dos outros mas é interessante que muitos metem o dedo na ferida em relação a certos temas.

É bom para eles contarem a sua versão da história, apesar de agora já ter passado muito tempo e os adeptos continuarem a não perdoar certas coisas.

Agora uma coisa que vou lendo dos ex-jogadores e em livros é que o nosso Clube às vezes faz cada coisa que não lembra ao diabo.

eu só li ontem, mas despachei umas 7, quase todas de jogadores que passaram pelo Sporting (carlos martins, oceano, edmilson, nuno andré coelho, miguel garcia...).  Sim, a imagem que passa é que no Sporting não havia grande organização e condições..
Soube agora que o Gudelj foi-se embora!

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Ainda somos campeões.
Soube agora que o Gudelj foi-se embora!

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Ainda somos campeões.

Nao percebi esse post aqui . . . Ele nunca foi jogador  :rotfl: :rotfl:

Devia ser na secção do staff ou assim  :rotfl: :rotfl:
O meu coração só tem uma cor verde e branco
Soube agora que o Gudelj foi-se embora!

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Ainda somos campeões.

Nao percebi esse post aqui . . . Ele nunca foi jogador  :rotfl: :rotfl:

Devia ser na secção do staff ou assim  :rotfl: :rotfl:

Uma notícia dessas deve ser celebrada em todos os tópicos.

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Merih Demiral, defesa central turco que passou pelo Sporting, é o novo central da Juventus de Sarri.  Em nota publicada no sítio oficial, o crónico campeão italiano anunciou a chegada de mais um reforço, que fica ligado ao clube para as próximas cinco temporadas, custando um total de 18 milhões de euros aos cofres da equipa de Turim - o pagamento será feito em quatro anos.  Em Portugal, com as cores do Sporting, o internacional turco jogou maioritariamente na equipa B, somando apenas um jogo com a formação principal dos leões.  Na época transata, Demiral dividiu-se entre Alanyaspor e Sassuolo. As boas atuações na Serie A italiana valeram-lhe a transferência para o colosso europeu.


https://www.zerozero.pt/news.php?id=255476

É bem filhos da p***.
Se tudo correr bem vai ser um dos melhores mercados dos últimos anos.
Merih Demiral, defesa central turco que passou pelo Sporting, é o novo central da Juventus de Sarri.  Em nota publicada no sítio oficial, o crónico campeão italiano anunciou a chegada de mais um reforço, que fica ligado ao clube para as próximas cinco temporadas, custando um total de 18 milhões de euros aos cofres da equipa de Turim - o pagamento será feito em quatro anos.  Em Portugal, com as cores do Sporting, o internacional turco jogou maioritariamente na equipa B, somando apenas um jogo com a formação principal dos leões.  Na época transata, Demiral dividiu-se entre Alanyaspor e Sassuolo. As boas atuações na Serie A italiana valeram-lhe a transferência para o colosso europeu.


https://www.zerozero.pt/news.php?id=255476

É bem filhos da p***.

Calma que ainda ganhamos uns trocos . . . Mais do que a saida do nani e montero juntos  :wall: :wall:  tipo prai uns 180 mil euritos  :rotfl: :rotfl:
O meu coração só tem uma cor verde e branco
:lol:

Nada previsível. Que negócio ruinoso.
O Iuri também saiu a 0? Ou foram revelados valores?
O BURRO do Zé Turbo vai jogar na 2a divisão Suiça no Schaffhausen.

ahahaha

Ca ganda idiota!
O BURRO do Zé Turbo vai jogar na 2a divisão Suiça no Schaffhausen.

ahahaha

Ca ganda idiota!
Já estive nessa cidade... numa tarde de sábado... cidade fantasma
O BURRO do Zé Turbo vai jogar na 2a divisão Suiça no Schaffhausen.

ahahaha

Ca ganda idiota!

Está no país certo para continuar a sua carreira. Brevemente estará a jogar no clube local durante a noite. Durante o dia vai acartar baldes de massa!
Golo do Nani na liga Europa nomeado para golo do ano nas competições UEFA


https://www.uefa.com/goal-of-the-season/
Não sei se já aqui puseram mas o Ryan Gauld abordou pela primeira vez de forma mais alargada a sua passagem pelo Sporting.
Um relato onde fala das expectativas que teve, do tempo turbulento e confuso que passou no clube, do caso em que foi obrigado a voltar quando estava no Setúbal, de como foi obrigado a aceitar um empréstimo ao Chaves que depois não se concretizou, ou então treinava na B mas sem hipóteses de jogar, enfim...
Um relato que devia fazer refletir os sócios e adeptos do Sporting e responsabilizar quem lhe destruiu a carreira.

É este o link:

https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://amp.reddit.com/r/ScottishFootball/comments/cignrt/ryan_gauld_ive_no_regrets_about_portugal_move/&ved=2ahUKEwiGvKilitbjAhUh6uAKHX_JCCcQFjADegQIBBAB&usg=AOvVaw2MPlZGDfvh9v5n3WvRx4IK&ampcf=1&cshid=1564264297607
« Última modificação: Julho 27, 2019, 23:16 pm por Leão da Estrela »
Sporting sempre!

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Um espaço para debater futebol
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«Ronaldo é o Nadal, Quaresma é mais o Federer»

Rui Miguel Tovar entrevista Toñito, que recorda histórias do Sporting e do futebol português, de Ronaldo e Schmeichel, de Pedro Barbosa e Paulo Bento, até de quando Materazzi vestia o avental e fazia o jantar para o plantel. Venha daí nesta viagem.



Rui Miguel Tovar está no Maisfutebol com a rubrica LOAD " " ENTER. Para ler todas as semanas e saborear conversas por vezes improváveis com as principais figuras do futebol. Já sabe, basta escrever LOAD " " ENTER para entrar neste mundo maravilhoso de Rui Miguel Tovar.

Faz cara séria. Nãããããã, missão impossível. Toñito é daquelas pessoas de alegria contagiante. Seja em Espanha ou em Portugal, seja em Tenerife ou em Alcochete, ele chega a um sítio e transforma-o patas arriba. É um bem-disposto por natureza, de sorriso imediato e conversa fácil. Tanto assim que é o próprio Toñito quem começa a entrevista. É só rir.

Sabes uma coisa?

Nem ideia.

Saudades disto.

Da academia?

Também. Se me arranjassem um cubículo, passava aqui o ano. Na boa. Ia ali ao ikea, mobilava e pronto [Toñito parte-se a rir]. É sério, gosto muito disto. Vi isto a crescer, lembro-me perfeitamente de todos os passos. Além disso, sou agarradíssimo ao Sporting.

Estás aqui agora porquê?

Trouxe a minha equipa.

A tua equipa?

Ya, o Sporting Clube de Tenerife.

Sério?

[Toñito endireita-se e faz uma cara sério] É o meu Sporting. Foi uma ideia que nasceu quando ainda jogava futebol, na Croácia [Rijeka], em 2007, e cresceu até ao ano da sua fundação, em 2011. Pedi ajuda ao Sporting e correu tudo bem. Até jogamos de verde e branco.

Nãããããã

A sério.

Maravilha.

Sabes, o verde acompanha-me toda uma vida. O meu primeiro clube de sempre, aos 11 anos de idade, é o Ramal. Verde e branco. Depois, Vitória. Mais verde e branco. A seguir, Sporting. Verde e branco.

É verdade, como é que saltas do Tenerife para Setúbal?

Aos 15 anos, já jogava nos sub18. Aos 16, com a equipa B. E treinava com os seniores.

No Tenerife de quem?

Primeiro Valdano, depois Heynckes.

Eiscchhpectáculo

Valdano falava futebolês, sabes? Ele dizia as coisas e nós entendíamos na perfeição. Nem havia perguntas nem nada. Os treinos eram aulas. O adjunto dele também era especial, um filósofo no futebol. Chama-se Ángel Cappa.

Conheço-o mais pela escrita

Claro, é um filósofo, como te digo. Ele também nos transmitia as coisas de uma maneira simples com uma linguagem eficaz.

É esse o Tenerife que tira dois títulos de campeão seguidos ao Real Madrid?

Jajajajajajajaja.

E estavas lá?

Como espectador e, depois, apanha-bolas. Ainda tenho bem marcado na memória o 3-2 do Pier, erro do Buyo. O Real estava a ganhar 2-0 e perdeu 3-2. O Barça do Cruijff foi campeão nesses dois anos. Inesquecível.

E o Heynckes?

Só tenho boas coisas para dizer dele. Apostava em mim.

E treinavas com quem?

Redondo.

Nãããããããã.

Siiiiiiiiiii. Redondo, é verdade. Devia despejar meio frasco de perfume antes de cada treino. Se já era difícil roubar-lhe a bola, porque ele a manejava muy bien, até com a ajuda do corpo e dos cotovelos, a missão tornava-se impossível com aqueleas doses de perfume, jajajajaja. São recordações que levo para a vida. E cheiros.

E mais jogadores

Chano, o do Benfica. Aguilera, do Atlético Madrid. Havia craques até dizer chega, era uma equipa muito boa, do caraças, que chegou às meias-finais da Taça UEFA.

E tu ali no meio?

E quietinho, nem imaginas.

Então?

Antigamente havia mais respeito. Se me quissesse dirigir à equipa, pedia autorização. Tanto Valdano como Heynckes tinham o hábito de chamar dois miúdos para se juntarem ao treino. Era eu e outro. A gente treinava-se, tomávamos banho e mudávamo-nos numa cadeira de madeira. Nunca nos sentávamos no banco longo, ao lado dos outros. E não saíamos logo. Primeiro, tínhamos de limpar o balneário todo. Hoje em dia, um miúdo qualquer manda-te para um sítio. Antes havia respeito, é algo que se aprende desde pequeno.

E sentias o teu futuro no Tenerife?

Quando apareceu a proposta do Vitória, falei com o meu treinador e ele disse-me que não havia buraco para mim na equipa. Que iria jogar uma vez, duas ou três, e aconselhou-me a aproveitar porque o meu futebol tinha valor.

E vieste para cá?

Grande aventura. Sobretudo para quem nunca tinha saído de Espanha.

E que tal, Setúbal?

Está gravado na memória, lógico. Lançou-me a carreira. E é um sítio lindo, cheio de pessoas espetaculares. Também tive sorte.

De quê?

A sorte da vida, de estar bem acompanhado pela minha namorada. Uma mulher boa é melhor que um empresário. É a sério: qualquer miúdo que comece, tem de ter uma pessoa mais importante que ele, por assim. Que não dê chatices, que não crie problemas. Tive sorte.

E desportivamente?

O primeiro ano não foi grande coisa. Treinava muito, mas jogava pouco.



Quem era o treinador?

Manuel Fernandes. Com quem joguei depois no Sporting e Santa Clara. Ele gostava muito de mim, só que queria-me no ponto. Mal entrei na equipa do Vitória, nunca mais saí. Nunca tive um pai na vida e posso atribuir esse papel ao Manuel Fernandes.

Nunca tiveste um pai?

Venho de uma família destruturada, com sete irmãos. Sou o quinto. Vivíamos com a minha avó num bairro pobre, com muita deliquência. Como te digo, tive sorte porque podia passar para o outro lado com facilidade. Tinha irmãos que davam problemas, que se dedicavam a coisas que não eram deste mundo

E agora, esses irmãos?

Um tem uma doença degenerativa, ficou quase cego. Outro tem uma placa na perna porque teve um acidente de viação e não pode trabalhar. Outro teve menigite no ouvido quando era pequeno. O outro trabalha numa empresa de ar condiconado. Estes os mais velhos. Dos mais novos, a minha irmã trabalha numa bomba de gasolina e o outro trabalha na construção civil. Todos em Tenerife. A sorte é que passava o dia a jogar futebol.

Onde?

Onde calhasse. Na rua, em cima de asfalto. Descalço, quase sempre descalço. Era o dia todo assim, antes e depois da escola, claro. Quando tinha fome, roubava maçãs e peras das árvores dos terrenos vizinhos e, depois, voltava a jogar futebol. Não tive o carinho de pai e mãe. A minha mãe trabalhava como empregada de limpeza numa escola e, às vezes, passava dois/três dias sem a ver. E também não tinha referências escolares, alguém que me dissesse para estudar ou alguém que me ensinasse o que fosse. Só tenho o ensino básico porque o Tenerife contratou-me e obrigou-me a fazer a escola até ao fim. Eu lembro-me de dizer aos dirigentes que só queria jogar futebol e eles, bem, diziam-me que ‘os estudos estão primeiro’.

É bem.

Se voltasse atrás, repetia tudo: o andar descalço e a jogar futebol. Sinto que me valorizei por mim e são esses valores da humildade e respeito que passo às minhas filhas.

Claro.

Em Setúbal, já é outro nível de vida. E estava dentro de uma dinâmica muito própria, a de uma equipa de futebol.

E que tal?

O Vitória foi um sonho. A qualidade humana era ilimitada. Vê bem os nomes: Hélio, Mamede, Frechaut, Mário Loja, Chiquinho Conde, Chipenda, Zé Rui. Um equipazo. Fomos à Intertoto no segundo ano. Era costume almoçarmos ou jantarmos lá em cima, com vista para o mar. Quase sempre um peixinho, num bar minúsculo que o Hélio adorava. Digo-te, o mais importante do futebol é o grupo. E um grupo sem craques, com todos a remar para o mesmo lado, é do melhor. Esse Vitória era assim, um grupo de compromisso, de bons rapazes trabalhadores.

E os adeptos do Vitória?

Muito sentimentais. Como os do Sporting, sabes? Havia um bar chamado Bica e eu passava lá o tempo a falar com eles. Bebíamos um café na boa e, às vezes, até jogávamos snooker. Malta boa, bem boa.

Depois, Sporting.

Sonho, outro. O Porto até foi o primeiro clube a interessar-se, mas preferi o Sporting. É a questão do verde e branco, jajajajaja.

Deste-te bem?

Super, falava com todos. Castelhano com Duscher, Hanuch, Acosta e Kmet. Portunhol com os portugueses. E por gestos com os estrangeiros.

Como quem?

Schmeichel, jajajajaja.

Era porreiro?

Dentro de campo, rígido e sério. Fora, um personagem. Estava sempre na brincadeira. Boa gente. E um animal, fooooogo.

Então?

Então? Nas bolas paradas, bastava ouvi-lo a gritar no ataque à bola que ninguém ousava intrometer-se no caminho. Dava uma segurança imensa à equipa.

E nos treinos?

Ficava pior que estragado quando lhe marcava golos de chapéu. Sabes como é, aqueles treinos de finalização, de um para um? Entras na área, com todo o tempo do mundo, sem marcação, e aproveitas para brilhar. O Schmeichel, tal como todos os outros guarda-redes, saía-se dos postes e eu picava-lhe a bola. Beeeeem, o gajo passava-se. Começava a correr atrás de mim a dizer ‘fuck you’. Depois, quando nos encontrávamos no balneário, agarrava na minha cabeça e fingia que a arracava. Ficava mesmo danado.

Esse é o Sporting do Materazzi, certo?

Eeeeee, o Materazzi era espectáculo.

A falar, dizes?

Bom, a falar não sei. Não o compreendia muito bem.

Quem é que traduzia?

Ayew, Spehar, De Franceschi. O De Franceschi nem sequer falava português e traduzia-nos, jajajajaja. Era só rir. A piada do Materazzi era vê-lo a fazer-nos o jantar na pré-época.

Fazer-vos?

Houve dias em que metia o avental e dizia-nos ‘hoje faço eu a lasanha’. E fazia para nós. Bem boa, hein?! Digo-te, a pré-época do Materazzi foi-nos benéfica lá mais para a frente. Quem tiou proveito disso foi o Inácio. Nós treinávamos três vezes por dia e chegámos lentos em Setembro, Outubro e Novembro. A partir de Dezembro, voávamos. Todo o mundo se soltou e foi o que se viu. Ultrapassámos o Porto e fomos campeões. Claro, tínhamos qualidade.



Campeões em Vidal Pinheiro?

Salgueiros [Toñito soletra devagar]. Foi a coisa mais bonita da minha vida: a festa no relvado, no balneário e depois a viagem de autocarro até Lisboa. Para se ver como é que é o futebol, em que o estado anímico muda de uma semana para a outra.

Falas do Benfica?

Tínhamos toda a festa preparada, era o filme ideal: campeão ao fim de 18 anos, em casa e com o maior rival. A caminho do balneário, maltratei tanto o Sabry.

Jajajajajajaja.

Filho da p****, cabrón. Ele estava a festejar como se tivesse ganho o campeonato. Todo contente. Eles todos, aliás. E nós de rastos.

Imagino.

Não imaginas, havia gente a chorar no balneário. Muitos choravam. Mesmo. Na semana seguinte, aquela explosão de alegria. O futebol é mesmo assim, pasión.

Nesse ano, há ainda a final da Taça de Portugal com o Porto.

Fui expulso nesse dia.

Ai é? Olha, não sabia.

Só fui expulso duas vezes. No Jamor e no Bessa. No Jamor, doeu bastante porque é uma final da Taça. No Bessa, foi um jogo de campeonato e, nessa circunstância, a equipa pode recuperar. Numa final de taça é mais difícil. Fiquei devastado.

Como é que foi a expulsão?

Foi numa jogada de canto, acho. Como se chama aquele pequeno do Porto que dava muita porrada?

Pequeno?

Sim, pequeno.

O Paulinho?

Paulinho Santos, esse.

Ele é pequeno?

Bueno, pequeno como eu. Jajajajaja. Pegou-se com o Acosta e fui ajudar o Acosta. Quando o linier [fiscal-de-linha] foi lá para serenar os ânimos, empurrou-me. E a minha reação foi empurrá-lo de volta. Claro, fez queixa ao árbitro e fui expulso. Foi o pior dia da minha vida.

Títulos, expulsões, só faltam golos. Marcavas alguns. Ao Benfica, por exemplo.

Um-zero do Vitória, no Bonfim. Com o braço agarrado ao peito.

Como assim?

Na semana anterior, a meio do treino, saiu-me o cotovelo num salto de cabeça com dois jogadores. O médico do Vitória, um senhor já velhinho, meteu-me o cotovelo na posição e dei um grito do caraças, aahhhhhhh. Durante essa semana, e porque estava a jogar bem; o presidente do Vitória levou-me a um curandeiro e meteram-me ervas e sei lá o que mais. A verdade é que o cotovelo já não estava inflamado no dia de jogo e entrei em campo com uma venda. Antes do início do jogo, os jogadores do Benfica viram-me e fizeram queixa ao árbitro. Alegavam que era gesso, o que é ilegal num jogo de futebol. O árbitro tomou nota e apalpou-me. Como era uma venda, autorizou-me a jogar e marquei o golo da vitória.

Como?

Jogada do Zé Rui pela banda e cruzamento. Eu parei a bola e atrei. Na baliza, o grande Preud’homme.

E ao Porto, tens golos?

Marquei pelo Santa Clara, nos Açores e no Dragão. Nos Açores, até marquei duas vezes. Ganhámos 2-1 e, à mesma hora, o Sporting jogava com alguém. Esse jogo fez com que o Sporting passasse o Porto na classificação. Ou igualasse, já nem sei. Estamos a falar do ano em que o Sporting foi campeão em 2002. Sei é que telefonei aos meus amigos do Sporting todo contente e eles a dizerem-me que os adeptos do Sporting começaram a cantar ‘que fuerza Toñito’ a meio do jogo. Era o sinal de que tinha feito golo. Ajudei o Sporting, por fora.

Quem era o guarda-redes do Porto?

Baía, Vítor Baía. Dois golos. Um foi em corrida, o outro de penálti. No de penálti, o Baía aproximou-se de mim e disse-me ‘espanhol, cuidado que sei onde vais metê-la’. Ele adivinhou o lado, só que atirei para cima. Quando a bola entrou, pisquei-lhe o olho.

E ele?

Riu-se. O Vítor é fantástico. Conheci-o no Porto, quando eu já estava no Boavista, e é super.

E esse Santa Clara?

Grande equipa. Sérgio Nunes, Jorge Silva, o guarda-redes, Brandão, Toni, Figueiredo, Vítor Vieira, Paiva, Hanuch, emprestado pelo Sporting, e o Leal. Lembras-te do Leal?

Ya.

Que grande gajo, o que me ria com ele. Era o palhaço do balneário

E o treinador?

Manuel Fernandes. Ele levava-nos a almoçar lá acima, ao cozido das furnas. E também nos levava a jogar paintball. Que figura, que tempos. Ainda nesse ano, joguei o jogo das estrelas em Alvalade. Era estrangeiros contra portugueses. E falou-se da hipótese de naturalização.

Tua?

Siiiiiii, para jogar por Portugal.

Era o Scolari?

Já não me lembro. Sei que me falaram disso no balneário e, depois, lá fora, o meu empresário também falou disso. Eu estava mais que dividido. Sou espanhol, não é? Se fosse agora, nem pestanejava e aceitava, claro.

Estavas em alta?

Muito. Voltei ao Sporting e marquei uns sete ou oito golos. Era o Bölöni, que jogava com três centrais e dois extremos pela banda. Eu à direita e o Rui Jorge, ou o Tello, à esquerda. Nunca mais me esqueço: quando jogámos com o Inter para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, o Hector Cúper elogiou-me bastante. Deu-me uma moral que durou a época toda.

Quem era o teu rival pela banda?

César Prates. Esse estava sempre feliz, jogasse ou não. E sempre com a sua guitarra.



Esse já é um Sporting diferente do de 2000.

Siiiiii, claro. Havia muitos miúdos, Bölöni puxou para cima muita gente. Ronaldo, Quaresma, Carlos Martins, Hugo Viana. Ajudaram-nos bastante.

Lembras-te do Ronaldo desses tempos?

Se me lembro? Claro que sim, era um craque,

Já adivinhavas o futuro?

Isso não. Adivinhava que ia ser jogador bom de bola, agora que ia ser tudo isto é que não. Mas lembro-me dos primeiros treinos dele connosco. Os veteranos diziam-lhe ‘ouve lá, ó miúdo, tem calma’ quando ele começava a fazer aquelas coisas com os pés e a bola.

E ele?

‘Calma, o car****’. Jajajajajaja. E continuava a fintar. Lindo. Fui muito chegado a ele, porque dava-lhe boleia para a Expo, onde ele vivia. E porque ele gostava do meu estilo sempre brincalhão e tal. Aliás, o meu carro  era o de toda a gente. Em dia de almoços ou jantares de equipa, todos os miúdos queriam ir comigo: Ronaldo, Quaresma, Carlos Martins. E ainda havia o Nuno Santos, o guarda-redes.

Claro.

Digo-te, raramente vi uma pessoa tão identificada com o Sporting como o Nuno. Ele vivia o Sporting, respirava o Sporting, sofria pelo Sporting. E é um gajo à maneira, bem divertido, sempre bem-disposto. Está a ver, não é? Essa malta toda dentro de um carro. A gente metia o rádio alto e cantava alto até mais não. Jajajajaja.

E o resto do grupo?

Havia o Jardel.

E?

O Mário era um fenómeno: não era aquela coisa tecnicamente, mas garantia-te 30/40 golos por ano à conta da sua finalização. O Mário era muito boa gente, mas tinha mentalidade de criança. Nunca o vi falar a sério de nada, jajajajaja. Só brincava. E, claro colava-se ao meu grupo com os miúdos. Ele inventava a toda a hora os jogos mais engraçados, como meter a bola dentro de um caixote do lixo ou assim.

E mais?

Havia os mais sérios, que estavam sempre a falar de futebol. Futebol, futebol, futebol, futebol, só futebol a toda a hora.

Quem?

Pedro Barbosa, Paulo Bento, Rui Bento, Sá Pinto e Rui Jorge. Quando os via no jacuzzi, metia-me lá no meio só para chateá-los e eles expulsavam-me ‘sai daqui car*****’. Jajajajaja.  Mas digo-te, nunca vi o Paulo Bento jogar mal. Nunca. E aprendi imenso com o Paulo Bento e o Rui Bento. Só de vê-los jogar no meio-campo. Eles já eram treinadores lá dentro. Um dia, fiz dois golos ao Vitória de Guimarães nas Antas com duas assistências do Paulo Bento. O Paulo era como Guardiola, sempre a dirigir.

E o teu gang dos miúdos, bom de bola?

Só pensavam na bola, só queriam jogar à bola. Às vezes, queria tomar banho e ir para a casa. Qual quê, pá. Não via ninguém e tinha ficado de dar-lhes boleias. Então, ia ao campo, e via o Nuno Santos à baliza a defender uma série de remates intermináveis de Quaresma e Ronaldo. Outra vezes, queria sair dali e via o Ronaldo ainda no ginásio. Tinha de bater no vidro e apontar-lhe o relógio. Sabes o que ele me fazia? O gesto de caaaaalma. Já viste o descaramento?

Jajajajajajaja.

O Ronaldo sempre teve a mania do ginásio, do cuidar o corpo, do aperfeiçoar os remates à baliza. Sempre. Ele queria superar-se diaramente. Via-se isso em coisas minímas, como as corridas de 30/40 metros. Ele queria sempre saber o tempo e melhorá-lo. Comparo-o muito ao Rafa Nadal. É o valor do trabalho diário.

E o Quaresma?

É mais o Federer, talento natural. Para mim, o Quaresma podia ser um dos cinco melhores do mundo.

[aparece Paulinho na equação, Toñito estica os braços e dá-lhe um abraço de tamanho do mundo]

Todo o mundo lo quiere. Às vezes, liga-me para Tenerife, eu atendo e ele só quer falar com a minha mulher. Diz que tem um gato para ela. Há anos que diz isso. E diz que o gato está congelado. É só rir, o Paulinho. Quando jogava no Sporting, ele almoçava na minha casa uma vez por semana ou assim. Quando dava por mim, já ele tinha despachado um frango e tal e já estava a dormir no sofá. Jajajaja, que figura.

Última pergunta: o que sentiste quando marcaste aquele golo ao Sporting, em Alvalade

Xiiiiii, pedi perdão, claro. Ainda por cima, foi o golo do empate perto do fim. Temos de ser profissionais, claro, mas custou-me imenso.

É um golo de cabeça, certo?

Sim, ao segundo poste. Na baliza, Patrício.

Ai marcavas golos de cabeça?

Jajajaja. Muitos. Apesar da minha estatura, era muito oportuno. Sempre me ajudou bastante. Um dia, marquei um grande golo de cabeça ao Porto, no Dragao, e anularam-me. Menos mal, o Boavista ganhou nesse dia por 1-0.

Uyyyyy.

Era o Boavista do Jaime Pacheco. Com ele, aprendi muitíssimo e ai de ti se fechasses os olhos por uma vez que fosse. Aquilo era trabalho, trabalho e trabalho. À falta de seis jornadas, ainda estávamos na luta pelo título. Depois, fomos. Jajajajaja

[reaparece Paulinho e mais um abraço xxl]

- in maisfutebol por Rui Miguel Tovar
"Para mim , o Sporting é como uma mulher que se ama logo à primeira vista. Um homem pode conhecer várias mulheres , mas há sempre ‘aquela’, a especial. Independentemente de ficarmos com ela ou não, lembramo-nos dela para sempre!" - Ivone De Franceschi