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A final do último Campeonato de Portugal - 1937/38

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O ano de 1938 ficou marcado por quatro acontecimentos com relevância histórica para o futebol português: as comemorações dos cinquenta anos da introdução em Portugal (que partiram do pressuposto de que o futebol foi introduzido no nosso país no eixo Cascais-Lisboa em 1888, desconsiderando as reivindicações do Funchal e de Lagos quanto a serem o berço da modalidade em Portugal), com direito ao Primeiro Congresso Nacional de Futebol), o desafio aberto de três jogadores do Belenenses ao regime, ao recusarem-se a fazer a “saudação romana” antes de um jogo entre Portugal e a selecção que representava a parte da Espanha sob o domínio dos nacionalistas (ainda durante a Guerra Civil), o facto de se ter disputado a última final de um Campeonato de Portugal, pois a partir de 1938/39 essa competição foi substituída pela Taça de Portugal, e a circunstância de 1937/38 ter sido a época em que se estreou nas competições nacionais Fernando Peyroteo destinado a tornar-se o maior goleador português de todos os tempos. Já nessa época Peyroteo deu um vislumbre das suas capacidades, ao marcar setenta e um golos, em jogos oficiais e particulares.

Peyroteo, recém-chegado de Angola, sua terra natal, foi levado à sede do Sporting então instalada no Palácio Foz, em plena Praça dos Restauradores em Lisboa, palco de intensa vida social e não gostou do que viu. Diria mais tarde que “como bom desportista, sempre evitar permanecer em salões onde há perfumes ricos, raparigas interessantes, fumo de tabaco e sons”. Preferia, de longe, o campo de jogo. Chegou a Lisboa a 26 de Junho de 1937 e estreou-se num dérbi contra o Benfica, em 12 de Outubro, marcando por duas vezes e sendo determinante na vitória sportinguista por 5-3.

Em 1937/38 Sporting chegou à final do Campeonato de Portugal pela sexta vez consecutiva, um recorde que ficou para sempre imbatível, tendo amealhado três títulos nessas seis finais. A caminho do jogo decisivo começou por eliminar o Marinhense, tendo acabado com quaisquer veleidades que a equipa do centro do país pudesse ter de se transformar num “tomba-gigantes” logo no jogo da primeira mão, na Marinha Grande. O Sporting triunfou por 13-1, com três golos de Pireza, dois de Mourão, dois de Daniel e seis de Peyroteo. Perante tal vantagem, a equipa leonina encarou a segunda mão, no Lumiar, com evidente descontracção, tendo-se limitado a vencer pela margem mínima (4-3).

A eliminatória seguinte (quartos de final) foi a única em que o Sporting se deparou com dificuldades consideráveis para afastar o seu opositor. Batido pelo Belenenses fora por 4-2, conseguiu dar a volta na segunda mão, vencendo por 3-0 e apurando-se para as meias-finais por apenas um golo de diferença. Seguiu-se o Marítimo, que contava com um Campeonato de Portugal no seu palmarés e que foi vencido no Lumiar por 4-1. A segunda mão não se realizou no Funchal, porventura por aquela cidade ser considerada demasiado longínqua e não haver igualdade de tratamento entre clubes do continente e das ilhas, mas sim em Lisboa, no Estádio da Tapadinha, pertencente na altura ao Carcavelinhos. O Sporting venceu por 6-0 e apurou-se para a final. Com 32 golos marcados em seis jogos, o que dá uma média de cinco golos e um terço por jogo.

O outro finalista veio a ser o eterno rival Benfica, que se apurou após superar o Porto nas meias-finais. Batidos por 4-2 no Norte, os encarnados esmagaram o Porto na segunda mão por 7-0. Garantiu-se assim que haveria um dérbi na última final de um Campeonato de Portugal. E, para o Sporting, proporcionava-se a desforra da derrota (1-2) sofrida perante o Benfica na final de 1934/35, oportunidade que não se repetiria e que, por isso, tinha necessariamente que ser aproveitada. O jogo foi disputado no Lumiar, por acordo entre os dois clubes.

O treinador do Sporting à data era o húngaro Joseph Szabo, que na antevéspera do jogo fez saber aos seus atletas o que pretendia deles. Na sexta-feira haveria banho quente e massagens. No sábado à tarde, lição teórico-táctica na sede do Sporting, ministrada pelo método preferido do treinador, ou seja, com um tabuleiro a substituir o relvado e bonecos em lugar dos jogadores (este método era revolucionário para a época e Szabo chegou mesmo a dar as suas lições a atletas de outros clubes, nomeadamente do Casa Pia AC) e sobretudo nada de namoros. Quanto aos jogadores casados, que chegassem a casa na sexta-feira, discutissem com a mulher, dissessem que a sopa estava “uma sucata”, se deitassem de costas voltadas para a legítima esposa e só fizessem as pazes na segunda-feira, após o jogo. Para Szabo, digno representante da “Escola do Danúbio”, que reunia treinadores austríacos e húngaros que estavam na vanguarda da Europa continental, nada, mas mesmo nada, poderia perturbar a concentração dos jogadores em vésperas de jogo decisivo.

A final foi disputada no dia 26 de Junho de 1938, sob a arbitragem de Abel Ferreira. O Sporting alinhou com João Azevedo, João Jurado e Joaquim Serrano; Rui Araújo, Aníbal Paciência e Manecas; Adolfo Mourão, Manuel Soeiro, Fernando Peyroteo, Pedro Pireza e João Cruz. O Benfica, por sua vez, fez entrar em campo Augusto Amaro, Vieira e Gustavo Teixeira; João Correia, Francisco Albano e Gaspar Pinto; Domingos Lopes, Feliciano Barbosa, Espírito Santo, Luís Xavier e Alfredo Valadas. As crónicas da época destacaram a arbitragem sem mácula e o comportamento irrepreensível do público, apesar de se tratar de jogo disputado entre clubes rivais, assinalando que, possivelmente, o segundo seria consequência da primeira.

Os pupilos de Szabo terão estado com atenção na lição teórico-táctica e terão cumprido as suas restantes indicações, pois o Sporting foi superior do princípio ao final do jogo, facto que não deixou de ser referido pela imprensa. Bastaram quinze minutos para que Soeiro e Mourão pusessem o Sporting a vencer por 2-0 e a partir daí tudo se resumiu à gestão do resultado. Diz-se que, para além da grande exibição do Sporting, o Benfica não conseguiu reagir porque o vento lhe era adverso na primeira parte. No entanto, no segundo tempo o Sporting jogou contra o vento e nem por isso deixou de controlar a partida.

Já na segunda parte, Soeiro bisaria, antes de Valadas marcar o golo de honra do Benfica, na transformação de uma grande penalidade assinalada após mão de Aníbal Paciência. Mesmo sem golos de Fernando Peyroteo, o Sporting conseguira desforrar-se da derrota de 1935, vencendo o Benfica por 3-1 e sagrando-se Campeão de Portugal pela quarta vez. Encerradas as contas desta competição, Sporting e Porto ficaram com quatro títulos cada um, Belenenses e Benfica com três, Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense com um.

O Campeonato de Portugal de 1937/38 foi o primeiro troféu nacional conquistado pelo Sporting com um dos “cinco violinos” em campo, Peyroteo, o que mais cedo chegou ao Lumiar. Começara a transição da linha avançada dos anos trinta, onde pontificavam jogadores como João Cruz, Mourão, Manuel Soeiro e Pedro Pireza, ambos oriundos do Barreiro, para a era dos cinco violinos, que chegaria na segunda metade dos anos quarenta, e que incluiria Manuel Vasques, sobrinho de Soeiro e também ele barreirense.

Ver também, ficha do jogo: 1938-06-26 SPORTING – Benfica

--Pireza 19h07min de 8 de Outubro de 2008 (WEST)