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O Campeonato Nacional

Instante do jogo Ginásio-Sporting

A época 1977/78 do Basquetebol leonino foi gloriosa; tal como dois anos antes, a equipa trouxe o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal para o Sporting, a tão almejada e tão difícil dobradinha.

Os dois jogos decisivos, no culminar de percursos com muito poucas derrotas, foram os mais difíceis de vencer da época. O jogo decisivo do Campeonato foi na penúltima jornada na Figueira da Foz contra o campeão em título, o Ginásio Figueirense. Uma vitória do Sporting assegurava o título, independentemente do resultado do último jogo. O dia começou mal, com o jogo de futebol Sporting-Guimarães antecipado para o mesmo dia, e com a TV a decidir transmitir o jogo de basquetebol. Com isso, o pavilhão adversário viu-se despido de adeptos verde brancos. Para além da comitiva da equipa, estavam nas bancadas poucos “Leões”: o dirigente Vítor Salgado, que era o Director do Pelouro, a D. Alexandrina, uma “leoa” que nunca faltava, Luís Medeiros, Pedro Aguiar, J.C. Estorninho, as mulheres de alguns jogadores… e o presidente João Rocha, que estava no meio da bancada neste dia tão importante para o basquetebol, e que depois do jogo ainda foi para Lisboa assistir ao Belenenses-Sporting da taça de Portugal de Andebol. Vítor Salgado foi buscá-lo para se sentar atrás do banco do Sporting, de onde assistiu ao jogo.

Assim, o pavilhão estava completamente cheio com adeptos do Ginásio com bandeiras, bombos, gaitas de fole, panelas, gaitas, fazendo um barulho ensurdecedor de apoio aos locais. Pelas 16h30 a equipa do Sporting entrou no pavilhão e dirigiu-se às cabinas, e foi recebida com uma monumental assobiadela.

Entrando de rompante, o Ginásio cedo se adiantou no marcador, vencendo aos cinco minutos por 15-12 e aos dez por 30-22. O Sporting atacava bem, mas na defesa dava espaço de manobra e não conseguia cortar as linhas atacantes do adversário. Mesmo assim reagiu, utilizando diversos jogadores, e aos quinze minutos tinha conseguido virar o resultado para 36-37, com 48-47 ao intervalo. Quim Neves esteve menos de um minuto em campo devido a uma pancada dura de um adversário. No segundo tempo o Ginásio, incitado pelo público, tentou descolar. Inicialmente o Sporting conseguiu recuperar, com Mário Albuquerque, Nelson Serra, Helder Silva, Leonel Santos, Mike Faulkner, Rui Pinheiro, Carlos Lisboa e Augusto Baganha a revezarem-se, mas depois o Ginásio adiantou-se e chegou aos 77-67 aos dez minutos, e começou a ouvir-se música nas bancadas, com o público já certo da vitória Figueirense.

Mas o Sporting não estava ali para dançar, os jogadores acreditaram, lutaram sempre, deram tudo o que tinham, e, sem nada para perder, começaram a incutir maior agressividade no jogo. Aos 16 minutos estava 92-88, e aos 18, a dois minutos do fim, 95-91. Nessa altura, a dupla de arbitragem teve algumas decisões infelizes, prejudicando o Sporting. Mesmo assim, Mário Albuquerque fez o 95-93, e pouco depois um jogador adversário toca com a bola na perna de um companheiro, seguindo-se transposição de campo, falta clara que desta vez foi assinalada. O treinador do Ginásio protesta, cometendo falta técnica que deu origem a um lance livre convertido por Nelson Serra, e o Sporting passou a perder por apenas um ponto. Com muito pouco tempo para jogar, o Ginásio tentou reter a bola, mas os leões fizeram pressing, não concedendo espaço. Almeida, marcado em cima, falha um passe, interceptado por Carlos Lisboa, que passa a Mário Albuquerque que encesta fazendo o 95-96 a poucos segundos do fim. Mike Faulkner ainda conseguiu fazer mais dois pontos, que foram anulados. O jogo acabou, com silêncio nas bancadas e uma explosão no banco do Sporting.

O Sporting tinha vencido o jogo decisivo quando já todos os outros o consideravam perdido, mas a equipa manteve a fé, estoicismo, espírito de luta e garra, com dois minutos finais impressionantes de força e determinação. Era o sexto título nacional do Basquetebol leonino, num ano em que também o Andebol, o Hóquei em Patins, o Atletismo, e o Futebol ganharam títulos nacionais.

O público não aceitou bem a derrota, e no fim do jogo insultou a equipa do Sporting, que teve que ser protegida pela polícia. Mas no fim a festa foi verde e branca, com um jantar de arromba onde não faltou o vinho, champanhe, e cigarrilhas. O autocarro da comitiva partiu para Sangalhos já depois das 23h, e ninguém ficou admirado quando o Sporting perdeu o jogo do dia seguinte, que já não contava para nada.

A Taça de Portugal

A equipa que conquistou a Taça de Portugal

Durante o mês que se seguiu, o Sporting fez quatro jogos a contar para a Taça de Portugal, derrotando sucessivamente o Oeiras, o Oriental, o CDUP, e o Barreirense, marcando sempre mais de 100 pontos, com diferenças de pontuação sempre acima dos 20 pontos, que num caso chegou aos 104.

Foi assim, de forma relativamente fácil, que o Sporting chegou à final contra o Sangalhos, marcada para a Marinha Grande a 24 de Junho.

O Sangalhos, sentindo-se em casa com uma numerosa e ruidosa falange de apoio, entrou bem tomando conta do marcador, defendendo agressivamente, deixando o Sporting a tentar a meia distância, que não estava a funcionar bem, e chegou a uma vantagem de 11 pontos perto do intervalo. Mário Albuquerque e Mike Faulkner estavam fortemente pressionados, sem que fossem marcadas faltas aos adversários, e apenas Augusto Baganha estava a conseguir fazer o seu jogo habitual. O intervalo veio com o Sporting a perder por 41-48, e a claque sangalhense começou a cantar vitória.

Tal como já tinha acontecido na Figueira da Foz, o Sporting entrou para a segunda parte decidido a mudar o rumo aos acontecimentos. Jogando com mais garra na defesa e mais velocidade no ataque, ao fim de três minutos tinha empatado a 53-53, e aos 12 minutos conseguiu pela primeira vez passar para a frente, com 67-66 seguido de 69-66. Mas o adversário, por sua vez, reagiu, e voltou a tomar a dianteira, chegando a 79-81 a dois minutos do fim. Mas o Sporting nunca perdeu a cabeça, fez o 81-81, e finalmente foi marcada a 5ª falta ao americano dos adversários, Bill, que já tinha tido três faltas nos primeiros 15 minutos, e que depois tinha visto uma série de faltas perdoadas. Os adversários não gostaram e começaram a protestar e a armar uma enorme confusão. Leonel Santos fez o 85-83, o treinador do Sangalhos insultou os árbitros, e o seu melhor jogador restante, Santiago, atirou a bola com toda a força contra a mesa, sendo desclassificado. Seguiram-se dois lances livres que Mário Albuquerque converteu, e o jogo chegou ao fim. A equipa tinha mostrado uma enorme maturidade, escrevendo mais uma página de ouro na história do Sporting.

No fim do jogo, responsáveis, jogadores e adeptos sangalhenses mostraram não saber perder, tentando agredir os árbitos, a comitiva leonina, e a própria polícia presente que na primeira meia hora não reagiu. Foram os adeptos verde brancos presentes que formaram um cordão em torno da equipa do Sporting e entraram em luta com os adeptos adversários, protegendo os jogadores, que finalmente se conseguiram refugiar nas cabinas, juntamente com os árbitros. Ao fim de meia hora, farta de apanhar, a polícia sacou dos cassetetes, e nesse momento a multidão enraivecida dispersou.

O que fica para a história é a segunda dobradinha conquistada pelo Basquetebol do Sporting Clube de Portugal.