A Cultura do Medo

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* Fevereiro 13, 2012, 05:06 am
O medo. O negro abate-se sobre a mente e tudo parece enlameado. Vultos, contrastes esbatidos numa parede feita de angústia tornam-se reais e asfixiam a garganta. O ar parece rarefeito e os pés pesam sob um chão movediço onde as pupilas vigilantes se cravam. É impossível ver a linha do horizonte. Só sobrevive um punhado de monstros e fantasmas vazios, perdidos na procura imaginária do corpo.

Corre o ano de 1933. O medo e a falta de esperança corroem as vísceras dos alemães. ávidos de poder e oxigénio. A I Guerra Mundial destruiu-lhes a identidade, as finanças e o orgulho. Movidos por receios e ilusões, elegem um dos maiores fascínoras da História. Anos depois, Herman Goering, braço direito de Hitler, profere a seguinte frase no seu julgamento: "Com voz ou sem voz, o povo pode ser sempre levado a seguir aquilo que lhes sugere o líder. Não é tarefa difícil. Basta que ele lhes diga que estão a ser atacados, que se rotulem os pacifistas de anti-patriotas e que apresente um país em eminente perigo. Resulta sempre. Em qualquer ponto do planeta".

Viajemos. Sentados nas nossas cadeiras, aterramos em plena Guerra Fria. O mundo, dividido em dois, vê uma nação sucumbir ao medo do vermelho. Constroem-se abrigos nucleares, fala-se no fim do mundo através da divisão atómica e diaboliza-se uma opção política. Em todas as casas a diferença é encarada como uma manifestação do mal e a palavra socialismo transforma-se em grosseria. As crianças tomam o pequeno-almoço com receio de serem cozinhadas em lume brando com vodka. A liberdade é sinónimo de ânsia.

Não quero que paremos. Entramos em Setembro de 2001. Ao longe, duas torres transformam-se em nada. O pó envolve e crepita nos pulmões de Nova Iorque, germinando rapidamente o pavor. Os turbantes tornam-se punhais, as barbas compridas escondem dispositivos carregados de dinamite e tudo o que é oriundo das arábias tem um cheiro bafiento a terror. Os governantes vêm uma brecha e escapam-se aviões em direcção à terra do petróleo. O medo legitima a barbárie.

Chegamos a Portugal. Aqui. Um clube elabora um papel cheio de números e instala-se o pânico. Os números não mentem. São negativos. Fruto de quase duas décadas onde a lógica matemática apenas se verificava na disposição geométrica dos atletas em campo. O medo, mais uma vez, ocupa o espaço onde devia habitar o raciocínio e o amor. A ideia de vender o clube, outrora escabrosa, surge como única solução.

Vamos parar de viajar. Saímos do nosso veículo de transporte etéreo para pensar nas consequências de todas estas situações motivadas pelo receio. A Alemanha propagou o ódio e ficou mutilada durante várias décadas, os Estados Unidos viveram tempos de ansiedade extrema e o Médio Oriente, essa zona repleta de querelas, ficou ainda mais dividida. Quando se tomam decisões a partir de impulsos primários o resultado é a confusão. É isto que queremos para o Sporting? Vender um clube feito para os sócios porque um papel estava repleto de números negativos?

Não. Deixar vencer a cultura do medo é aceitar o caos e a incompetência. É entregar o sonho dos vários fundadores a mãos que não o conhecem. É destruir um clube que é uma "unidade indivisível constituída pela totalidade dos seus associados". No fundo, a vitória da cultura do medo será o fim do Sporting. Porque o Sporting não é uma amálgama de relatórios, não é o passivo e não é a SAD. O Sporting somos nós.

@Winston Smith 2012
« Última modificação: Fevereiro 13, 2012, 05:09 am por Winston Smith »
"The one thing that doesn't abide by majority rule is a person's conscience." - Harper Lee
**** Fevereiro 13, 2012, 08:27 am
O SPORTING SOMOS NÓS!  :clap:
Fevereiro 13, 2012, 14:03 pm
O SPORTING NÃO SOU EU. O SPORTING NÃO ÉS TU. O SPORTING SOMOS NÓS!!!!!  :clap:   :dance:   :great:   ;D   :beer:   :victory:   :mais:
***** Fevereiro 13, 2012, 15:19 pm
Vender um clube feito para os sócios porque um papel estava repleto de números negativos?

O papel encheu-se de números negativos precisamente para o clube poder ser vendido. E como há falta de inteligência, apoia-se essa estratégia.
***** Fevereiro 13, 2012, 15:20 pm
@Winston, deixa-me parabenizar-te por aquele que é indubitavelmente um dos melhores textos que já li por aqui, nesta secção e no fórum inteiro.

Representa tudo aquilo que eu defendo, usas metáforas interessantes e pertinentes, e a ideia final é aquilo que mais defendo e por que mais luto e lutarei até ao fim desta batalha decisiva que em breve travaremos:

"No fundo, a vitória da cultura do medo será o fim do Sporting. Porque o Sporting não é uma amálgama de relatórios, não é o passivo e não é a SAD. O Sporting somos nós."

Parabéns pelo texto, novamente. Muito, muito bom.
Querem acabar de vez com a nossa paixão!
Não vamos deixar... porque nunca desistimos de ti!
Fevereiro 13, 2012, 16:12 pm
:clap: Parabéns pelo texto.   
SS
*** Fevereiro 13, 2012, 18:57 pm
Excelentes palavras !  :mais:
A ganhar ou a perder, Sporting até morrer !
Fevereiro 13, 2012, 20:45 pm
Argumentos válidos, exemplos bem exemplificativos. Parabéns. O Sporting somos nós.
**** Fevereiro 13, 2012, 23:11 pm
palavras sábias, tanto a análise política como na análise ao nosso clube.
o Sporting somos nós!
SL

The past is now part of my future,the present is well out of hand Ian Curtis, Heart and Soul
* Fevereiro 14, 2012, 00:11 am
Não concordo com a análise histórica, mas estou plenamente de acordo com os efeitos nefastos do medo intencionalmente provocado, no entanto artificial.
***** Fevereiro 14, 2012, 01:35 am
Mais um belo texto de Winston Smith.  :clap:
**** Fevereiro 14, 2012, 11:28 am
Não concordo com a análise histórica, mas estou plenamente de acordo com os efeitos nefastos do medo intencionalmente provocado, no entanto artificial.


 

Excelente texto, 100% correcto, nada mais acrescentar para alem dos meus parabéns, por mais uma vez elevares exponencialmente o nível do fórum.
"Death (and Heavy Metal) to all who stand in the way of freedom for working people!"


Fevereiro 14, 2012, 18:00 pm
Winston, se todos pensassem como tu, como nós...

PELA HONRA ! PELO SPORTING !
Esforço, Dedicação, Devoção E Glória ! Eis o Sporting
**** Fevereiro 14, 2012, 20:52 pm
O "Medo" é um dos meus temas favoritos de conversa. Sou quase um estudioso do assunto  :great:


Belo texto Winston Smith  :clap:


* Fevereiro 14, 2012, 23:30 pm
Excelente, Winston, como sempre. :great:
****** Fevereiro 15, 2012, 09:24 am
Excelente parabéns, Winston Smith!  :clap: :clap:

Tem que ser de facto assim o SPORTING somos todos nós!
23-03-2013 A noite mais feliz da minha vida como Sportinguista.
A partir de agora mandamos nós e o Sporting terá o seu caminho novamente, quero vos agradecer a todos e dizer claramente para que toda a gente oiça:
Viva o Sporting Clube de Portugal! É nosso outra vez!
Palavras do Presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho. Bem haja Presidente!
****** Fevereiro 15, 2012, 15:49 pm
O Sporting não pode ser meramente um conjunto de números mas também o é, quer queiramos, quer não! Com a entrada em bolsa, temos que prestar contas a todos os investidores, como também à entidade reguladora!
  O que é importante é não deixar cair um conjuntos de valores, um conjunto de princípios pelos quais sempre nos conduzimos e que nos levaram ao sucesso e à glória!
 Infelizmente estamos alienar o carisma pelos número e acho que é isso que o Winston Smith quiz transmitir.

 Totalmente de acordo: O SPORTING SOMOS NÓS.
"I studied Italian five hours a day for many months to ensure I could communicate with the players, media and fans. Ranieri had been in England for five years and still struggled to say ‘good morning’ and ‘good afternoon." José Mourinho
Fevereiro 15, 2012, 19:42 pm
Concordo com o Winston Smith
* Fevereiro 16, 2012, 10:53 am
Citar
Chown:

O Sporting não pode ser meramente um conjunto de números mas também o é, quer queiramos, quer não! Com a entrada em bolsa, temos que prestar contas a todos os investidores, como também à entidade reguladora!
  O que é importante é não deixar cair um conjuntos de valores, um conjunto de princípios pelos quais sempre nos conduzimos e que nos levaram ao sucesso e à glória!
 Infelizmente estamos alienar o carisma pelos número e acho que é isso que o Winston Smith quiz transmitir.

 Totalmente de acordo: O SPORTING SOMOS NÓS.


Nem se trata de uma dicotomia paixão/razão. Há uns anos até entraria por aí, mas o que nos afunda é algo mais.

A invasão do clube pelos tais gestores financeiros e os seus projectos de financiamento e investimento, com zero de sensibilidade para o core business do Sporting, o desporto e essencialmente o futebol, sem capacidade de escolher, formar e investir no know how desportivo, deixaram o "projecto" coxo e condenado ao fracasso.

A teia criada por um conjunto de personalidades, que se sucedem umas às outras e unidas por uma mesma forma de pensar o clube, delfins de um mentor de um novo paradigma e que se autodefendem de erros de gestão clamorosos, fazendo tudo por tudo para manter a desresponsabilização de gestão, a protecção dos amigos e não se inibindo à secundarização dos interesses do clube, a favor de interesses próprios e/ou de terceiros, tornou o Sporting não um clube apetecível de gerir mas algo que não é possível largar das mãos, de forma que a(s) verdade(s) se mantenha(m) escondida(s).

À medida que tudo começava a falhar e falo das perdas financeiras pela incapacidade de rentabilização de património construído e da dívida ( monstra ) inerente, pela incapacidade na gestão desportiva, que acumulou dezenas e dezenas de milhões de prejuízos, só minimizada pelo retorno de activos da formação, pincela-se a incompetência com um discurso que com o tempo se tornou a imagem de marca destes gestores e vai enraizando nos adeptos. A má gestão e a dívida por esta criada, é quase que tida por obra do destino e do azar... por isso mesmo limita-se a ambição desportiva, passam-se mandatos inteiros a disfarçar, através de aumentos e reduções de capital, reestruturações financeiras e afins, os buracos anuais criados, em vez de se arranjarem soluções que permitissem dar ao clube um rumo e um verdadeiro projecto.

Cria-se então o conceito de inevitabilidade. Coloca-se a hipótese de venda do futebol do clube como única alternativa e pasme-se, tal coisa cai como natural entre o universo Sportinguista, que continuando a seguir pela cartilha dos dirigentes, que lhes interessou fazer entranhar nos adeptos que o destino do Sporting era chegar a um ponto de insustentabilidade, de secundarização global face aos seus rivais e que nada havia a fazer quanto a isto, ilibando os intervenientes na gestão do clube, culpando o alinhamento cósmico que definiu "este" Sporting. E o mais arrepiante, é que os nossos dirigentes, claramente sem soluções para o monstro que criaram, nem tentaram vender investimento estrangeiro à la Man City e outros. Não, tal ideia começou a ser ventilada apenas como forma de o Sporting conseguir pagar as suas despesas correntes.

Para mim e até prova em contrário, o que está na mesa, é perdermos a gestão do nosso clube não a troco de um sonho, por pouco sentido que esse sonho faça, tendo em conta a realidade competitiva do país e da nossa liga, de milhões e milhões para se lutar por títulos importantes, mas sim a troco de uns baldes de areia que vão tapando o buraco pela incompetência da nossa gestão.

****** Fevereiro 16, 2012, 11:02 am
Assino por baixo Lion73.
"I studied Italian five hours a day for many months to ensure I could communicate with the players, media and fans. Ranieri had been in England for five years and still struggled to say ‘good morning’ and ‘good afternoon." José Mourinho