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A Cultura do Medo

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O medo. O negro abate-se sobre a mente e tudo parece enlameado. Vultos, contrastes esbatidos numa parede feita de angústia tornam-se reais e asfixiam a garganta. O ar parece rarefeito e os pés pesam sob um chão movediço onde as pupilas vigilantes se cravam. É impossível ver a linha do horizonte. Só sobrevive um punhado de monstros e fantasmas vazios, perdidos na procura imaginária do corpo.

Corre o ano de 1933. O medo e a falta de esperança corroem as vísceras dos alemães. ávidos de poder e oxigénio. A I Guerra Mundial destruiu-lhes a identidade, as finanças e o orgulho. Movidos por receios e ilusões, elegem um dos maiores fascínoras da História. Anos depois, Herman Goering, braço direito de Hitler, profere a seguinte frase no seu julgamento: "Com voz ou sem voz, o povo pode ser sempre levado a seguir aquilo que lhes sugere o líder. Não é tarefa difícil. Basta que ele lhes diga que estão a ser atacados, que se rotulem os pacifistas de anti-patriotas e que apresente um país em eminente perigo. Resulta sempre. Em qualquer ponto do planeta".

Viajemos. Sentados nas nossas cadeiras, aterramos em plena Guerra Fria. O mundo, dividido em dois, vê uma nação sucumbir ao medo do vermelho. Constroem-se abrigos nucleares, fala-se no fim do mundo através da divisão atómica e diaboliza-se uma opção política. Em todas as casas a diferença é encarada como uma manifestação do mal e a palavra socialismo transforma-se em grosseria. As crianças tomam o pequeno-almoço com receio de serem cozinhadas em lume brando com vodka. A liberdade é sinónimo de ânsia.

Não quero que paremos. Entramos em Setembro de 2001. Ao longe, duas torres transformam-se em nada. O pó envolve e crepita nos pulmões de Nova Iorque, germinando rapidamente o pavor. Os turbantes tornam-se punhais, as barbas compridas escondem dispositivos carregados de dinamite e tudo o que é oriundo das arábias tem um cheiro bafiento a terror. Os governantes vêm uma brecha e escapam-se aviões em direcção à terra do petróleo. O medo legitima a barbárie.

Chegamos a Portugal. Aqui. Um clube elabora um papel cheio de números e instala-se o pânico. Os números não mentem. São negativos. Fruto de quase duas décadas onde a lógica matemática apenas se verificava na disposição geométrica dos atletas em campo. O medo, mais uma vez, ocupa o espaço onde devia habitar o raciocínio e o amor. A ideia de vender o clube, outrora escabrosa, surge como única solução.

Vamos parar de viajar. Saímos do nosso veículo de transporte etéreo para pensar nas consequências de todas estas situações motivadas pelo receio. A Alemanha propagou o ódio e ficou mutilada durante várias décadas, os Estados Unidos viveram tempos de ansiedade extrema e o Médio Oriente, essa zona repleta de querelas, ficou ainda mais dividida. Quando se tomam decisões a partir de impulsos primários o resultado é a confusão. É isto que queremos para o Sporting? Vender um clube feito para os sócios porque um papel estava repleto de números negativos?

Não. Deixar vencer a cultura do medo é aceitar o caos e a incompetência. É entregar o sonho dos vários fundadores a mãos que não o conhecem. É destruir um clube que é uma "unidade indivisível constituída pela totalidade dos seus associados". No fundo, a vitória da cultura do medo será o fim do Sporting. Porque o Sporting não é uma amálgama de relatórios, não é o passivo e não é a SAD. O Sporting somos nós.

@Winston Smith 2012
« Última modificação: Fevereiro 13, 2012, 05:09 am por Winston Smith »
"The one thing that doesn't abide by majority rule is a person's conscience." - Harper Lee
O SPORTING SOMOS NÓS!  :clap:
O SPORTING NÃO SOU EU. O SPORTING NÃO ÉS TU. O SPORTING SOMOS NÓS!!!!!  :clap:   :dance:   :great:   ;D   :beer:   :victory:   :mais:
Vender um clube feito para os sócios porque um papel estava repleto de números negativos?

O papel encheu-se de números negativos precisamente para o clube poder ser vendido. E como há falta de inteligência, apoia-se essa estratégia.
@Winston, deixa-me parabenizar-te por aquele que é indubitavelmente um dos melhores textos que já li por aqui, nesta secção e no fórum inteiro.

Representa tudo aquilo que eu defendo, usas metáforas interessantes e pertinentes, e a ideia final é aquilo que mais defendo e por que mais luto e lutarei até ao fim desta batalha decisiva que em breve travaremos:

"No fundo, a vitória da cultura do medo será o fim do Sporting. Porque o Sporting não é uma amálgama de relatórios, não é o passivo e não é a SAD. O Sporting somos nós."

Parabéns pelo texto, novamente. Muito, muito bom.
Querem acabar de vez com a nossa paixão!
Não vamos deixar... porque nunca desistimos de ti!
:clap: Parabéns pelo texto.   
SS
Excelentes palavras !  :mais:
A ganhar ou a perder, Sporting até morrer !
Argumentos válidos, exemplos bem exemplificativos. Parabéns. O Sporting somos nós.
palavras sábias, tanto a análise política como na análise ao nosso clube.
o Sporting somos nós!
SL

The past is now part of my future,the present is well out of hand Ian Curtis, Heart and Soul
Não concordo com a análise histórica, mas estou plenamente de acordo com os efeitos nefastos do medo intencionalmente provocado, no entanto artificial.
Mais um belo texto de Winston Smith.  :clap:
Não concordo com a análise histórica, mas estou plenamente de acordo com os efeitos nefastos do medo intencionalmente provocado, no entanto artificial.


 

Excelente texto, 100% correcto, nada mais acrescentar para alem dos meus parabéns, por mais uma vez elevares exponencialmente o nível do fórum.
(Este post NÃO foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico)


Winston, se todos pensassem como tu, como nós...

PELA HONRA ! PELO SPORTING !
Esforço, Dedicação, Devoção E Glória ! Eis o Sporting
O "Medo" é um dos meus temas favoritos de conversa. Sou quase um estudioso do assunto  :great:


Belo texto Winston Smith  :clap:


Excelente, Winston, como sempre. :great:
Excelente parabéns, Winston Smith!  :clap: :clap:

Tem que ser de facto assim o SPORTING somos todos nós!
23-03-2013 A noite mais feliz da minha vida como Sportinguista.
A partir de agora mandamos nós e o Sporting terá o seu caminho novamente, quero vos agradecer a todos e dizer claramente para que toda a gente oiça:
Viva o Sporting Clube de Portugal! É nosso outra vez!
Palavras do Presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho. Bem haja Presidente!
O Sporting não pode ser meramente um conjunto de números mas também o é, quer queiramos, quer não! Com a entrada em bolsa, temos que prestar contas a todos os investidores, como também à entidade reguladora!
  O que é importante é não deixar cair um conjuntos de valores, um conjunto de princípios pelos quais sempre nos conduzimos e que nos levaram ao sucesso e à glória!
 Infelizmente estamos alienar o carisma pelos número e acho que é isso que o Winston Smith quiz transmitir.

 Totalmente de acordo: O SPORTING SOMOS NÓS.
"I studied Italian five hours a day for many months to ensure I could communicate with the players, media and fans. Ranieri had been in England for five years and still struggled to say ‘good morning’ and ‘good afternoon." José Mourinho
Concordo com o Winston Smith
Citar
Chown:

O Sporting não pode ser meramente um conjunto de números mas também o é, quer queiramos, quer não! Com a entrada em bolsa, temos que prestar contas a todos os investidores, como também à entidade reguladora!
  O que é importante é não deixar cair um conjuntos de valores, um conjunto de princípios pelos quais sempre nos conduzimos e que nos levaram ao sucesso e à glória!
 Infelizmente estamos alienar o carisma pelos número e acho que é isso que o Winston Smith quiz transmitir.

 Totalmente de acordo: O SPORTING SOMOS NÓS.


Nem se trata de uma dicotomia paixão/razão. Há uns anos até entraria por aí, mas o que nos afunda é algo mais.

A invasão do clube pelos tais gestores financeiros e os seus projectos de financiamento e investimento, com zero de sensibilidade para o core business do Sporting, o desporto e essencialmente o futebol, sem capacidade de escolher, formar e investir no know how desportivo, deixaram o "projecto" coxo e condenado ao fracasso.

A teia criada por um conjunto de personalidades, que se sucedem umas às outras e unidas por uma mesma forma de pensar o clube, delfins de um mentor de um novo paradigma e que se autodefendem de erros de gestão clamorosos, fazendo tudo por tudo para manter a desresponsabilização de gestão, a protecção dos amigos e não se inibindo à secundarização dos interesses do clube, a favor de interesses próprios e/ou de terceiros, tornou o Sporting não um clube apetecível de gerir mas algo que não é possível largar das mãos, de forma que a(s) verdade(s) se mantenha(m) escondida(s).

À medida que tudo começava a falhar e falo das perdas financeiras pela incapacidade de rentabilização de património construído e da dívida ( monstra ) inerente, pela incapacidade na gestão desportiva, que acumulou dezenas e dezenas de milhões de prejuízos, só minimizada pelo retorno de activos da formação, pincela-se a incompetência com um discurso que com o tempo se tornou a imagem de marca destes gestores e vai enraizando nos adeptos. A má gestão e a dívida por esta criada, é quase que tida por obra do destino e do azar... por isso mesmo limita-se a ambição desportiva, passam-se mandatos inteiros a disfarçar, através de aumentos e reduções de capital, reestruturações financeiras e afins, os buracos anuais criados, em vez de se arranjarem soluções que permitissem dar ao clube um rumo e um verdadeiro projecto.

Cria-se então o conceito de inevitabilidade. Coloca-se a hipótese de venda do futebol do clube como única alternativa e pasme-se, tal coisa cai como natural entre o universo Sportinguista, que continuando a seguir pela cartilha dos dirigentes, que lhes interessou fazer entranhar nos adeptos que o destino do Sporting era chegar a um ponto de insustentabilidade, de secundarização global face aos seus rivais e que nada havia a fazer quanto a isto, ilibando os intervenientes na gestão do clube, culpando o alinhamento cósmico que definiu "este" Sporting. E o mais arrepiante, é que os nossos dirigentes, claramente sem soluções para o monstro que criaram, nem tentaram vender investimento estrangeiro à la Man City e outros. Não, tal ideia começou a ser ventilada apenas como forma de o Sporting conseguir pagar as suas despesas correntes.

Para mim e até prova em contrário, o que está na mesa, é perdermos a gestão do nosso clube não a troco de um sonho, por pouco sentido que esse sonho faça, tendo em conta a realidade competitiva do país e da nossa liga, de milhões e milhões para se lutar por títulos importantes, mas sim a troco de uns baldes de areia que vão tapando o buraco pela incompetência da nossa gestão.

Assino por baixo Lion73.
"I studied Italian five hours a day for many months to ensure I could communicate with the players, media and fans. Ranieri had been in England for five years and still struggled to say ‘good morning’ and ‘good afternoon." José Mourinho