Treino Individual Específico por Posição

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***** Abril 21, 2015, 11:56 am

Como nota prévia, quero dizer que não sou um especialista em metodologia de treino.

A temática que pretendo abordar neste tópico e as ideias que vou expor resultam apenas daquilo que vou observando como alguém interessado no fenómeno do futebol. Serão naturalmente benvindos outros inputs de quem estiver mais identificado com este fenómeno.

Muito se fala da capacidade ou incapacidade que alguns treinadores têm para fazer evoluir os seus jogadores.
E sem dúvida que eles têm muita influência nisso pois podem e devem dar aos atletas, no dia à dia, um conjunto de indicações, quer de carácter individual, quer de inserção coletiva que lhes permitam evoluir.
Isso será tão mais fácil quanto maior o sucesso coletivo da própria equipa.

Em relação a isto, nenhuma dúvida sobre a importância do treinador em cenário de treino coletivo.
Aquilo que me parece que, muitas vezes, falha, é o resto.

São conhecidas várias histórias de sucesso de jogadores que insistem em fazer treino individual extra-treinos coletivos. Estou-me a lembrar, por exemplo, do Drulovic e, mais recentemente, do Ronaldo que deve ser dos maiores adeptos deste tipo de trabalho.

Excetuando casos de limitações mais extremas em certas ações técnicas específicas, não estou a dizer que os jogadores devem ser obrigados a fazer este tipo de overtime.
Aliás, nem tenho uma opinião muito formada sobre essa obrigatoriedade.

Aquilo que refiro é que os clubes (neste caso, o clube que me interessa que é o SCP) deve, não só fomentar entre os jogadores esse hábito (exceto em momentos em que se considere inoportuno, nomeadamente, por questões de gestão de esforço), como deve dar TODAS as condições para que este tipo de trabalho seja possível.
Qualquer jogador que, fora do treino normal, queira evoluir em algum aspeto, deve ter todas as condições logísticas ou humanas para o fazer.

Numa frase:
A evolução individual dos jogadores não deve ser vista como responsabilidade exclusiva deste ou daquele treinador, deve ser vista, isso sim, como fazendo parte da filosofia do clube que, por sua vez, a transmite a cada atleta.

Acredito MUITO, mas MUITO MESMO no efeito virtuoso do treino repetitivo exaustivo de ações técnicas específicas. Trata-se de transformar defeitos em virtudes e ser-se melhor hoje do que se era ontem.
Acredito nisso não só pelo que vejo mas por causa da minha própria experiencia pessoal em várias áreas, incluindo o futebol.

Se treinarmos uma ação 1000 vezes seguidas, no final desse treino seremos melhores a executá-la.
Isso é uma quase absoluta inevitabilidade.

Não vou ao extremo de dizer que é possível transformar um tosco num Messi.
Claro que não. Há limitações quanto à capacidade de evolução em determinado tipo de gestos técnicos.
O que digo é que, em muitos deles, é possível obter grande evolução por forma a que, em jogo, seja depois mais fácil executá-los com um tipo de preparação e uma taxa de sucesso completamente diferentes.

Isso aconteceu comigo próprio quando decidi melhorar sozinho o meu jogo com o pé esquerdo, por exemplo.
Aconteceu quando aprendi guitarra. Era impressionante a evolução que conseguia em certo tipo de execuções ao fim de as treinar 100 ou 200 vezes. No fim desses dias de treino, o que dantes me parecia quase impossível de executar com sucesso, depois já me parecia era difícil de executar de forma errada…
Acontece o mesmo no snooker.
No fundo, acontece o mesmo em praticamente tudo.

O treino repetitivo é algo quase mágico.
Na verdade, o mais difícil é ter paciência para o levar até ao fim.
O maior desafio é mental. Não é de execução.

Quando se executa uma ação um número muito alto de vezes, os resultados aparecem.
O futebol não pode ser e não é exceção a isto!

Quem é ambicioso e quer evoluir individualmente até ao limite não pode estar dependente de fazer apenas o que o treinador manda nos treinos coletivos.
Tem que poder trabalhar individualmente sozinho (às vezes, durante muito tempo) e o clube tem que dar essas condições.
E quando falo em condições estou a falar, não apenas de espaço e de equipamento, mas também de recursos humanos e de guidance se necessário.

Vou dar um exemplo:

Qualquer jogador profissional de futebol é extremamente valorizado se tiver um remate forte e colocado.
Se o Adrien ou o Carrillo decidirem que, para a sua carreira, é importante ser forte nesse aspeto, têm que ter condições para isso fora do treino normal de conjunto.
Têm que poder ficar 1 hora por dia, os dias que quiserem, só a treinar essa execução até passarem a ter uma percentagem de remates bem conseguidos muito alta.
Se for preciso fazer 10000 remates, pois que assim seja.
De certeza que, ao fim de 10000 remates, não rematarão da mesma forma que se só fizessem 20 ou 30…
Quando se repete muitas vezes a mesma coisa em pouco tempo, é o próprio cérebro que se encarrega de, de forma automática, estabelecer um processo de aprendizagem que conduz a uma evolução muito acelerada no sentido da afinação da execução.

Quem fala no treino da ação específica de remate (que pode ter mil e uma variantes), pode falar numa infinidade de outras execuções que se podem treinar de forma individualizada até à exaustão com resultados fantásticos.
Aqui, também cabe ao clube ter uma autêntica enciclopédia de treinos específicos que os jogadores poderão utilizar como guia.

Devia existir no SCP uma autêntica escola de treino específico por posição de terreno.
Se um jogador perguntar:
Na minha posição, o que me falta para ser um grande jogador?
ou
O que posso fazer para, com treino individual, evoluir cada vez mais e tornar-me num grande jogador?
O SCP devia ter resposta pronta!

Repito:
A responsabilidade pela evolução de cada jogador não pode ser entregue à exclusividade do treinador, tem que fazer parte da filosofia do clube que tem que criar condições para que ela aconteça.

Considero esta orientação importantíssima pois é algo que ajudará a rentabilizar ao máximo os recursos de que dispomos.
Nada é bom demais para o SCP!
****** Abril 28, 2015, 16:27 pm
Este tópico passou-me despercebido.

Aos anos que defendo uma revolução nos métodos de treino do SCP. A minha maior crítica a MS, e a quase certeza de que com ele no SCP e com JJ no slb, nunca ganharemos um título nacional. Os métodos de JJ assentam na tua filosofia: numa repetição exaustiva de movimentações com e sem bola, daí que se diga que os dianteiros dele joguem de olhos fechados. Não sei onde aprendeu a treinar, mas o que é certo é que ele não inventou a pólvora, alguém lhe ensinou, e depois ele, com a sua maneira de ser e de comunicar, complementou o ensinamento. O resultado é um treinador que MANDA na táctica e os jogadores só fazem o que ele pede. O próprio diz que aprendeu com Cruyff. Mourinho aprendeu com Robson. Guardiola com tantos outros. E por aí adiante. São raros os treinadores de sucesso que tenham aprendido sozinhos. Mas existem alguns:

Leonardo Jardim , por exemplo.
Marso Silva, alguns dirão. Neste eu já não acredito tanto. Subiu muito rápido. MS aprendeu com quem? Vejam o percurso enquanto jogador e treinador, e verão que não há grandes probabilidades de que os métodos de treino actuais sejam "straight forward shit". São mais do mesmo. E não me parece do tipo de pessoa que "invente" exercícios. Ele mete no treino aquilo que sabe, e o que sabe AINDA é manifestamente pouco, dados os professores que teve.

Mais do que jogadores, o investimento do SCP, terá de ser num mister. O treinador do SCP tem de ser um entusiasta do treino. Não falo de fitas cardio, ou torres de observação, ou de boxes tipo Dortmund, essas tretas para show off. Falo precisamente daquilo que aqui escreve: repetição, trabalho, suor, paciência. Qualquer jogador sonha com treinos onde só joguem à bola. É uma festa. Chegar de manhã, meínhos, risadas, e depois jogo com bola. O factor chave está em encontrar um mister que consiga dar treinos duros mas ao mesmo tempo capaz de incutir respeito e motivação nos atletas ao ponto destes acreditarem que aquele tormento, aquela seca de treino, vai surtir um efeito, e asism sendo não lhe fazem a folha.
O Sporting é o Clube de Portugal.

Há os que exigem;
Há os que reclamam;
Há os que teclam;
E há os que dão: http://www.forumscp.com/index.php?topic=59703.40
***** Abril 28, 2015, 21:42 pm
Abordas aí um tema importante que diz respeito a quem teve a sorte de ter quem como coach.
O Mourinho e o Guardiola foram uns priviligiados.
Por sua vez o Villas Boas também teve essa sorte.
Aprender com os melhores conta...

Relativamente ao tema deste tópico queria só voltar a, por um lado, sublinhar a importância do treinador na evolução individual dos jogadores, mas por outro, queria também voltar a insistir na necessidade de que esta evolução não seja da exclusiva responsabilidade dele. Esta deve antes ser uma orientação do clube que deve ter uma estrutura própria para promover esta evolução.

O facto de, em determinado momento, podermos não ter um treinador que seja forte neste tipo de trabalho não pode levar a que ele não seja feito.
Nada é bom demais para o SCP!
***** Maio 02, 2015, 19:55 pm
levando o tema para a formação... (talvez porque entenda ser onde esta questão melhor se encaixa... não em exclusivo, note-se)

há uns anos "só" se formavam extremos/alas, desde futre, figo, suinão, quaresma, CR; bruma até ao Mané e outros que ainda por cá andam. era a imagem de marca da formação Sporting.

mas a verdade é que, nos últimos anos tivemos, saídos da Academia, bons jogadores para quase todas as posições. nestes últimos tempos até com alguma predominância dos centrais, desde o dier, ilori, Nuno Reis, Pedro Mendes ou Tobias Figueiredo. ou dos médios-centro, como o moneytinho, Veloso, Adrien, João Mário, André Martins, Wallyson, William, etc etc...

duas excepções: pontas-de-lança e laterais canhotos.

seria interessante perceber se o facto de, ultimamente, estarmos a formar bons jogadores para quase todas as posições revela algum trabalho específico ou deriva apenas da qualidade intrínseca das gerações em causa, associada à necessidade de termos mesmo que apostar nesses jogadores...

por outro lado, as duas excepções...
laterais canhotos? é um problema que vai muito além do Sporting sendo, talvez, das posições mais "lixadas"... canhotos não há muitos e vão sendo (mais) aproveitados onde fazem mais a diferença. uns metros à frente.
pontas de lança. aqui penso que a questão passa muito pelo facto de termos um campeonato de juniores (nem tanto agora) muito desequilibrado onde a facilidade de concretizar é demasiada. o grau de exigência, para os nossos avançados, é baixo e o choque é muito grande quando chegam aos primeiros anos de seniores. talvez por isso se entendam desaparecimentos como os do Saleiro ou mais recentemente do Betinho (em que continuo a depositar algumas esperanças).


claro que podemos discutir se, mesmo formando bons jogadores para quase todas as posições, estes não continuam a apresentar deficiências muito... específicas. o que também é verdade.

não sei se o tema deste tópico não terá pontos de ligação com aquela ideia do BdC de criar um departamento técnico mais "científico" na Academia...  :inde: