Festival Indie Lisboa

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Todas as possibilidades do mundo!

O 14.º IndieLisboa by Allianz continua a enfrentar desafios sérios e importantes e consegue, na sua ultrapassagem, solidificar a estrutura e vincar a sua vocação. Desde Janeiro de 2016 e até ao momento presente, as famílias dos membros da associação IndieLisboa alargaram-se com o nascimento de várias crianças. Isto obrigou-nos naturalmente a reorganizações de métodos de trabalho, de tempo disponível e de capacidade de dar resposta ao trabalho e à família.

Em 2017, o IndieLisboa decidiu homenagear dois grandes cineastas, com trabalho muito diverso, como já é apanágio das duplas de heróis do festival. Paul Vecchiali é francês, tem 86 anos, filma há mais cinco décadas contando com mais de cinquenta fimes na sua extensa filmografia. Em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, a quem agradecemos publicamente, foi possível montar esta retrospectiva, composta por dezassete filmes, que pretende retratar a vastidão da obra de Vecchiali e os vários caminhos que a mesma percorre. O realizador foi ainda colaborador dos Cahiers du Cinéma, teve uma importância capital como produtor dos primeiros filmes de Jean Eustache e foi determinante na afirmação de cineastas como Jean-Claude Guiguet, Jean- Claude Biette e Serge Bozon, que diz — da produtora de Vecchiali – Diagonale — ser a última grande escola de cinema depois da Nouvelle Vague. Está aqui o mote para a descoberta do trabalho deste realizador, naquela que será a primeira retrospectiva de sempre sobre a sua obra em Portugal, com a presença do cineasta.

Do americano Jem Cohen, realizador e artista multidisciplinar, já foram exibidas diversas obras em Portugal, tanto no campo da curta como da longa metragem, em festivais como o IndieLisboa ou o Curtas Vila do Conde. A sua obra está patente em colecções, nomeadamente no MOMA e no Whitney Museum de Nova Iorque. O que ainda não se tinha feito era olhar para a imensidão da sua obra, encontrar um eixo temático e mostrá-la em todo o seu esplendor. Serão exibidos catorze filmes, sendo o mais antigo de 1996 e o mais recente já de 2017, numa estreia absoluta. O realizador estará em Portugal a acompanhar a sua retrospectiva e fará um encontro onde falará da sua vasta obra.

É tradição o IndieLisboa fazer anualmente um foco na sua secção Silvestre. Têm sido mostradas obras de cineastas como Rivers, Périot, Soldat, entre outros. Em 2017, os realizadores em foco trabalham em dupla e são Gusztáv Hámos e Katja Pratschke. Ele, húngaro, estudante de cinema na Alemanha na dffb, a célebre escola de Berlim, nos finais de década de 70. Hámos foi um percursor e um incompreendido no seu tempo. Interessado pelo vídeo (numa época em que filmar em vídeo votava um cineasta ao desprezo) e pelas imagens de espelho (num formato de instalação dentro de um filme), hoje olhamos para a sua obra com um imenso respeito. Ela, alemã, conheceram-se em Berlim a apresentar trabalhos. Nunca mais se deixaram e a influência comum, presumida, do interesse sobre a obra de Chris Marker e o fascinante La jetée, deram uma reviravolta ao trabalho de Hámos que passou a trabalhar em película (quando todos fugiam para o vídeo). A influência da fotografa no seu trabalho faz parte da orgânica dos filmes da dupla e a materialização do pré-cinema numa obra de cinema coloca estes realizadores num lugar que poucos podem almejar. Uma obra singular, bem menos conhecida do que deveria.

Ao longo dos últimos anos, o IndieLisboa tem puxado a si o território da música, seja através da secção IndieMusic, seja através do IndiebyNight, a cada ano mais fortes e com uma conquista progressiva de público da música para o cinema. Esta ligação indelével entre músicos e cineastas tem feito muitas pontes e criado verdadeiras obras-primas. Em 2015, o músico Jóhann Jóhannsson venceu o festival com a curta End of Summer. Em 2017, Stuart Staples, o mítico vocalista dos Tindersticks, apresentará o seu primeiro filme, que reporta à obra de um cineasta inglês obscuro do início do sec. XX, Minute Bodies: The Intimate World of F. Percy Smith. Disputado entre várias secções do IndieLisboa, ficou decidido apresentar-se o filme na secção Director’s Cut, com sessões na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, onde continuamos a fazer, em conjunto, uma profunda reflexão sobre o cinema, os seus autores e o seu contexto.

O cinema português tem vivido tempos conturbados com as dúvidas que se colocam na escolha de jurados ou pela SECA, ou pelo ICA. A independência e a liberdade do cinema português passa pela escolha de jurados isentos pela instituição que em nome do Ministério da Cultura tutela o cinema. Acreditamos que só um órgão como o ICA deve ter a capacidade para fazer essas escolhas e deve fazê-lo de forma transparente e competente. Só dessa forma se pode continuar a produzir bons filmes em Portugal. E continuar a trajectória de sucesso que tem vindo a obter-se junto dos principais festivais internacionais, verificando-se ainda um aumento das vendas internacionais, tendo em conta o pequeno número de filmes produzidos em Portugal. É por isso que o IndieLisboa assinala na sua sessão de abertura a exibição do filme Colo de Teresa Villaverde, um retrato do Portugal contemporâneo com distância, memória e recuo relativamente às contingências do dia-a-dia. É um filme sereno mas preocupado com a nossa situação e é o sinalizador de uma competição nacional pela primeira vez constituída por seis longas metragens e dezoito curtas metragens, o maior contingente de sempre na competição nacional do IndieLisboa. No total, teremos cerca de quarenta filmes portugueses, na sua maioria em estreia mundial ou nacional e espalhados pelas diferentes secções do festival. A acrescentar a este número, serão exibidas, no âmbito das Lisbon Screenings organizadas pela Portugal Film – Agência Internacional de Cinema Português, um conjunto de filmes (na sua maioria ainda em versões de trabalho) num espaço dedicado a programadores de festivais, distribuidores e sales agents.

Este ano apresentamos também três programas especiais de diferentes latitudes. Num momento em que Macau começa a intensificar a produção cinematográfica lançamos um olhar sobre o que está a acontecer na região, com a colaboração do Instituto de Turismo de Macau, que é também um desafio ao espectador para conhecer uma nova cinematografia. Por outro lado, ao longo dos últimos anos, o IndieLisboa tem vindo a mostrar vários dos filmes de animação desenvolvidos na Escola de Artes e Design de Lucerna (HSLU). Com base nesta ligação e historial, decidimos desafiar a HSLU a mostrar uma retrospectiva de filmes de animação realizados pelos seus alunos e professores focando o programa na técnica de stop motion, uma das marcas da escola, tendo como ponto de partida o extraordinário filme Signalis de Adrian Flückiger.

Há ainda espaço para reflectir sobre o momento presente, num período em que se fortalecem movimentos nacionalistas e populistas por todo o mundo. Relembramos que a opressão política e económica nunca foi ou será uma opção, e que a forma como o colonialismo português é visto tem tanto de brandura como de ilusão. São quatro os filmes que espelham tais questões e que apresentamos no programa Alt-cinema.

Deixamos para o fim a concretização de um desejo que se torna realidade em 2017. Durante o IndieLisboa vamos fazer nove sessões ao ar livre no terraço do Cineteatro Capitólio/Teatro Raul Solnado, que concluiu as obras no final do ano passado. Os filmes da secção IndieMusic serão o mote da programação. Enquanto se vêem os filmes, podem beber-se cervejas MUSA, porque este novo patrocinador do festival permitiu a satisfação deste acontecimento.

Terminamos desejando a todos um bom festival, acreditando que todas as possibilidades do mundo cabem na nossa mão, basta juntar boas ideias e ter uma equipa incrível a trabalhar. Aos cinemas, enchendo as salas, vendo bons filmes, encontrando os amigos, tomando um copo, assistindo a concertos e indo a festas inesquecíveis. É SÓ isto.


Carlos Ramos
 Miguel Valverde
 Nuno Sena
 (directores do IndieLisboa)